Dois estudantes do Centro Estadual de Educação Profissional (CEEP) Maria Rodrigues Gonçalves, em Alto do Rodrigues, criaram um tecido impermeável de baixo custo para proteger trabalhadores de salinas expostos todos os dias à água de alta concentração de sal. Kauã Pereira Moura e Radja Kassiana Silva, ambos de 19 anos e alunos da 3ª série do curso técnico de informática, combinaram poliéster e silicone em pasta e chegaram a um uniforme em tamanho real, testado por trabalhadores de uma salina. A pesquisa ganhou uma segunda aplicação, um jaleco de biossegurança para profissionais de saúde.
O Rio Grande do Norte concentra mais de 90% da produção brasileira de sal marinho, segundo as séries da Agência Nacional de Mineração, e a atividade marca o cotidiano da região onde vivem os estudantes. Eles conheciam relatos de salineiros com feridas na pele e outros problemas causados pela exposição constante ao sol e à chamada água de grau, a salmoura concentrada das salinas. Numa visita técnica organizada pela escola, perceberam que muitos trabalhavam com roupas comuns, de algodão e jeans, sem a proteção necessária.

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Testes
O primeiro objetivo foi um uniforme maleável, barato e menos quente, que protegesse a pele sem atrapalhar o trabalho. Orientados pela professora de língua portuguesa e coordenadora pedagógica Jerusa Rodrigues Dantas, os alunos passaram a testar formas de impermeabilizar tecidos. A aplicação era feita em camadas, e cada uma exigia cerca de 24 horas de secagem, por isso parte da produção acontecia na escola e parte na casa dos estudantes. Depois de testar diferentes materiais e métodos, chegaram à combinação de poliéster com silicone em pasta, que garantiu impermeabilidade sem tirar a flexibilidade.
Kauã afirmou que aprender a lidar com as falhas foi uma das partes mais importantes do trabalho. “Com o projeto, aprendemos a seguir um método. Sabemos o que pode dar errado, o que pode dar certo. E foi assim que entendemos que o erro também faz parte do processo”, disse.
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Hospital
Depois de conversar com profissionais de saúde numa visita a um hospital, os estudantes adaptaram a tecnologia para um protótipo de jaleco. Nos testes, o tecido impermeabilizado impediu a passagem de líquidos mesmo após contato prolongado com sangue artificial. O pôster do projeto apresentado na Febrace 2026, a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia da Universidade de São Paulo (USP), descreve um jaleco resistente a objetos perfurocortantes e estanque a fluidos corporais, pensado a partir da rotina do Hospital e Maternidade Maria Rodrigues de Melo. O trabalho incluiu entrevista com 51 profissionais de enfermagem e lista também a estudante Iara Larissa Ferreira Xavier entre os autores, com coorientação do professor Francisco Aldísio da Silva Júnior.
Além da Febrace, Kauã e Radja apresentaram os resultados na Expo Nacional Milset Brasil e na Infomatrix Brasil. “Eu nunca pensei que sairia do Rio Grande do Norte para apresentar uma ideia desenvolvida por nós em outros estados do Brasil. Foi extraordinário”, disse Kauã.
Futuro
Para a professora Jerusa, o principal ganho está na aproximação dos alunos com a ciência. “O grande ganho é poder proporcionar ciência mesmo para quem não sabe direito o que é ciência, para quem não se identifica como cientista. Os estudantes conquistam autonomia para pesquisar, testar, errar, corrigir e defender as próprias escolhas”, afirmou.
A experiência mudou os planos dos dois. Antes da pesquisa, Kauã pensava em cursar direito e Radja não sabia que carreira seguir; hoje ambos consideram caminhos ligados à ciência. “Antes eu não tinha o hábito de pesquisar. Eu achava que as coisas simplesmente aconteciam porque eu não sabia o porquê. Hoje, toda vez que me faço uma pergunta, eu pesquiso e busco entender”, disse Radja. “O projeto me construiu como pessoa. Não sou mais a Radja de antes. Agora eu quero ser uma pessoa grandiosa. Foi o que a ciência fez em mim.”
O CEEP Maria Rodrigues Gonçalves é uma escola pública de ensino médio integral técnico. Segundo a divulgação do programa, o Ensino Médio Integral está em cerca de 6 mil escolas do país e atende mais de 1 milhão de estudantes.
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