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Eleições 2026

Pesquisas pró-Álvaro são as únicas sob inquérito criminal no RN

Das nove pesquisas eleitorais questionadas na Justiça no Rio Grande do Norte este ano, apenas duas geraram apuração criminal, e as duas traziam o ex-prefeito de Mossoró na liderança da disputa pelo Governo do Estado
13/08/2026 | 14:30

A Justiça Eleitoral questionou nove pesquisas eleitorais registradas no RN em 2026, distribuídas entre os dois principais pré-candidatos ao Governo do Estado. Mas só duas dessas pesquisas saíram do campo administrativo e viraram caso de polícia — e ambas traziam Álvaro Dias (PL) em primeiro lugar.

São a RN-09520/2026, do instituto Ipsensus, e a RN-08092/2026, da Média Inteligência em Pesquisa. A primeira dava 32,5% a Álvaro, 27,3% a Allyson Bezerra (União) e 16,8% a Cadu Xavier (PT). A segunda apontava 32,1%, 27,5% e 18,1%, na mesma ordem. As duas foram relatadas pela desembargadora eleitoral Sulamita Bezerra Pacheco, e as duas terminaram no Ministério Público Eleitoral e na Polícia Federal.

Fachada do prédio do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte, em Natal, vista da rua em dia de céu claro
Sede do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte, em Natal, onde tramitam as representações contra os institutos de pesquisa — Foto: Julianne Barreto/Inter TV Cabugi

O que separa uma suspensão de um inquérito

A distinção é o dado central desta cobertura. Suspender a divulgação de uma pesquisa é decisão administrativa: a Justiça entende que o registro está incompleto ou que a amostra não corresponde ao que foi informado, e manda tirar os números do ar até que se esclareça. Isso aconteceu oito vezes no Estado este ano, com pesquisas dos dois lados.

Inquérito criminal é outra coisa. Ele parte da suspeita de que os dados não foram apenas mal coletados, mas inventados. Nos dois casos abertos no RN, os crimes apontados são divulgação de pesquisa fraudulenta, falsidade ideológica eleitoral e prática de atos para retardar ou dificultar a fiscalização dos partidos.

O caminho até lá começou em 15 de julho, quando a desembargadora deferiu ao Republicanos o acesso aos microdados da pesquisa do Ipsensus. Em 28 de julho, concluiu que a ordem tinha sido cumprida apenas em parte e que houve possível embaraço à fiscalização. Em 31 de julho, remeteu os autos à Procuradoria Regional Eleitoral. Em 5 de agosto veio a determinação de abertura de inquérito na Polícia Federal.

A análise da base entregue à Justiça, provocada por representação da Federação União Progressista, apontou volumes de coleta que os partidos classificaram como materialmente impossíveis: um único entrevistador teria registrado sozinho 620 entrevistas presenciais em cinco dias, e outro, 477 coletas cobrindo 45 municípios. Foram identificados 11 questionários com identificadores repetidos, somando 24 registros suspeitos, ausência de dados de geolocalização por GPS, uma equipe de seis entrevistadores operando nove códigos distintos e um estatístico com dois registros diferentes no conselho da categoria. Há ainda a suspeita, registrada nos autos, de que o Ipsensus estivesse operando como empresa interposta da Média.

No caso da Média, contratada pelo portal O Potengi por R$ 20 mil, o procurador regional eleitoral Fernando Rocha de Andrade pediu a abertura de inquérito em 3 de agosto. Segundo o pedido, 450 entrevistas teriam sido realizadas em 2 de julho, um dia antes de a pesquisa ser registrada na Justiça Eleitoral, e as coordenadas de geolocalização apontavam para pontos a dezenas ou centenas de quilômetros dos municípios declarados.

Nenhuma das duas pesquisas teve a divulgação suspensa. As duas seguem formalmente registradas.

