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Pesquisa Abrasel

Vendas crescem, mas lucro chega a só 32% dos bares e restaurantes do RN

Férias escolares e Copa do Mundo elevaram movimento em julho, mas dificuldade para repassar custos e contas em atraso mantém pressão sobre as margens
José Aldenir
08/09/2026 | 10:50

O setor de alimentação fora do lar do Rio Grande do Norte encerrou julho com aumento das vendas, beneficiado pelas férias escolares, pelo fluxo turístico e pela movimentação provocada pela Copa do Mundo, mas o crescimento do faturamento ainda encontra dificuldades para chegar ao caixa das empresas. Pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) no Estado mostra que 52% dos estabelecimentos faturaram mais que em junho, enquanto apenas 32% conseguiram operar com lucro.

Os números expõem a diferença entre movimento e rentabilidade no setor. Enquanto mais da metade das empresas registrou aumento de receita, 45% terminaram julho em situação de equilíbrio e 22% trabalharam no prejuízo. Na comparação mensal do faturamento, 24% permaneceram estáveis e 23% tiveram queda. O quadro potiguar contrasta com o resultado nacional: no País, 42% dos bares e restaurantes tiveram lucro em julho, melhor resultado desde dezembro de 2025.

Clientes em restaurante no Rio Grande do Norte
Movimento em restaurante em Natal; pesquisa aponta alta nas vendas, mas lucro limitado no setor Foto: José Aldenir

A expansão das vendas no RN já era esperada pelos empresários. Levantamento anterior da Abrasel apontava o Estado entre os mercados mais otimistas do País para as férias de julho. Antes do início do período, 66% dos empresários potiguares esperavam faturar mais do que em um mês comum, terceiro maior percentual entre os Estados pesquisados, atrás apenas de Pernambuco, com 69%, e Alagoas, com 68%. Outros 66% também projetavam receita superior à obtida nas férias de julho de 2025.

A Copa do Mundo acrescentou demanda ao período. Antes da competição, 52% dos estabelecimentos brasileiros consultados pela Abrasel pretendiam transmitir os jogos, e 80% desse grupo esperavam faturar mais nos dias das partidas. A participação da seleção brasileira confirmou parte dessa expectativa: segundo estimativa da entidade, o último jogo do Brasil gerou crescimento médio de aproximadamente 20% no faturamento dos estabelecimentos em relação a um domingo comum.

No RN, entretanto, o aumento da clientela encontrou empresas que já conviviam com custos elevados, limitações para reajustar cardápios e passivos acumulados. O resultado é um setor no qual vender mais não significa necessariamente ampliar o lucro na mesma proporção. “O desafio atual consiste em sustentar esse avanço e, principalmente, convertê-lo em rentabilidade efetiva”, afirma o presidente da Abrasel no RN, Thiago Machado.

Segundo ele, a capacidade de transformar a receita em margem será determinante para a continuidade dos negócios após o impulso sazonal de julho. “O aumento do faturamento é importante, mas não basta. Precisamos transformar movimento em resultado, porque é a rentabilidade que permite ao empresário manter empregos, investir no negócio e continuar funcionando de forma sustentável.”

Preços represados limitam recomposição das margens

Uma das explicações para a distância entre faturamento e lucro aparece na política de preços. Entre agosto de 2025 e julho deste ano, 39% dos estabelecimentos potiguares afirmaram não ter conseguido reajustar seus preços. Outros 56% promoveram aumentos iguais ou inferiores à inflação e somente 5% conseguiram elevar os valores acima da variação dos preços no período.

Na prática, 95% dos negócios pesquisados ou não reajustaram os cardápios ou aumentaram os preços no máximo no ritmo da inflação. Isso restringe a capacidade de recompor margens quando despesas com alimentos, bebidas, mão de obra, energia, aluguel, tributos e outros custos operacionais avançam.

O fenômeno não está limitado ao Rio Grande do Norte. Na pesquisa nacional referente a julho, 36% dos estabelecimentos disseram não ter conseguido reajustar os preços nos 12 meses anteriores, 57% aplicaram aumentos iguais ou inferiores à inflação e apenas 7% conseguiram reajustes acima dela.

