A estante das escolas públicas brasileiras começou a mudar justamente na faixa em que a leitura costuma perder terreno. Entre os 11 e os 14 anos, quando as atividades literárias rareiam em comparação com os primeiros anos de escola, obras de literatura afro-brasileira e indígena, livros sobre feminismo, direitos humanos e questões étnico-raciais passaram a figurar entre os mais pedidos para quem cursa os anos finais do fundamental.
O movimento é gradual, mas está registrado num levantamento que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) fez sobre os títulos mais solicitados pelas instituições públicas dentro do PNLD — o Programa Nacional do Livro e do Material Didático, que compra e distribui obras às redes de ensino.

No balanço estão confrontados os 40 livros com mais pedidos nos editais de 2020 e de 2024, separados em dois grupos: os destinados ao 6º e ao 7º anos e os voltados ao 8º e ao 9º.
Na primeira faixa, que atende sobretudo alunos de 11 e 12 anos, cinco dos 20 títulos mais requisitados em 2024 tratavam de questões raciais, indígenas, de gênero ou de direitos humanos. Quatro anos antes, eram três — dois títulos a mais em quatro anos.
Entre os estudantes mais velhos, do 8º e do 9º anos, normalmente com 13 e 14 anos, o avanço foi parecido, de duas obras: as que tratam desses temas passaram de quatro para seis entre os 20 mais pedidos.
É nessa etapa que os pesquisadores enxergam um momento decisivo para firmar o hábito de leitura. Na educação infantil e no começo do ensino fundamental, história e atividade literária ocupam espaço frequente na rotina; conforme o aluno avança nas séries, esse contato vai rareando.
A lista mais recente mostra como as escolas tentam ocupar esse vazio. Para o 6º e o 7º anos aparecem “África: Contos do Rio, da Selva e da Savana”, de Silvana Salerno; “A Árvore de Carne e Outros Contos”, de Lia Minápoty e Yaguarê Yamã; “A Árvore-Teia: uma Fábula sobre o Tempo”, de Daniel Munduruku; e “Malala: Minha História em Defesa dos Direitos das Meninas”, de Malala Yousafzai.
Na turma do 8º e do 9º, os mais procurados incluem “Na Cor da Pele”, de Júlio Emílio Braz; “As Cores da Escravidão”, de Ieda Oliveira; “A Cor da Ternura”, de Geni Guimarães; “Crônicas Indígenas para Rir e Refletir na Escola”, também de Daniel Munduruku; e dois de Jarid Arraes, “A Lenda de Dandara” e “Heroínas Brasileiras em 15 Cordéis”.
A virada acompanha discussões que ganharam corpo dentro e fora da sala de aula. O próprio PNLD tem a equidade entre os eixos que orientam suas escolhas e incentiva uma diversidade maior no acervo oferecido às redes públicas.
Nada disso significa que os clássicos tenham sumido. “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães, “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, e “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, continuam na lista de pedidos, ainda que fora das primeiras posições.
Esses números pedem uma ressalva na leitura. Uma escola pode encomendar menos exemplares novos de um clássico porque já tem a obra na estante. E livro em domínio público, aquele cujos direitos autorais já expiraram, pode ser usado em versão digital, o que libera o dinheiro do PNLD para títulos mais recentes, em vez de repor o que a biblioteca da escola já tem.
O contraste fica visível quando se comparam as escolhas da rede pública com as da rede particular. Um levantamento feito em 13 colégios particulares de São Paulo olhou os livros adotados do 6º ao 9º ano em 2026.
Só entraram na conta os livros adotados por ao menos duas dessas escolas, o que deu 43 títulos ao todo. Mais da metade era de clássicos da literatura, e os livros sobre gênero e raça apareciam com menos frequência.
Entraram na comparação os colégios Objetivo, Mackenzie, Etapa, Equipe, Stocco, Magno, Vera Cruz, Santa Cruz, Albert Sabin, Miguel de Cervantes, Visconde de Porto Seguro, Villare e o Centro Educacional Pioneiro.
Nos editais públicos, outra mudança envolve Monteiro Lobato. Em 2020, a adaptação que Denise Ortega fez de “Monteiro Lobato em Quadrinhos: os Doze Trabalhos de Hércules” ocupava a 14ª posição na lista do 6º e do 7º anos. No edital seguinte, sumiu do grupo dos mais pedidos.
A obra do escritor segue no meio de uma discussão sobre o que fazer com textos clássicos que trazem representações consideradas racistas. Educadores e pesquisadores se dividem entre tirar determinados livros de circulação, adaptá-los ou mantê-los com uma mediação que apresente ao estudante o contexto histórico e os problemas do texto.
Enquanto esse debate corre, outra categoria subiu depressa entre as mais pedidas: a dos livros sobre questões socioemocionais.
Em 2024, os títulos que tratam de bullying, de cyberbullying — o mesmo tipo de agressão levada para o ambiente virtual —, de ansiedade e de convivência social subiram às primeiras posições no 6º e no 7º anos. Estão entre eles “4998 amigos”, de Davide Calì; “10 mil Voltas ao Meu Mundo”, de Severino Rodrigues; e “Adolescente”, escrito por Débora Marques de Miranda e Leandro Fernando Malloy-Diniz.
Essa procura acompanha a entrada das competências socioemocionais na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o documento que define o que deve ser ensinado em todas as escolas do País, e mostra que a lista de leitura também responde ao que atravessa o cotidiano dos alunos.
A estante escolar, assim, passou a acumular funções. Continua oferecendo histórias que atravessaram gerações, mas passou a abrir espaço para obras em que o adolescente encontra os temas do próprio tempo. Entre clássicos, vozes novas e questões contemporâneas, o livro que a escola escolhe também diz o que ela julga importante ensinar além do conteúdo das páginas.