As quatro pesquisas com Álvaro à frente que a Justiça derrubou

Além dos dois inquéritos, quatro pesquisas que traziam Álvaro Dias em primeiro lugar foram suspensas ou declaradas irregulares.

Três são do mesmo instituto, o Veritá. A RN-02256/2026, que dava 40,9% ao ex-prefeito, e a RN-04097/2026 foram suspensas em 13 e 15 de maio pelo juiz Marcello Rocha Lopes, por inconsistências metodológicas e por um cronograma que previa divulgação antes do fim da coleta. Em 17 de junho, em representação de PSD e Republicanos, as duas renderam multa de R$ 106.410. A terceira, a RN-06276/2026, com 41,6% para Álvaro, foi suspensa em 12 de junho pela juíza Francimar Dias, que apontou uma amostra com 34% de entrevistados com ensino superior, contra cerca de 14% nos demais institutos.

A quarta é a RN-07670/2026, do Affare Institute, contratada pela O2 Soluções, que dava 32,6% a Álvaro. Em 4 de agosto, o Pleno do TRE-RN a declarou irregular sob relatoria do desembargador eleitoral Eduardo Pinheiro, com multa de R$ 53.205. A corte constatou que o plano amostral previa 73,9% dos entrevistados com renda de até um salário mínimo, mas apenas 37,9% estavam nessa faixa.

Quatro pesquisas com Allyson à frente também caíram

O questionamento judicial não é exclusivo de um lado. Quatro pesquisas que apontavam Allyson Bezerra na liderança foram derrubadas no mesmo período.

A RN-05562/2026, do Data Census, que lhe dava 40,4%, foi suspensa em 28 de abril pelo juiz Daniel Cabral Mariz Maia, a pedido do Partido Novo. A RN-01712/2026, do Instituto Seta, com 40%, foi suspensa em 23 de junho pelo juiz federal Hallison Rêgo, por falta de informação sobre os bairros de coleta. A RN-07966/2026, do Instituto Item para a TV Ponta Negra, com 38,8%, foi suspensa em 1º de julho pela juíza Sulamita Pacheco, a pedido do PSD, e a suspensão foi mantida em 8 de julho.

A mais recente é a RN-02095/2026, do DataVero para o Diário do RN, suspensa em 11 de agosto pelo juiz auxiliar Fábio Luiz de Oliveira Bezerra, com multa de R$ 53.205. Nela, Allyson aparecia com 35,27% e Álvaro com 33,67%, em empate técnico — e a representação partiu da própria coligação de Allyson, a Esperança e Trabalho. O magistrado registrou que não identificou fraude intencional, apenas desconformidade metodológica.

Há ainda uma nona pesquisa atingida, a RN-07240/2026, também da Média para O Potengi, declarada irregular em 21 de maio com multa de R$ 53.205. O motivo foi diferente: os quesitos 17 e 18 perguntavam sobre a Operação Mederi e a responsabilidade de Allyson Bezerra, sem indagação equivalente sobre os demais pré-candidatos. Somadas, as multas por pesquisa irregular no Estado chegam a R$ 266.025.

O que ainda não está decidido

Nenhum dos institutos foi condenado criminalmente, e inquérito não é acusação formal. A apuração da Polícia Federal está no início, e cabe a ela dizer se houve crime, quem responde por ele e se a hipótese de empresa de fachada se confirma.

Também é preciso registrar a base de comparação. Levantamento publicado pelo Agora RN em 4 de agosto mostra que Allyson Bezerra liderou 31 das 35 pesquisas registradas no Estado até aquela data, contra duas de Álvaro Dias e duas de Cadu Xavier. Pesquisas com o ex-prefeito de Mossoró em primeiro lugar são, portanto, minoria no universo total — o que torna a concentração de sanções e de investigações entre elas proporcionalmente alta.

O Agora RN mantém o espaço aberto para manifestação do Instituto Veritá, do Affare Institute, do Ipsensus, da Média Inteligência em Pesquisa e da pré-campanha de Álvaro Dias.