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Tratamento

Após fabricante comprovar ineficácia da ivermectina contra Covid-19, SMS segue distribuindo medicamento em Natal

Farmacêutica estadunidense, que produz a ivermectina, afirmou que não existe base científica que ateste eficácia ou traga melhorias aos pacientes infectados. No entanto, o medicamento continua sendo distribuído para os pacientes de Natal. Recentemente, a Associação Médica do RN apresentou ensaio com informações sobre benefícios do remédio
Bruno Vital
11/02/2021 | 00:16

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) mantém o protocolo de distribuição de ivermectina para o tratamento da Covid-19, mesmo após a fabricante do medicamento informar que não há evidências de que o antiparasitário seja eficaz no combate ao coronavírus. Na última sexta-feira 5, a farmacêutica estadunidense Merck Sharp and Dohme (MSD), que produz a ivermectina, afirmou que não existe base científica que ateste eficácia ou traga benefícios aos pacientes infectados.

Em comunicado, a Merck, que não vende o produto no Brasil, enfatizou que não há “nenhuma base científica para um efeito terapêutico potencial contra Covid-19 de estudos pré-clínicos”, além de não existir “nenhuma evidência significativa para atividade clínica ou eficácia clínica em pacientes com doença Covid-19”. A farmacêutica disse que ainda que não acredita que “os dados disponíveis suportem a segurança e eficácia da ivermectina além das doses e populações indicadas nas informações de prescrição aprovadas pela agência reguladora”.

Após fabricante comprovar ineficácia da ivermectina contra covid-19, sms segue distribuindo medicamento em Natal RN
Medicamento continua sendo distribuído pela Secretaria Municipal de Saúde de Natal - José Aldenir / Agora RN

A fabricante segue o entendimento da Sociedade Brasileira de Infectologia, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de que não há medicamentos aprovados para prevenção ou tratamento da Covid-19 no Brasil. Na contramão das recomendações das autoridades sanitárias, o vermífugo que é utilizado para eliminação de parasitas, segue no receituário dos três centros de tratamento de Covid-19. O suposto tratamento precoce tem a chancela da Associação Médica do Rio Grande do Norte (AMRN) e do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte.

A reportagem do Agora RN visitou o Centro de Atendimento para Enfrentamento à Covid-19 montado no Palácio dos Esportes, na Zona Leste de Natal, para acompanhar o atendimento dos pacientes, desde a triagem até a medicação. Com tosse e incômodos na garganta, Roberto Alves, de 65 anos, foi um dos atendidos na unidade, na terça-feira 9. Ele foi medicado com azitromicina e ivermectina. “Acordei meio mole, espirrando e com a garganta ruim, aí decidi vir aqui e já vou começar o tratamento”, conta o idoso.

Moema Oliveira, de 56 anos, também recebeu assistência no Centro após apresentar sintomas de Covid-19, como tosse, garganta inflamada e perda do paladar e olfato. Ainda sem o diagnóstico confirmado para a doença, ela recebeu orientação médica para iniciar o tratamento com ivermectina e azitromicina. De acordo com João de Deus, que coordena a unidade do Palácio dos Esportes detalha que além da ivermectina são distribuídos xaropes, paracetamol, dipirona, azitromicina e prednisona.“

O paciente que apresenta algum sintoma passa pela triagem e é encaminhado para o médico. Caso esteja dentro do protocolo da saúde, do Ministério da Saúde, ele faz a coleta do swab [para detecção do coronavírus] e esse resultado sai entre três e cinco dias. Apresentando os sintomas o médico já libera o paciente com a medicação aqui no Palácio dos Esportes e independente do resultado ser positivo ou negativo, o paciente já inicia o tratamento a partir do momento em que ele sai daqui”, detalhou João de Deus.

A medida vai ao encontro da recomendação da Associação Médica do Rio Grande do Norte (AMRN), que voltou a defender o uso do antiparasitário como tratamento precoce em um evento na terça 9. Segundo um estudo apresentado pela instituição, 10 mil pacientes apresentaram algum tipo de benefício utilizando a ivermectina. O ensaio foi publicado no site c19study. “É fundamental que a comunidade médica se una, aprofunde e conheça esses estudos para que mais vidas possam ser salvas”, defendeu o médico infectologista Fernando Suassuna.

O protocolo de tratamento precoce para a Covid-19 em Natal é reprovado por Luiz Paulo Rosa, médico de família e comunidade, que atua em Sítio Novo, no interior do Rio Grande do Norte. “O tratamento precoce em si é uma falácia, já que não existe comprovação da eficácia. Do ponto de vista ético também é um absurdo porque a gente não pode expor o paciente a um tratamento que não traga benefício para ele. É um absurdo também do ponto de vista de investimento, de política pública. Como é que você utiliza recursos públicos para distribuir medicamentos que são comprovadamente ineficazes para uma doença em um contexto de pandemia?”, questiona.

Após fabricante comprovar ineficácia da ivermectina contra covid-19, sms segue distribuindo medicamento em Natal RN
Medicamentos distribuídos no Centro – Foto: José Aldenir / Agora RN

Riscos

Luiz Paulo, que atuou em Natal no ano passado, faz um alerta para o que ele chama de “falso tratamento”, com remédios comprovadamente ineficazes. De acordo com ele, a medicação pode causar sensação de falsa proteção nas pessoas, o que prejudicaria a adoção de medidas realmente eficientes para contenção do vírus. “Utilizar isso como política pública em uma pandemia não faz nenhum sentido e chega a ser antiético porque você passa a falsa ideia de que ele vai se curar. Isso estimula comportamentos negacionistas contra medidas eficazes, como máscara, isolamento social e a própria vacina”, explica o médico, que também é professor de medicina de família e comunidade na UFRN.

Além de comprometer a adoção de ações coletivas de controle da pandemia, o uso indiscriminado de remédio para tratar precocemente uma doença que não possui tratamento precoce aprovado pode causar outras enfermidades, segundo o médico Luiz Paulo Rosa. “As consequências disso são inúmeras e vai depender do medicamento. A ivermectina pode causar uma série de reações adversas e inclusive simula o próprio quadro de Covid: podendo causar diarreia, sensação de fraqueza, manchas na pele, edemas de face e hepatite medicamentosa, que é uma doença mais grave. No caso da azitromicina, que é um antibiótico, existe uma grande chance do aumento da resistência bacteriana para condições que antes eram tratadas com a azitromicina, como a gonorreia e algumas infecções sexualmente transmissíveis”, explica.

A indicação da ivermectina é amplamente divulgada pelo médico e prefeito de Natal Álvaro Dias (PSDB). Em janeiro passado, o chefe do Executivo municipal se envolveu em uma polêmica ao declarar que seria a primeira pessoa a receber a vacina contra a Covid-19 em Natal, mas acabou recuando após repercussão negativa sob a justificativa de que estaria protegido por tomar regularmente o vermífugo. Dias determinou a distribuição gratuita do medicamento em todas as unidades de saúde e indicou o uso profilático (para prevenir a doença) em contraponto à orientação de autoridades científicas.

O que diz a SMS

A Secretaria de Saúde de Natal não quis se manifestar sobre o assunto. Questionada, a assessoria de imprensa se limitou a delegar o posicionamento da pasta ao titular George Antunes. O secretário não respondeu às tentativas de contato telefônico e também não foi localizado pela reportagem. Ele participaria do início da aplicação da 2ª dose da vacina contra a Covid-19 nesta quarta 10, mas cancelou o compromisso.

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