O comportamento revela uma característica do setor: a resistência em transferir integralmente o aumento dos custos para o consumidor. Restaurantes e bares dependem da frequência dos clientes e concorrem tanto entre si quanto com outras alternativas de alimentação. Aumentos maiores nos cardápios podem preservar a margem unitária, mas também reduzir o fluxo de consumidores.

A combinação ficou mais evidente em julho. No País, o Índice Abrasel-Stone registrou crescimento de 5,6% das vendas entre junho e julho e avanço de 12,1% na comparação anual, completando dez meses consecutivos de alta. Mesmo nesse ambiente de crescimento, 20% dos negócios brasileiros ainda fecharam julho no prejuízo e 37% ficaram em equilíbrio.

Os resultados nacionais ajudam a dimensionar a situação potiguar. Enquanto 42% das empresas brasileiras conseguiram lucro, no RN essa parcela ficou em 32%, diferença de 10 pontos percentuais. Ao mesmo tempo, o percentual de empresas potiguares com aumento do faturamento, de 52%, superou os 46% registrados nacionalmente.

Ou seja, a pesquisa sugere uma recuperação de vendas mais disseminada no Estado, mas com menor conversão dessa receita adicional em resultado positivo. O movimento reforça a avaliação de Machado de que o principal ponto de atenção deixou de ser apenas levar consumidores aos estabelecimentos e passou também pela capacidade de preservar margem sobre cada venda.

O comportamento observado em julho sucede um primeiro semestre no qual o setor nacional já apresentava sinais semelhantes. Em maio, por exemplo, 47% das empresas brasileiras informaram crescimento de faturamento sobre abril, mas apenas 39% operaram com lucro. Naquele momento, 35% não haviam conseguido reajustar preços nos 12 meses anteriores e 57% tinham aplicado correções iguais ou inferiores à inflação.

Quase metade tem contas atrasadas e impostos concentram dívidas

A situação financeira acumulada pelos estabelecimentos constitui outro obstáculo à recuperação das margens no Rio Grande do Norte. A pesquisa mostra que 48% das empresas possuem pagamentos em atraso. Isso significa que praticamente um em cada dois negócios consultados entra no segundo semestre com algum tipo de pendência.

Os débitos tributários aparecem no topo da lista. Entre os estabelecimentos potiguares com contas atrasadas, 80% apontaram impostos federais, enquanto 44% mencionaram tributos estaduais. O peso dos impostos no endividamento indica que parte das empresas tem priorizado despesas diretamente relacionadas à continuidade das operações enquanto posterga obrigações fiscais.

O cenário do RN é mais pressionado do que o retrato nacional. Em julho, 37% dos estabelecimentos brasileiros disseram ter pagamentos atrasados, 11 pontos percentuais abaixo dos 48% observados no Estado. Entre os inadimplentes do País, 75% tinham débitos com impostos federais, 51% com tributos estaduais e 32% acumulavam parcelas de empréstimos bancários vencidas.

Julho trouxe, portanto, duas leituras para o segmento potiguar. Pelo lado da demanda, as férias e a Copa confirmaram a capacidade de eventos e do fluxo turístico de elevar o movimento. O RN havia aparecido entre os três Estados com maior expectativa de crescimento durante as férias, e a pesquisa posterior mostrou que 52% efetivamente faturaram mais na comparação com junho.

Pelo lado financeiro, contudo, apenas cerca de um terço dos estabelecimentos conseguiu converter esse ambiente em lucro, enquanto 67% ficaram entre estabilidade e prejuízo. Com 48% das empresas carregando pagamentos atrasados e 39% sem conseguir reajustar os preços ao longo de 12 meses, o segundo semestre começa com uma questão que vai além da quantidade de clientes: preservar o movimento conquistado em julho e fazer com que a receita adicional se transforme em capacidade financeira para manter empregos, pagar dívidas e financiar a continuidade dos negócios.