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Operação Rebotalho

O que ex-secretário de Saúde disse sobre Álvaro Dias e Adjuto Dias: confira o documento da PF

Fac-símiles mostram o relato sobre a compra de respiradores, a confiança atribuída a Álvaro e Adjuto e as ressalvas feitas pelo então secretário de Saúde
Agora RN
25/09/2026 | 18:38

Em uma ligação interceptada pela Polícia Federal em 4 de julho de 2021, o então secretário de Saúde de Natal, George Antunes, atribuiu ao adjunto Vinícius Capuxu de Medeiros a insistência na compra de respiradores investigada pela Operação Rebotalho. Disse que o auxiliar era da confiança do prefeito e do filho dele, levantou uma hipótese de envolvimento de outras pessoas e reconheceu que havia permitido a aquisição.

O prefeito mencionado era Álvaro Dias (PL), hoje candidato ao Governo do Rio Grande do Norte. A referência ao filho que pretendia disputar uma eleição para deputado remete a Adjuto Dias (PL), eleito deputado estadual em 2022. George não pronunciou os nomes dos dois naquele trecho.

George Antunes, Álvaro Dias e Adjuto Dias, da esquerda para a direita
George Antunes, Álvaro Dias e Adjuto Dias: ligação registrada pela PF é o foco da reportagem — Fotos: Reprodução

A conversa aconteceu três dias depois da operação e foi registrada no Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, elaborado pela PF em 14 de julho de 2021. O documento identifica uma ordem judicial do juiz federal Mário Azevedo Jambo.

Os três recortes abaixo reproduzem as páginas 4, 5 e 6 do auto. Os destaques amarelos foram acrescentados pela edição; os negritos já constam do documento.

Leia também: Entenda o caso dos respiradores que levou à Operação Rebotalho em Natal | Ex-secretário de Saúde de Natal levanta suspeita sobre Álvaro e filho: “Deve ter esse povo todo envolvido” | Em escuta da PF, ex-secretário de Saúde de Natal cita “falcatruas” de auxiliar “da confiança de Álvaro e do filho”

1. A resistência à compra — e a autorização

Trecho da transcrição da PF em que George Antunes diz que não queria comprar os respiradores e atribui a insistência ao secretário adjunto
George atribui ao adjunto a insistência na compra dos respiradores. Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, p. 4 — Reprodução/PF; destaques editoriais

“O pior, o pior Marcos é que eu não queria comprar esse negócio, sabe? Foi aquele Secretário Adjunto que ficou insistindo nesse negócio, sabe?”

George contou ao interlocutor, identificado como Marcos, que o adjunto insistia na aquisição sob a justificativa de que não havia equipamentos disponíveis em outros fornecedores. Na sequência, reconheceu: “aí com muita luta eu permiti”.

A fala registra tanto a resistência inicial quanto a decisão de autorizar a compra. Na mesma página, George também relatou desconfiança sobre a negociação: “Eu fiquei cismado com medo dessa empresa não existir, sabe? Com medo desses equipamentos não prestarem…”

2. A confiança atribuída ao prefeito e ao filho

Trecho da transcrição da PF em que George Antunes menciona a confiança do prefeito e do filho no secretário adjunto
George menciona a confiança atribuída ao prefeito e ao filho e levanta uma hipótese de envolvimento. Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, p. 5 — Reprodução/PF; destaques editoriais

“São cargos que é para ser da nossa confiança, aí o cara não é da minha confiança, mas é da confiança do Prefeito, é da confiança do filho do Prefeito”

O secretário discutia a relação de confiança necessária para trabalhar com um adjunto. Embora Vinícius integrasse a estrutura da secretaria que George comandava, ele atribuiu a confiança no auxiliar ao prefeito e ao filho.

O trecho não descreve uma ordem de Álvaro ou Adjuto para comprar os respiradores. Registra a avaliação de George sobre a ligação do adjunto com os dois.

3. A hipótese de envolvimento

“então se no final das contas você for atrás, deve ter esse povo todo envolvido, inclusive esse filho desse Prefeito, o cara quer se candidatar aí a Deputado”

Essa passagem aparece imediatamente depois da referência à confiança do prefeito e do filho, no mesmo parágrafo do recorte da página 5 reproduzido acima.

A expressão “deve ter” registra uma hipótese levantada por George. Na conversa, ele não apresenta documentos, pagamentos ou uma descrição de atos que comprovem a participação de Álvaro ou Adjuto na irregularidade investigada.

4. A ressalva sobre eventual interesse escuso

Trecho da transcrição da PF em que George Antunes diz não saber se havia dificuldade de compra ou interesse escuso
George diz não saber se havia dificuldade real de compra ou interesse escuso. Auto Circunstanciado Telefônico nº 02, p. 6 — Reprodução/PF; destaques editoriais

“eu não sei até que ponto ele, de fato, estava tendo dificuldade para comprar ou se tinha algum interesse escuso, eu não posso julgar uma pessoa.”

A ressalva surgiu quando Marcos perguntou sobre os preços dos aparelhos. George respondeu que a escassez durante a pandemia dificultava avaliar se o valor era alto ou baixo.

Ao tratar da conduta do adjunto, admitiu não saber se a dificuldade para encontrar respiradores era real ou se existia algum interesse indevido na negociação.

A compra que motivou a investigação

A Prefeitura do Natal adquiriu, em 2020, 20 respiradores usados ou seminovos por R$ 2,16 milhões, equivalentes a R$ 108 mil por unidade. A fornecedora foi a Spectrum Medic Comércio e Serviços Ltda.

O Ministério Público Federal apontou suspeitas de direcionamento da contratação, problemas nos equipamentos e superfaturamento. O prejuízo foi estimado pela acusação em pelo menos R$ 1.433.340. Esse valor corresponde ao dano calculado pelo MPF, contestado pela defesa; não demonstra que Álvaro ou Adjuto tenham recebido dinheiro.

O que aconteceu com as interceptações

Em 25 de agosto de 2026, a 14ª Vara Federal do RN determinou a exclusão da interceptação telefônica e de suas prorrogações, em cumprimento a decisões dos tribunais superiores. A decisão não individualiza a ligação reproduzida aqui. A ação penal foi mantida com base nas provas consideradas válidas.

Respondem ao processo Vinícius Capuxu de Medeiros e o empresário Wender de Sá, por peculato com causa de aumento de pena e dispensa ilegal de licitação. Wender também responde por fraude à execução contratual. Álvaro, Adjuto e George não são réus nessa ação. Na consulta pública realizada em 25 de setembro de 2026, não foi localizada sentença criminal.

O que diz a defesa

Em nota divulgada em agosto de 2026, as assessorias jurídica e de comunicação de Álvaro negaram sobrepreço, ressaltaram que ele não é acusado criminalmente e citaram a decisão que rejeitou os pedidos da ação de improbidade sobre a contratação.

Essa decisão cível foi objeto de recurso ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região e não encerrou a ação penal.

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