A compra de 20 respiradores usados pela Prefeitura de Natal, em 2020, resultou em uma investigação da Polícia Federal, acusações do Ministério Público Federal e decisões judiciais que chegaram aos tribunais superiores. A contratação ocorreu durante a gestão do então prefeito Álvaro Dias (PL), hoje candidato ao Governo do Rio Grande do Norte.
A conversa em que o então secretário municipal de Saúde, George Antunes, mencionou a confiança do prefeito e de seu filho no adjunto responsável pela negociação foi interceptada em julho de 2021. Parte desse diálogo já havia sido divulgada naquele ano. Em setembro de 2026, o Agora RN publicou reportagens detalhando as declarações.

A cronologia abaixo reúne os principais acontecimentos e a situação processual verificada em 25 de setembro de 2026.
11 de maio de 2020 — Spectrum apresenta proposta
A empresa Spectrum Medic Comércio e Serviços Ltda., ligada ao empresário Wender de Sá, apresentou proposta para fornecer respiradores à Secretaria Municipal de Saúde.
Segundo o MPF, a fornecedora já havia sido escolhida antes da abertura do procedimento de contratação. Essa sequência integra a acusação de direcionamento da compra.
14 a 21 de maio de 2020 — Contratação avança por dispensa de licitação
O então secretário adjunto de Saúde, Vinícius Capuxu de Medeiros, autorizou a abertura do procedimento em 14 de maio.
No dia 19, a assessoria jurídica recomendou complementar a estimativa de preços. Conforme o MPF, essa providência não foi adotada. Vinícius assinou o termo de dispensa no dia 20 e registrou o acolhimento do parecer jurídico no dia seguinte.
A legislação emergencial da pandemia permitia compras diretas, mas a escolha do fornecedor e as condições da aquisição continuavam sujeitas a justificativa e fiscalização.
27 e 28 de maio de 2020 — Notas fiscais e contrato
As notas fiscais foram emitidas em 27 de maio, um dia antes da assinatura do contrato, segundo a acusação.
O negócio envolveu 20 ventiladores pulmonares usados ou seminovos por R$ 2,16 milhões, equivalentes a R$ 108 mil por aparelho. A aquisição está registrada no portal da transparência municipal.
7 de junho de 2020 — Chegada dos equipamentos, segundo George
Os aparelhos chegaram em 7 de junho, conforme George relatou publicamente em julho de 2021. Segundo ele, a compra atendia à necessidade de ampliar os leitos durante a pandemia.
Posteriormente, a investigação questionou as condições dos equipamentos. A defesa da contratação sustentou que eles foram utilizados no atendimento de pacientes.
Novembro de 2020 — Polícia Federal abre inquérito
A PF instaurou o inquérito a partir de uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU), que apontou indícios de irregularidades no procedimento e suspeita de superfaturamento.
O prejuízo estimado pelos investigadores foi de R$ 1.433.340. Esse valor corresponde ao dano apontado na investigação, é contestado pela defesa e não representa uma quantia comprovadamente recebida por Álvaro ou por seu filho.
1º de julho de 2021 — Operação Rebotalho vai às ruas
A PF, a CGU e o Ministério Público Federal (MPF) deflagraram a Operação Rebotalho. Quatro mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Natal, Goiânia e Aparecida de Goiânia, por determinação da 14ª Vara Federal do RN.
Naquele dia, George concedeu entrevista coletiva e defendeu a contratação. Afirmou ter acompanhado testes na fornecedora e declarou: “Os equipamentos estavam em perfeitas condições de serem usados, tanto que até hoje eles estão em uso, salvando vidas”. A declaração descrevia a situação que ele afirmava existir naquele momento.
Fonte: Comunicado da Polícia Federal sobre a operação

4 de julho de 2021 — PF intercepta conversa de George
Três dias depois da operação, George conversou por telefone com um interlocutor identificado como Marcos. A ligação começou às 10h59 e durou dez minutos e quatro segundos.
“O pior, o pior Marcos é que eu não queria comprar esse negócio, sabe? Foi aquele Secretário Adjunto que ficou insistindo nesse negócio, sabe?”, afirmou.
George disse que desconfiou da empresa e dos equipamentos, exigiu verificações e acabou permitindo a compra diante da alegada falta de alternativas. Ao falar sobre Vinícius, afirmou que o adjunto era “da confiança do Prefeito” e “da confiança do filho do Prefeito”.
Na sequência, levantou a hipótese de participação de outras pessoas: “deve ter esse povo todo envolvido, inclusive esse filho desse Prefeito”. A referência era a Álvaro e ao atual deputado estadual Adjuto Dias (PL), embora os nomes não tenham sido pronunciados naquele trecho.
O secretário também fez uma ressalva: “eu não sei até que ponto ele, de fato, estava tendo dificuldade para comprar ou se tinha algum interesse escuso, eu não posso julgar uma pessoa”. Na ligação, não apresentou elementos que comprovassem envolvimento do prefeito ou do filho.


