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Aliado em apuros

Prisão de Henrique Alves complica futuro do prefeito Carlos Eduardo

Apesar de administrar carreira solo desde o início de sua trajetória, aproximação recente com ex-ministro pode atrapalhar prefeito de Natal em seus projetos
Redação
08/06/2017 | 04:40

A prisão do ex-ministro Henrique Eduardo Alves (PMDB) pela Polícia Federal, após investigações apontarem recebimento de propina de empreiteiras em troca da execução de favores políticos, abala os planos futuros do prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves (PDT). Pré-candidato a governador nas eleições de 2018, o chefe do Executivo municipal assistiu nesta terça-feira 6 à derrocada de um dos seus principais aliados políticos.

Após crescer politicamente longe da família, Carlos Eduardo estabeleceu uma proximidade muito intensa com Henrique Alves, entregando nas mãos do primo a indicação para o comando de áreas estratégicas do governo municipal. A começar pela indicação do vice-prefeito na última eleição. Depois de apoiar Henrique para governador em 2014, Carlos aceitou o apoio do ex-ministro do Turismo em 2016. Em troca, o PMDB indicaria o vice.

Prisão de henrique alves complica futuro do prefeito carlos eduardo

Disputaram a indicação de vice de Carlos Eduardo o empresário Fred Queiroz, então secretário de Turismo, hoje de obras, preso nesta terça-feira na Lava Jato, o presidente da Fecomercio, Marcelo Queiroz, e o deputado estadual Álvaro Dias. Com aval de Henrique, venceu a disputa Álvaro Dias. O objetivo da articulação era que Carlos Eduardo renunciaria à Prefeitura para disputar o governo do Estado em 2018. Com isso, Henrique assumiria a Prefeitura de Natal pelas mãos de Álvaro.

Além da vice-prefeitura, outros espaços da administração municipal foram entregues por Carlos Eduardo a Henrique Alves. É o caso, além de Fred Queiroz – que, não sendo vice-prefeito, foi para a Secretaria de Obras –, de Christiane Alecrim, por exemplo. A secretária municipal de Turismo é filha do contador Eurico Alecrim, que foi tesoureiro da campanha de Henrique ao Governo em 2014. Na operação Manus, Alecrim foi levado coercitivamente para depor, assim como o publicitário Arturo Arruda (Art&C) e o ex-secretário do governo Garibaldi Jaime Mariz. O atual diretor da Urbana, Claudio Porpino, também contou com o aval de Henrique Alves.

Cargos de segundo escalão na gestão de Carlos Eduardo também são ocupados por indicações de Henrique. É o caso do ex-vice-prefeito de São Gonçalo do Amarante, Poti Neto (PMDB), que ocupar cargo no NatalPrev, o fundo de previdência dos servidores municipais. E de Marília Dias, ex-prefeita de Macaíba, que é adjunta do Turismo Municipal.

No plano federal, a gestão de Carlos Eduardo é dependente em boa medida da articulação de Henrique, que, agora preso, terá dificuldade de conquistar recursos para a administração de Carlos Eduardo.

Para além do desgaste da prisão do primo, Carlos Eduardo também tem admitido o desgastes administrativo. Desde que venceu a eleição, parece que entrou em inferno astral. De cara, começou a atrasar os salários dos servidores. Concomitantemente, ampliou as dívidas do município com fornecedores e trabalhadores terceirizados. No apagar das luzes da gestão de 2016, cometeu a irregularidade de utilizar recursos do IPTU de 2017 e está sendo investigado pelo procurador-geral de Justiça Rinaldo Reis Lima.

Ao entrar o ano de 2017, deparou-se com outros problemas. Teve de enfrentar pedido de Comissão Especial de Inquérito (CEI) para se defender do uso antecipado do IPTU, o que é considerado uma espécie de pedalada fiscal. Montou uma bancada gigantesca de 24 de um total 29 parlamentares para poder barrar o pedido. Com isso, comprometeu ainda mais a gestão, loteada por indicações de Henrique e também de outros aliados, como José Agripino e partidos pequenos com foco de 2018.

Além disso, o prefeito ousou desobedecer uma decisão do Tribunal de Contas do Estado, que determinou não sacar recursos do Natalprev, mesmo após aprovação de uma lei na Câmara de Natal. Carlos sacou, e depois foi ao presidente do TCE, Gilberto Jales, pedir desculpas e devolver o dinheiro. O episódio mostrou desrespeito com o órgão e repercutiu negativamente perante as instituições do Rio Grande do Norte.

Em meio a tudo isso, administrativamente a Prefeitura enfrenta muitos problemas. A cidade está suja, as praças estão abandonadas, as quadras de esportes destruídas, as orlas desamparadas, os postos de saúde com falta de médicos e de insumos e as salas de aula faltando professores e com deficiência estrutural. A cidade está parada em seu desenvolvimento, não há projetos de autoria própria da gestão. Em cima de tudo isso, a crise financeira não dá tréguas.

Na semana passada, pesquisa do Instituto Seta mostrou que 37,7% dos natalenses considera a gestão de Carlos Eduardo “ruim” ou “péssima”. Número que reflete o descontentamento da população que elegeu o pedetista ainda em primeiro turno em 2016.

Diante deste quadro, com o agravamento agora da prisão de seu principal aliado político, Carlos Eduardo se vê diante da necessidade de rever seus planos políticos. A não ser que aconteça um milagre, ele terá de adiar o sonho de governar o Rio Grande do Norte ficando de fora da eleição do próximo ano. A não ser que o quadro mude radicalmente, dificilmente ele será candidato.

Saída para o prefeito podem ser se afastar novamente da família
Há quem considere que os impactos políticos para Carlos Eduardo não serão tão acentuados. A favor do prefeito, argumenta-se, está o fato de que sua trajetória política foi historicamente construída de maneira autônoma dos demais membros da família.

Na campanha de 2012, por exemplo, um caso notório, a família Alves optou por apoiar outro candidato, na oportunidade Hermano Morais (PMDB). Não estavam no palanque de Carlos Eduardo nem o então deputado Henrique nem outras figuras proeminentes, como o senador Garibaldi Alves Filho (PMDB).

Em 2010, outro exemplo, o pedetista saiu em faixa própria na disputa para o Governo do Estado, enfrentando Iberê Ferreira e Rosalba Ciarlini (DEM), que detinha o apoio da maioria dos Alves.

Outro fator que analistas políticos consideram como favorável ao filho do ex-deputado Agnelo Alves é que, apesar de já estar no quarto mandato à frente da Prefeitura de Natal, ele não possui registros de envolvimento em graves escândalos de corrupção. Não há denúncias severas contra Carlos, por exemplo, compreendendo malversação de recursos públicos.

Além disso, a ausência de novas lideranças políticas que preencham o vácuo representativo deixado por figuras tradicionais envolvidas com corrupção (como Henrique Alves) favorece o prefeito da capital potiguar numa empreitada mais audaciosa na política. O próprio desgaste do governador Robinson Faria (PSD) e a rejeição já constatada em pesquisas a nomes do PT, como a senadora Fátima Bezerra, colaboram para a interpretação de que o momento é mesmo de Carlos Eduardo independente das estripulias dos familiares.