A Câmara de Dirigentes Lojistas de Natal vai sentar com quem disputa o Governo do Rio Grande do Norte e entregar uma lista de cobranças: arrumar as contas do Estado, melhorar a infraestrutura e derrubar os obstáculos que travam quem quer investir aqui. As propostas serão apresentadas numa rodada de encontros com os candidatos, nesta ordem — Cadu de Lula (PT), Professor Robério Paulino (PSOL), Álvaro Dias (PL) e Allyson Bezerra (União).
José Lucena, que preside a CDL Natal, faz questão de dizer que não se trata de armar confronto eleitoral com ninguém. O que a entidade quer é apresentar o que o comércio precisa e ouvir o que cada candidato se dispõe a assumir.

“Nós vamos poder conversar com os candidatos, mostrar as nossas propostas. Nós vamos entregar aos candidatos um manifesto da categoria com as principais reivindicações que nós temos. E esperar que a gente possa ajudar, de alguma forma, o plano de governo dos candidatos e o governador que vai ser eleito”, afirmou.
“Conversa vai, conversa vem, e nada chega”
A primeira cobrança da lista é por um ambiente que não empurre o investidor para longe do estado. A entidade quer discutir abertura de empresa, infraestrutura, logística, licenciamento e as condições práticas de instalar um empreendimento novo.
Lucena lamenta que investimento anunciado nos últimos anos, sobretudo no turismo, tenha ficado no anúncio. “A primeira coisa é o ambiente de trabalho. A gente poder fazer negócio, poder abrir empresa, ter infraestrutura, ter logística, tudo que a gente possa ter para que a gente possa sonhar mais”, declarou. “Natal, o Rio Grande do Norte, no caso, já tiveram muitas coisas que prometeram vir para cá. E conversa vai, conversa vem, e nada chega.”
Ele citou projetos de resort e iniciativas que orbitam o Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante como exemplos do que ficou abaixo da expectativa. Para o dirigente, é preciso descobrir onde exatamente está o gargalo — se na atuação dos governos, se no licenciamento ambiental, se em algum outro ponto da burocracia estadual.
A comparação com o vizinho apareceu na forma de uma imagem. “Alguns anos atrás, a gente olhava a Paraíba pelo retrovisor, hoje a gente está olhando a Paraíba pelo para-brisa. Então, a gente tem que mudar alguma coisa, algo tem que ser feito”, afirmou.
Ajuste fiscal e a confiança do investidor
A segunda prioridade é o equilíbrio das contas públicas. Na avaliação de Lucena, a situação fiscal do Estado mexe com a confiança do empresário e limita a chegada de capital. “Esse tema de ajuste fiscal é um tema muito sensível, é um tema que a gente discute muito internamente lá na CDL. Mas a gente sente que às vezes pouco é feito, e a gente sempre queria algo mais”, disse.
Investidor, no raciocínio dele, não tem apego a território. “O capital não aguenta desaforo. O capital está aqui hoje em função de alguma conjuntura. Se ele tiver alguma coisa mais atrativa em outro local, com certeza ele migra para o outro local”, declarou.
“Rio Grande do Norte Futebol Clube”
A entidade também quer articulação política em torno de projeto estruturante. Lucena avalia que a polarização partidária esfarelou a bancada federal potiguar e tirou dela a capacidade de agir em bloco na busca de recursos.
“Nós no passado tínhamos uma bancada fantástica, com grandes parlamentares, já tivemos presidente de Casa, tivemos tudo. Hoje em dia nossa bancada está um pouco esfacelada”, afirmou. A saída que propõe é concentrar esforço e emenda parlamentar em iniciativa de interesse comum: “Eu acho que a gente tem que formar o Rio Grande do Norte Futebol Clube. Todo mundo convergindo para a mesma ideia, para jogar as emendas todas, para fazer alguma coisa só. Não querer dividir, porque na hora que a gente divide, enfraquece.”
A escala 6×1
Há ainda um tema que preocupa a categoria: a possibilidade de o fim da escala 6×1 ser aprovado sem regra de transição e sem levar em conta que cada setor da economia funciona de um jeito. A CDL se diz alinhada a outras entidades empresariais na cobrança por um debate mais amplo antes que a mudança valha.
“Acho justo, acho bom, mas eu acho que tem que ser discutido. Por exemplo, uma empresa que só tem dois funcionários ou três funcionários, como é que ele vai fazer isso aí?”, questionou Lucena.
O tamanho do problema, segundo ele, está no perfil de quem a entidade representa: cerca de 90% da base é formada por micro e pequenas empresas, boa parte sem condição de contratar mais gente para reorganizar escala. Uma mudança aplicada de forma uniforme, adverte ele, pode empurrar o setor para demissão, para informalidade ou para a dificuldade de manter as portas abertas a semana inteira.
“Isso é um tiro no pé muito grande para muita empresa”, disse. “Cada empresa é uma realidade, cada empresa é um órgão que vive de uma forma, então, na hora que você vem com uma coisa de cima para baixo, não funciona da forma como tem que funcionar.”