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Operação Rebotalho

Ex-secretário de Saúde de Natal levanta suspeita sobre Álvaro e filho: “Deve ter esse povo todo envolvido”

George Antunes atribui a Vinícius Capuxu, então secretário adjunto indicado por Álvaro Dias, a insistência na compra de 20 respiradores por R$ 2,16 milhões; MPF aponta prejuízo de R$ 1,43 milhão
Agora RN
24/09/2026 | 23:16

O ex-secretário de Saúde de Natal George Antunes levantou suspeita de envolvimento do então prefeito e de seu filho na compra de respiradores investigada pela Operação Rebotalho. Em uma ligação interceptada pela Polícia Federal (PF), em 4 de julho de 2021, ele afirmou que o adjunto responsável pela negociação era da confiança dos dois e acrescentou: “deve ter esse povo todo envolvido”.

A referência era ao atual candidato do PL ao Governo do Rio Grande do Norte, Álvaro Dias, que administrava Natal, e ao hoje deputado estadual Adjuto Dias (PL). George ainda comandava a Secretaria Municipal de Saúde quando ocorreu a conversa. Naquele trecho, ele não pronunciou os nomes dos dois: falou em “Prefeito” e “filho do Prefeito”.

George Antunes, à esquerda, e Álvaro Dias, à direita, em retratos lado a lado
George Antunes e Álvaro Dias, da esquerda para a direita. Em conversa transcrita pela PF, o ex-secretário levantou suspeita sobre o então prefeito ao tratar da compra investigada de respiradores

“São cargos que é para ser da nossa confiança, aí o cara não é da minha confiança, mas é da confiança do Prefeito, é da confiança do filho do Prefeito”, disse George ao interlocutor identificado como Marcos. O secretário se referia ao então adjunto Vinícius Capuxu de Medeiros, posteriormente denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF).

Na sequência, George formulou a suspeita: “então se no final das contas você for atrás, deve ter esse povo todo envolvido, inclusive esse filho desse Prefeito, o cara quer se candidatar aí a Deputado”. Adjuto foi eleito deputado estadual em 2022. A fala registra uma hipótese levantada por George na conversa, não uma conclusão da investigação sobre Álvaro ou Adjuto.

Trecho da transcrição policial em que George Antunes menciona a confiança do prefeito e do filho no adjunto
Trecho da transcrição policial em que George menciona a confiança do prefeito e do filho no então secretário adjunto — Reprodução/PF; destaque editorial

Compra de respiradores na pandemia

O negócio investigado foi a aquisição, em 2020, de 20 respiradores usados ou seminovos por R$ 2,16 milhões, durante a pandemia de Covid-19. Cada aparelho custou R$ 108 mil. A compra ocorreu por dispensa de licitação, com contratação direta da fornecedora Spectrum Medic Comércio e Serviços Ltda. Os equipamentos eram destinados ao atendimento de pacientes com dificuldade para respirar.

O MPF estimou prejuízo de pelo menos R$ 1.433.340. Pelo cálculo da acusação, cerca de R$ 66 de cada R$ 100 gastos representariam dano aos cofres públicos. Essa estimativa é contestada pela defesa e não corresponde a uma quantia comprovadamente recebida por Álvaro ou pelo filho.

A Operação Rebotalho foi deflagrada em 1º de julho de 2021, com participação da PF, do MPF e da Controladoria-Geral da União (CGU). A investigação reuniu buscas, documentos, análises financeiras e interceptações telefônicas. Três dias depois, George conversou com Marcos sobre a compra e o impacto da operação na secretaria.

“Tudo por causa de política, e fica esse cabra de peia no meio do caminho fazendo as falcatruas dele e manchando o nome da gente, né?”, afirmou. “O nome de uma secretaria que você está dirigindo envolvido em um escândalo é chato”.

Ao explicar como a compra aconteceu, George atribuiu a insistência ao adjunto. “O pior, o pior Marcos é que eu não queria comprar esse negócio, sabe? Foi aquele Secretário Adjunto que ficou insistindo nesse negócio, sabe?”

