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Sistema prisional

Inquérito vai apurar denúncias de intoxicação e água suja dada a presos

Investigação apurará alimentação fornecida e presença de impurezas na água consumida no Complexo Penal Mário Negócio e na Cadeia Pública
Agora RN
03/09/2026 | 23:52

O Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) abriu um inquérito para investigar denúncias de intoxicação alimentar em centenas de presos que estão em dois presídios estaduais em Mossoró. A apuração também alcançará a qualidade da água consumida pelos internos, após relatos de que detentos estariam utilizando coadores improvisados para reter impurezas presentes no abastecimento das celas.

A investigação envolve o Complexo Penal Estadual Agrícola Dr. Mário Negócio e a Cadeia Pública de Mossoró Juiz Manoel Onofre de Sousa. A Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (Seap) e a empresa Nave Comércio e Serviços de Alimentos, responsável pelo fornecimento das refeições, terão de prestar esclarecimentos.

Fachada da Cadeia Pública Juiz Manoel Onofre de Souza, em Mossoró
Casos de intoxicação teriam ocorrido na Cadeia Pública Juiz Manoel Onofre de Souza e outra unidade de Mossoró — SEAP/Reprodução

A abertura do inquérito foi determinada pela 14ª Promotoria de Justiça de Mossoró, com atuação na área de execução penal. O ato foi publicado na edição desta quinta-feira 3 do Diário Oficial do MPRN. O procedimento teve origem em um ofício encaminhado pela Secretaria Estadual das Mulheres, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos (SEMJIDH).

A investigação buscará identificar possíveis irregularidades na qualidade, higiene, composição nutricional e variedade das refeições. Também serão verificadas a oferta de dietas especiais e as condições de abastecimento, filtragem e potabilidade da água consumida pelos presos. Ao final, o Ministério Público poderá buscar a responsabilização civil, administrativa e disciplinar de agentes públicos e da empresa contratada, caso sejam confirmadas falhas ou danos.

Durante visita realizada em 3 de agosto ao Complexo Penal Mário Negócio, o promotor de Justiça Lúcio Romero Marinho Pereira inspecionou e experimentou a refeição servida naquele dia, considerada satisfatória. A avaliação pontual, entretanto, não afastou as denúncias apresentadas pelos presos. Segundo a portaria, os internos fizeram “severas queixas” sobre a repetição das proteínas e o modo de preparo da comida.

Na ala feminina, as reclamações envolvem a pouca variedade proteica. O inquérito também verificará se são fornecidas refeições adequadas aos presos que necessitam de dietas especiais, como os internos diagnosticados com hipertensão. Na Cadeia Pública, embora as marmitas verificadas durante a visita também tenham sido consideradas próprias para consumo naquele momento, o MPRN entendeu que o relato de um surto epidemiológico exige fiscalização permanente e sistemática.

A situação da água foi classificada como uma “grave denúncia de insalubridade hídrica”. De acordo com o documento, presos dos pavilhões masculinos do Complexo Penal relataram a presença de impurezas no abastecimento das celas e o uso de coadores improvisados para tornar a água consumível. A existência e a origem dessas partículas deverão ser examinadas por meio de análises técnicas.

Providências

O MPRN concedeu prazo de 15 dias para que a direção do Complexo Penal Mário Negócio e a Seap prestem esclarecimentos sobre as falhas no abastecimento e informem quais medidas emergenciais serão tomadas. Os órgãos também deverão apresentar detalhes sobre a fiscalização das refeições, as providências adotadas diante das reclamações e a oferta de dietas específicas.

No mesmo prazo, a Seap deverá entregar cópia integral do contrato firmado com a Nave Comércio e Serviços de Alimentos, acompanhada dos relatórios de medição e fiscalização produzidos nos três meses anteriores. O Ministério Público pretende verificar se o serviço fornecido corresponde às exigências contratuais e se houve acompanhamento efetivo por parte da administração penitenciária.

A direção da Cadeia Pública de Mossoró também deverá informar se recebeu reclamações recentes e se há registros de surtos ou atendimentos médicos relacionados à intoxicação alimentar. Já a Vigilância Sanitária de Mossoró foi acionada para realizar, em até 30 dias, inspeções nas duas unidades, com análise das condições higiênico-sanitárias das refeições e da potabilidade da água.

Os técnicos deverão produzir um laudo circunstanciado sobre as cozinhas, as marmitas e o sistema de abastecimento. O inquérito também foi comunicado aos centros de apoio do Ministério Público nas áreas criminal, de cidadania e de direitos humanos. A partir dos documentos, inspeções e análises laboratoriais, o órgão decidirá se adotará medidas extrajudiciais ou ingressará com ação na Justiça.

Procurada pelo AGORA RN, a Seap informou que os esclarecimentos serão dados no curso do inquérito junto ao MPRN.