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Literatura

Carla Madeira deixa a publicidade e entrega em “Quando” seu romance mais experimental

Quarto livro da autora mais vendida da ficção brasileira chegou às livrarias em 14 de agosto pela Record; escrito entre três lutos, alterna vozes e tempos para tratar de violência homofóbica, culpa e espera
Agora RN
18/08/2026 | 21:10

“Quando”, quarto romance de Carla Madeira, chegou às livrarias em 14 de agosto pela Editora Record. É o primeiro livro que a escritora mineira publica depois de duas mudanças de fundo: alcançar, em 2023, o posto de ficcionista mais vendida da literatura brasileira e, em outubro de 2025, vender ao grupo Partners a agência de publicidade Lápis Raro, que ajudou a fundar quase quarenta anos antes, para se dedicar integralmente à escrita.

O lançamento aconteceu no Cine Theatro Brasil, em Belo Horizonte, em conversa com a escritora Giovana Madalosso, dentro da programação dos 40 anos do projeto Sempre um Papo.

A escritora Carla Madeira sorri durante encontro literário
Carla Madeira lançou "Quando", seu quarto romance, pela Editora Record — Foto: Divulgação

Escrito entre lutos

O romance nasceu de um período de perdas. Durante os anos em que se tornou uma das autoras mais lidas do país, Madeira, de 61 anos, enfrentou os lutos pela mãe, pelo psicanalista e pela amiga e sócia Simone Moreira, com quem havia aberto a agência. Foi depois de uma visita a Simone, que fazia quimioterapia para tratar um câncer no pâncreas e morreu há três anos, que a escritora começou o novo livro.

“Cheguei em casa no meio daquela loucura toda, abri o computador e comecei o que seriam as primeiras palavras do livro novo”, conta a autora, em entrevista por vídeo de sua casa, em Belo Horizonte. “E o processo foi assim, por muito tempo, muito caótico.”

Para ela, a escrita ajudou a organizar o período. “Todo corpo perturbado quer produzir sentido. O processo de encontro com a linguagem é um mecanismo de retomar uma certa regularidade, certo equilíbrio”, afirma.

O sucesso comercial, diz, não interferiu na maneira como escreve. “Pensei, realmente vou entrar para o meu mundinho e que tudo o mais vá para o inferno.” A preocupação com a recepção, admite, veio depois: “Talvez eu esteja vivendo agora, com o livro entregue, porque existe uma medida de sucesso mercadológica que está posta. Mas, dentro de mim, esse livro já é um sucesso. Não topei ficar num lugar confortável e não fugi da experimentação que queria fazer.”

Os números da autora variam conforme a fonte. Segundo a reportagem original, seus romances já venderam 1,4 milhão de exemplares pela Record, dos quais 784 mil de “Tudo É Rio”, seguido por “Véspera” e “A Natureza da Mordida”; levantamentos publicados no mesmo mês falam em mais de 1,2 milhão. Em qualquer das contagens, trata-se de um dos maiores fenômenos recentes do mercado editorial brasileiro.

A construção do livro

“Quando” é o romance mais polifônico de Carla Madeira. A narrativa apresenta diferentes vozes e perspectivas dentro de uma família marcada por um trauma, e alterna tempos: uma narração pode começar com uma personagem e terminar com outra, enquanto os capítulos transitam entre passado e presente.

A história foi construída depois de um longo período de escuta. Para compor a linguagem dos personagens, a autora ouvia rádio-patrulha em busca do modo de falar da polícia e organizou rodas com crianças para observar como se comunicavam. Um dos primeiros elementos do livro foi a fala angustiada de um menino que sabia haver algo errado em sua família, mas ainda não conseguia transformar aquilo em palavras.

A trama começa com Viridiana, uma mãe à beira da morte que espera o retorno do filho, Tito. Na adolescência, ele cometeu um ato de violência homofóbica contra outro menino e foi denunciado à polícia pela própria mãe; depois de preso, experimentou também a violência do sistema prisional. O episódio provocou seu afastamento da família, e Viridiana passou os vinte anos seguintes esperando.

“Quando ele retornasse”, diz a personagem, “sua vida terá sido outra, porque há momentos capazes de mudar o que foi vivido”.

A relação entre essa espera e a “Odisseia”, de Homero, só ficou clara para a autora quando ela voltou a se aproximar da obra. No romance, a espera de Viridiana é construída em paralelo à de Penélope por Ulisses, que também dura duas décadas: a personagem passa a “tecer e desmanchar a longa espera”.

A violência que atravessa gerações

A partir da história de Tito, Madeira investiga como a violência se reproduz ao longo do tempo. Para a escritora, há uma contradição entre o que as pessoas desejam individualmente e o comportamento coletivo. “Estamos numa coisa muito destrutiva no nível do preconceito, do racismo, da violência de gênero, do clima, das guerras”, afirma. Ao mesmo tempo, “individualmente, a gente está querendo outras coisas”. A pergunta que resta: “Se ninguém quer, por que tantos brigam?”

Viridiana carrega uma culpa que considera anterior a ela. Ao lembrar o ataque do filho contra um menino afeminado, afirma: “Eu estava lá, meus pais, os pais dos meus pais, os pais dos pais dos meus pais… Estávamos todos lá.” E completa: “Tudo isso vem de muito longe.”

O lançamento foi noticiado originalmente por O Correio de Hoje, em reportagem sobre o processo de criação do novo romance.

A pauta foi publicada originalmente por O Correio de Hoje.

Véspera

A Natureza da Mordida