O tratamento do diabetes tipo 2 no Brasil deixou de mirar apenas o açúcar no sangue. A nova edição da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) determina que, desde o diagnóstico, o médico persiga três objetivos ao mesmo tempo: controlar a glicemia, combater o excesso de peso e reduzir os riscos cardiovasculares e renais. A atualização vem sendo publicada de forma escalonada desde julho na plataforma digital oficial da diretriz e foi apresentada oficialmente em 19 de agosto, em transmissão da entidade.
A mudança consolida na prática clínica o conceito de síndrome cardiorrenal-metabólica: peso e risco para o coração e os rins passam a ser avaliados ao lado da glicose já na primeira consulta, para orientar a escolha dos remédios. Ganham prioridade as classes com benefício comprovado nesses órgãos — os inibidores de SGLT2, como empagliflozina e dapagliflozina, e os agonistas de GLP-1, como semaglutida, liraglutida e dulaglutida, conforme detalhou a cobertura especializada da diretriz.

O pano de fundo é o avanço da doença: 12,9% dos adultos das capitais relataram diagnóstico de diabetes em 2024, segundo o Vigitel — em 2006, eram 5,5% —, e o tipo 2 responde por cerca de 90% dos casos, conforme registrou O Correio de Hoje na edição desta sexta-feira 28. As recomendações ampliam o uso de semaglutida e tirzepatida para pacientes com obesidade (IMC a partir de 30) e permitem considerá-los no sobrepeso (IMC de 27 a 29,9), conforme o risco individual. O objetivo declarado não é estético: é reduzir complicações metabólicas, cardiovasculares e renais.
O custo segue como barreira, mas em movimento: a Anvisa aprovou neste mês o primeiro genérico de semaglutida, registrado pela EMS, com chegada às farmácias dependendo da precificação na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. O tema conversa com uma preocupação que o Agora RN vem acompanhando: a pressão estética em torno dos análogos de GLP-1 alcançou até adolescentes.
A diretriz também orienta o planejamento da gravidez — mulheres com hemoglobina glicada acima de 9% devem adiar a gestação até melhorar o controle — e fixa regras para crianças e adolescentes: semaglutida autorizada para obesidade a partir dos 12 anos (com mais de 60 kg) e tirzepatida contra o diabetes a partir dos 10. Para todos, os hábitos construídos na meia-idade seguem pesando na longevidade: alimentação, atividade física e acompanhamento contínuo permanecem na base do tratamento.