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Saúde

Vape já foi experimentado por 29,6% dos adolescentes brasileiros, e RN vê câncer de pulmão liderar as mortes por tumor

País volta a ter aumento de fumantes pela primeira vez desde 2007, enquanto Natal reduziu o índice à metade em duas décadas
Agora RN
03/09/2026 | 19:00

O câncer de pulmão é hoje a principal causa de morte por tumor no Rio Grande do Norte. E o cenário que cerca esse dado mudou: depois de anos de queda, o Brasil voltou a registrar aumento na proporção de adultos fumantes — a primeira alta desde 2007. Números do Ministério da Saúde mostram a prevalência subindo de 9,3% para 11,6% em 2024.

Natal foi na direção oposta nas últimas duas décadas. A parcela de fumantes na capital potiguar caiu de 13,3% em 2006, quando começa a série histórica do Ministério da Saúde, para 6,6% atualmente. A redução pela metade, porém, convive com o crescimento nacional e com uma preocupação nova: os cigarros eletrônicos entre os mais jovens.

Ilustração de pulmão saudável e pulmão comprometido pelo câncer
Oncologista alerta que o cigarro eletrônico pode conter metais pesados como chumbo e cromo, associados ao desenvolvimento de câncer. Crédito: Reprodução

Entre adolescentes de 13 a 17 anos, 29,6% já experimentaram vape — quase um em cada três.

“Substâncias até mais tóxicas do que o cigarro tradicional”

Para a oncologista Danielli Matias, do Hospital Promater, a ideia de que esses dispositivos seriam menos prejudiciais pode estimular o consumo e esconder o risco real.

“O vape pode conter substâncias até mais tóxicas do que o cigarro tradicional. Além da nicotina, esses dispositivos podem apresentar metais pesados, como chumbo e cromo, associados ao desenvolvimento do câncer. Também há evidências de que o dano aos alvéolos pulmonares pode ocorrer de forma mais rápida com o uso dos cigarros eletrônicos”, alerta.

A preocupação brasileira aparece mesmo num quadro global de retração. Segundo o relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde, o número de usuários de tabaco no mundo caiu de 1,38 bilhão em 2000 para 1,2 bilhão em 2024 — contingente que, pelo tamanho, mantém o tabagismo como problema de saúde pública.

Mais gente tentando parar

Ao mesmo tempo em que o consumo preocupa, cresce a procura por ajuda para largar o cigarro. Os atendimentos do programa Fumo Zero, da Amil, subiram 172% entre 2024 e 2025: passaram de 198 para 538 beneficiários em um ano.

O movimento continuou forte em 2026. Só nos quatro primeiros meses foram 286 atendimentos — mais da metade de tudo o que se registrou ao longo de 2025.

Danielli explica que não existe quantidade de cigarro nem período de exposição que possam ser considerados seguros. Mesmo quem fuma pouco, ou parou há anos, pode ter risco maior que o de quem nunca fumou. Parar, ainda assim, dá retorno rápido e continua rendendo com o tempo.

“Parar de fumar ajuda a reduzir o risco de doenças, embora esse benefício dependa do tempo de exposição e do período desde a cessação. Esse risco diminui gradualmente. Em curto prazo, observamos melhora da vitalidade da pele e das mucosas, recuperação do paladar e do olfato e aumento da disposição física. Já em longo prazo, há melhora da capacidade respiratória e cardiovascular, além da redução do risco de desenvolver diversos tipos de câncer”, aponta.

Os sinais que passam batido

Outro problema está em identificar a doença. A tosse seca persistente é um dos principais sintomas do câncer de pulmão, mas quem fuma tende a naturalizá-la — e demora a procurar atendimento.

Tosse acompanhada de sangue também pode ocorrer. Falta de ar e dor no peito entram na lista de sinais possíveis, e costumam aparecer sobretudo quando a doença já se encontra em estágio mais avançado.

O Rio Grande do Norte deve registrar cerca de 520 novos casos de câncer de traqueia, brônquios e pulmão, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA), com aproximadamente 140 diagnósticos esperados só em Natal — números que o Agora RN publicou em 1º de agosto.

No Estado, onde esse grupo de tumores já lidera as mortes por câncer, a soma de novos diagnósticos, retomada do tabagismo no País e popularização dos dispositivos eletrônicos reforça uma orientação conhecida e ainda distante da realidade de milhões de pessoas: reduzir o risco começa por evitar o primeiro cigarro e, para quem já fuma, interromper o consumo o quanto antes.

A reportagem foi publicada na edição desta quinta-feira 3 de O Correio de Hoje: RN enfrenta avanço do câncer de pulmão.