14 de julho de 2021 — PF formaliza o relatório com a transcrição
A conversa foi registrada no Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, elaborado pela PF nessa data. O documento identifica autorização judicial do juiz federal Mário Azevedo Jambo para as interceptações.
Essa é a data do relatório policial. A ligação havia ocorrido dez dias antes.
Setembro e outubro de 2021 — Acusações chegam à Justiça
A consulta processual registra a distribuição da ação penal em 29 de setembro e da ação de improbidade administrativa em 2 de outubro.
O MPF levou à Justiça acusações contra Vinícius e Wender relacionadas à contratação e ao fornecimento dos respiradores. A ação de improbidade incluiu também as empresas Spectrum e Vega Comércio e Serviços.
São processos distintos: a ação penal apura responsabilidade criminal; a de improbidade discute responsabilização por atos contra a administração pública.
Outubro de 2021 — Parte da conversa já aparece no noticiário
A divulgação das acusações pelo MPF incluiu o trecho em que George afirmou que não queria comprar os aparelhos e atribuiu a insistência ao adjunto.
Esse conteúdo já estava reproduzido em reportagem da Tribuna do Norte publicada em 9 de outubro de 2021. Portanto, a existência da conversa e parte de seu conteúdo eram públicas naquele ano.
Novembro de 2021 — Justiça recebe a denúncia
A Justiça Federal recebeu a denúncia contra Vinícius e Wender. O recebimento permitiu o andamento da ação penal, sem representar reconhecimento de culpa.
O processo passou por questionamentos posteriores sobre a validade das provas e das decisões tomadas durante sua tramitação.
31 de março de 2022 — TRF5 invalida interceptações
Ao examinar um pedido da defesa de Vinícius, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) considerou inválidas as interceptações telefônicas e suas prorrogações por falta de fundamentação concreta sobre a necessidade da medida.
O tribunal também restringiu o período alcançado por outras quebras de sigilo e por documentos obtidos em buscas, além de afastar o bloqueio de valores. A decisão tratou da legalidade das medidas de investigação.
9 de julho de 2024 — Denúncia é novamente recebida
Depois da exclusão de provas consideradas ilícitas, a 14ª Vara Federal voltou a analisar a denúncia original e decidiu recebê-la.
Esse ato foi mencionado expressamente na decisão de agosto de 2026: o juízo afirmou que a acusação havia sido admitida com base nos elementos considerados válidos.
2025 — Pedidos na ação de improbidade são rejeitados
A Justiça Federal julgou improcedentes os pedidos apresentados na ação de improbidade contra Vinícius, Wender e as empresas.
O resultado foi favorável aos demandados nessa ação, mas não encerrou o processo criminal relacionado à compra.
19 de fevereiro de 2026 — Justiça mantém o resultado cível
A juíza federal Moniky Mayara Costa Fonseca Dantas rejeitou os embargos de declaração apresentados pelo MPF, recurso destinado a apontar omissões, contradições ou outros problemas na decisão.
A magistrada reafirmou que o contexto de calamidade pública e estado de necessidade afastava o dolo específico exigido para a responsabilização. O MPF prosseguiu com a contestação do resultado por meio de apelação.
21 de julho de 2026 — Recurso segue para o TRF5
Os autos da ação de improbidade foram remetidos ao tribunal para análise do recurso do MPF.
A apelação ficou na 2ª Turma, sob relatoria do desembargador Edilson Nobre. A existência do recurso impede tratar o resultado de primeira instância como encerramento definitivo dessa discussão.
20 de agosto de 2026 — Álvaro contesta as acusações
Em nota, as assessorias jurídica e de comunicação de Álvaro negaram sobrepreço e destacaram que ele não é réu na ação criminal.
A defesa questionou as comparações de preços, citou a escassez de equipamentos durante a pandemia e afirmou que os respiradores foram utilizados. Também sustentou que o então prefeito determinou uma vistoria antes da conclusão da compra.
25 de agosto de 2026 — Juiz determina exclusões e mantém a ação penal
O juiz federal Francisco Eduardo Guimarães Farias determinou a retirada das interceptações telefônicas, de suas prorrogações e de outros elementos, em cumprimento a decisões do TRF5 e do Supremo Tribunal Federal.
Manteve o recebimento da denúncia por considerar suficientes as provas válidas que haviam fundamentado esse ato. Determinou ainda que, após as exclusões, as defesas fossem intimadas para responder à acusação em dez dias.
A decisão não individualiza a ligação de George reproduzida nas reportagens. Seu conteúdo não equivale a uma conclusão judicial sobre a culpa dos mencionados.
3 de setembro de 2026 — Parecer é juntado à apelação
O andamento do recurso na ação de improbidade registra a juntada de um parecer do Ministério Público.
Esse era o último movimento público disponível no TRF5 na consulta realizada em 25 de setembro, sem julgamento do recurso registrado.
24 de setembro de 2026 — Agora RN detalha as declarações
O portal publicou reportagens sobre a ligação, incluindo as referências à confiança do prefeito e do filho no adjunto, a suspeita levantada por George e as ressalvas feitas pelo próprio secretário.
As publicações trataram de uma conversa captada em 4 de julho de 2021, registrada pela PF naquele mês e parcialmente divulgada ainda em 2021.
Situação verificada em 25 de setembro de 2026
A ação penal continuava em tramitação na 14ª Vara Federal do RN, sem sentença criminal registrada na consulta pública.
Vinícius e Wender respondem por peculato com causa de aumento de pena e dispensa ilegal de licitação. Wender também é acusado de fraude na execução contratual. Álvaro, Adjuto e George não são réus nessa ação penal.
Na esfera cível, permanecia pendente o julgamento da apelação do MPF contra a rejeição dos pedidos de improbidade.