O secretário relatou que desconfiou da negociação antes de permiti-la. “Eu fiquei cismado com medo dessa empresa não existir, sabe? Com medo desses equipamentos não prestarem…”

Segundo seu relato, a desconfiança levou à exigência de verificar a fornecedora e os aparelhos. “Rapaz, eu quero ver esse equipamento, eu quero ver se essa empresa existe, eu não vou deixar você comprar esse negócio assim no escuro não, porque eu não sou doido não”, disse, reproduzindo o que teria falado ao adjunto.

George afirmou, porém, que acabou autorizando a aquisição. “Aí com muita luta eu permiti”, declarou. A justificativa apresentada por Vinícius, segundo ele, era a falta de alternativas: “Ele me disse que esgotou todas as tentativas, que não tinha respirador para comprar”.

“Ora, se ele é o meu Secretário Adjunto da área, é o responsável pelo serviço, tá me dizendo que não tem outra alternativa, então tenho que acreditar nele, eu vou fazer o quê?”, afirmou. Foi depois dessa explicação que mencionou a confiança do prefeito e do filho no adjunto.

Na mesma conversa, George disse que a escassez de equipamentos durante a pandemia dificultava avaliar os preços. Também fez uma ressalva sobre Vinícius: “eu não sei até que ponto ele, de fato, estava tendo dificuldade para comprar ou se tinha algum interesse escuso, eu não posso julgar uma pessoa”.

Trecho da transcrição policial em que George Antunes diz não poder julgar o adjunto
Na mesma conversa, George diz não saber se havia dificuldade real na compra ou “interesse escuso” e afirma que não poderia julgar o adjunto — Reprodução/PF; destaque editorial

O que aponta a acusação

A suspeita de direcionamento apresentada pelo MPF se apoia na sequência da contratação. Segundo a acusação, a Spectrum já havia sido escolhida antes da abertura do procedimento: sua proposta era de 11 de maio de 2020, e a dispensa foi autorizada no dia 14. As notas fiscais foram emitidas em 27 de maio, antes da assinatura do contrato, no dia seguinte.

Os investigadores também questionaram as condições dos aparelhos. Conforme o MPF, cinco respiradores foram devolvidos pelo Hospital Municipal de Natal por inadequação ao atendimento. A direção alertou para o “risco de morte” de pacientes caso os equipamentos quebrassem ou precisassem de manutenção frequente.

A investigação resultou em ação penal contra Vinícius e o empresário Wender de Sá, responsável pela Spectrum. Ambos respondem por peculato com causa de aumento de pena e dispensa ilegal de licitação. Peculato envolve apropriação ou desvio de recursos ou bens por funcionário público em razão do cargo. Wender também é acusado de fraude na execução do contrato. Álvaro Dias, Adjuto Dias e George Antunes não integram a relação de réus dessa ação penal.

Em manifestação divulgada em agosto de 2026, as assessorias jurídica e de comunicação de Álvaro negaram sobrepreço e contestaram a associação do ex-prefeito às acusações. Sustentaram que as comparações de valores desconsideravam diferenças entre os equipamentos e a falta de aparelhos disponíveis durante a pandemia. Afirmaram ainda que os respiradores foram utilizados no atendimento de pacientes e que Álvaro determinou uma vistoria antes da conclusão da compra. Leia a manifestação de Álvaro.

Situação na Justiça

As interceptações também foram questionadas na Justiça. Em decisão de 25 de agosto de 2026, a 14ª Vara Federal determinou a exclusão da interceptação telefônica e de suas prorrogações, em cumprimento a decisões de tribunais superiores. Manteve, entretanto, o recebimento da denúncia com base nas provas consideradas válidas. A decisão não individualiza a ligação de George reproduzida nesta reportagem. Consulte a decisão.

Em processo separado, os pedidos de responsabilização por improbidade administrativa foram julgados improcedentes. Há recurso contra esse resultado: o andamento oficial registra o envio dos autos ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região em 21 de julho de 2026. A decisão cível não encerrou a ação penal. Na consulta processual em 24 de setembro de 2026, não havia sentença criminal.

Leia também: Em escuta da PF, George Antunes cita “falcatruas” de auxiliar “da confiança de Álvaro e do filho”.

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