Quando o portador de câncer é uma criança não se pode esquecer a família, pois os danos causados pela doença também afetam os pais de forma intensa. Estes também têm suas vidas modificadas, tanto na rotina doméstica, quanto nos aspectos financeiro, profissional, assim como na vida conjugal. Para falar sobre as repercussões do câncer infantil no relacionamento conjugal dos pais, vamos conversar com Magali Cabral – psicóloga Casa Durval Paiva.
Que aspectos podem mudar no relacionamento familiar, quando se descobre que o filho ou a filha tem câncer?

Primeiramente é importante ressaltar que mesmo diante de tantos avanços na Medicina, o câncer ainda é uma doença extremamente temida e fortemente associada à morte. Na experiência vivenciada no setor de psicologia da Casa Durval Paiva, podemos constatar que o câncer infantil traz bastante sofrimento para a criança e sua família. Os pais têm suas vidas completamente modificadas em vários aspectos – financeiro, profissional, na rotina doméstica e também na vida conjugal.
As reações podem ser as mais diferentes. Que fatores podem influenciar nessas reações?
A maneira como cada família reage nessa situação é única e singular, levando em conta fatores como o estágio da doença, o contexto social, além da personalidade e estrutura interna de cada membro.
O tratamento do câncer geralmente exige uma atenção integral ao doente principalmente durante as longas internações às quais deve submeter-se e que exigem a presença constante de pelo menos um familiar (na maioria das vezes a mãe). O que muda na configuração da família de uma criança ou adolescente com câncer?
Mudam os papéis. É importante perceber que há uma significativa mudança na rotina e no papel que cada membro da família desempenha, pois o tratamento do câncer exige uma atenção integral à criança e demanda a presença constante dos pais. Geralmente é a mãe que deixa suas atividades e os afazeres da casa, para se dedicar ao filho enfermo, enquanto o marido acaba assumindo essas atividades que antes eram delegadas à sua esposa.
Essas mudanças podem levam às crises familiares podendo até chegar a abalos conjugais? De que forma isso se processa?
Durante o tratamento oncológico da criança, ocorre uma redefinição dos papéis ocupados pelo par parental no contexto familiar. Nesse momento em que a configuração familiar sofre mudanças, pode acabar ocorrendo uma crise familiar, como consequência de uma redefinição do papel dessa mulher dentro da família. Na maioria das vezes, as circunstâncias fazem com que o marido, a casa e o seu papel de esposa fiquem em segundo plano – agora ela é mãe em tempo integral.
De uma maneira geral, o casal acaba direcionando toda a sua atenção para os cuidados do filho doente, consequentemente é possível que a relação conjugal sofra sérios problemas, como desinteresse sexual, intensificação dos conflitos conjugais e podendo chegar, em alguns casos, à separação do casal.
O conflito de papéis é um grande problema se o casal não estiver disposto a se adaptar a essas novas mudanças. Normalmente o homem ainda pensa que tem que ser forte, que não pode chorar e que não pode compartilhar certas dificuldades com a esposa, para não parecer “fraco”. Essa falta de comunicação cria um distanciamento cada vez maior entre o casal. Acaba causando sentimento de desamparo nas mulheres e de isolamento nos homens.
Como o trabalho desenvolvido pelo psicólogo pode ajudar a evitar ou amenizar os conflitos conjugais na família de um paciente com câncer?
No setor de psicologia da Casa Durval Paiva, oportunizamos um espaço de escuta voltado para os pais, que consiste em um apoio psicológico preventivo, antes mesmo que o conflito entre o casal se instale, e de acompanhamento através de aconselhamento e orientação, alertando para a importância fundamental de que preservem o lugar do casal, que os mesmos não negligenciem a vida conjugal.
Que recomendações a senhora deixa para o ouvinte que possa enfrentar essa situação de crise familiar em virtude da doença de um filho?
Ratifico que a recomendação principal é a de que esse casal, para além do diagnóstico do filho, possa preservar o lugar do homem e da mulher. Que busquem apoio familiar, de amigos e vizinhos, que possam colaborar no cuidado e atenção às crianças, que permitam-se viver momentos a dois. Deixo aqui também um alerta para a importância de sempre investir no respeito e no diálogo.
A casa: A Casa Durval Paiva ampara crianças e adolescentes carentes portadores de câncer e doenças hematológicas crônicas juntamente com seus responsáveis, durante o tratamento em Natal. São 816 pacientes cadastrados, entre crianças e adolescentes oriundas de 132 municípios do Estado.
Contato: 4006-1600 em horário comercial.
Endereço casa: Rua Clementino Câmara, 234 Barro Vermelho – Natal.