BUSCAR
BUSCAR
Eleições 2026

Número que Cury citou no debate envelheceu três dias antes: Saeb novo aponta 91,5%

Candidato falou em 95% sem aprendizado adequado em matemática; dado do Saeb 2025, divulgado dia 20, é 91,5%
Agora RN
25/08/2026 | 14:29

A cobrança mais citada de Augusto Cury (Avante) no primeiro debate presidencial, realizado no domingo 23 pela Band, veio com um número desatualizado — por pouco, e por uma razão curiosa: o dado oficial novo saiu três dias antes do encontro. Ao criticar a ausência do presidente Lula, Cury afirmou que “95% dos nossos jovens não aprendem matemática quando terminam o ensino médio”. O retrato mais recente, extraído do Saeb 2025 — cujos resultados finais o Inep divulgou em agosto —, mostra que 91,5% dos concluintes da rede pública terminam a etapa sem aprendizado adequado na disciplina, segundo análise do movimento Todos Pela Educação publicada na quinta-feira 20.

O percentual que o candidato usou não foi inventado: é o retrato do Saeb 2019, quando levantamento das plataformas QEdu e Iede apontou 95% dos alunos da escola pública sem o conhecimento esperado em matemática ao fim do ensino médio. A diferença entre as duas fotografias, porém, é o próprio debate educacional: em vinte anos de série histórica, a proporção de concluintes com aprendizado adequado subiu de 5,2% para apenas 8,5% — uma melhora de 3,3 pontos percentuais que o Todos Pela Educação classifica como estagnação. Mais da metade dos estudantes (58,6%) termina o ensino médio com desempenho abaixo do básico, e o novo Plano Nacional de Educação estabelece a meta de 80% com aprendizado adequado até 2036.

Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury em pé atrás dos púlpitos do debate da Band, com púlpitos vazios nas extremidades do palco
Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury (à direita) no debate da Band, no domingo 23: o número que Cury citou sobre matemática é o retrato do Saeb 2019; a edição 2025, divulgada três dias antes, aponta 91,5% dos concluintes sem aprendizado adequado. — Renato Puzzitto/Band

No 9º ano do ensino fundamental o avanço é mais visível — de 7,9% de alunos com nível adequado em 2005 para 18,8% em 2025 —, mas ainda deixa 81,2% abaixo do esperado. São esses os números que qualquer candidato encontrará pela frente ao prometer, como fez Cury no debate, transformar a educação em prioridade nacional.

A checagem ganha relevância porque o palco dela foi um debate marcado mais pelas ausências do que pelas propostas, como registrou o O Correio de Hoje na edição desta segunda-feira 24: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) não compareceram, e restaram nos estúdios Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e o próprio Cury. O Agora RN mostrou as cadeiras vazias que dominaram a cena e os momentos que repercutiram nas redes — das fraldas exibidas por Renan Santos com os nomes dos ausentes ao cochilo de Gilberto Kassab transmitido ao vivo.

Outros números da noite não têm lastro tão claro. Cury também afirmou que “30% dos trabalhadores do Brasil estão com síndrome de burnout” — estimativa que circula em estudos de associações de gestão do estresse, mas sem estatística oficial equivalente à do Saeb. Já as promessas de segurança pública de Renan Santos (estado de defesa e GLO em áreas dominadas por facções) e de Caiado (inteligência artificial, integração de forças e tornozeleira “no covarde”, em referência à violência doméstica) são plataformas de campanha, não fatos checáveis.

O debate estava previsto para 16 de agosto e foi adiado depois que Lula sinalizou que não iria; o presidente preferiu concorrer com o evento em entrevista à Record no mesmo horário. Zema desistiu no próprio domingo, alegando que a mudança de data havia perdido o propósito. Cury quase seguiu o mesmo caminho: chamou o evento de “teatro” em transmissão no Instagram horas antes, mas mudou de ideia após conversar com o jornalista Fernando Mitre e entrou no estúdio — a tempo de citar o número que, três dias antes, havia deixado de ser o mais atual.