O crescimento da produção brasileira de petróleo, combinado às tensões no Oriente Médio e à busca de países asiáticos por novos fornecedores, alterou o destino das exportações nacionais no primeiro semestre de 2026. Indonésia, Índia, China e Cingapura ampliaram as compras do óleo cru do Brasil e geraram uma receita conjunta de US$ 18,7 bilhões entre janeiro e junho.
As vendas para esses quatro mercados cresceram 72% em relação ao mesmo período de 2025, quando haviam somado US$ 10,88 bilhões. O aumento foi impulsionado tanto pelo volume embarcado como pela valorização do petróleo após as restrições de oferta provocadas pelo conflito no Oriente Médio.

No total, o Brasil exportou 51,1 milhões de toneladas de petróleo cru nos seis primeiros meses do ano, alta de 11,4% em relação ao primeiro semestre de 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). A receita com o produto avançou de US$ 21,6 bilhões para US$ 27,9 bilhões, crescimento de 28%.
A diferença entre a expansão do volume e a alta da receita mostra o efeito dos preços sobre o comércio. As cotações do petróleo subiram com o aumento dos riscos às rotas de abastecimento no Golfo Pérsico, por onde passa parte da oferta direcionada às refinarias asiáticas. O resultado elevou a participação do óleo cru nas vendas externas brasileiras e contribuiu para o superávit comercial do País.
A Indonésia registrou o maior aumento percentual entre os principais compradores. As importações de petróleo brasileiro avançaram 157% no primeiro semestre. Na Índia, o crescimento foi de 132%, colocando o país à frente dos Estados Unidos entre os maiores destinos do produto nacional.
A China permaneceu como principal mercado. Os embarques ao país asiático cresceram 41% e chegaram a 27,9 milhões de toneladas, equivalentes a aproximadamente 54% de todo o petróleo cru exportado pelo Brasil no período. Em receita, as vendas aos chineses somaram US$ 15,1 bilhões, recorde para um primeiro semestre e alta de 62% em um ano.
Cingapura ampliou em 28% suas compras, que alcançaram 1,5 milhão de toneladas. O país funciona como centro de refino, armazenamento e redistribuição de combustíveis para diferentes mercados do Sudeste Asiático, o que aumenta sua relevância na cadeia regional.
“O crescimento das exportações brasileiras para a Ásia resulta da combinação entre a expansão da produção nacional, a busca asiática por maior diversificação de fornecedores e o aumento da importância da Índia como mercado importador, sem reduzir a relevância da China, que permanece como o principal destino do petróleo brasileiro”, afirmou Pedro Rodrigues, sócio da consultoria CBIE.
O movimento também incluiu países que não mantinham compras regulares do Brasil. Mianmar, que não registrava importações de petróleo brasileiro neste século, adquiriu 600 mil toneladas no primeiro semestre. As Filipinas, afastadas desse mercado desde 2020, compraram 72 mil toneladas.
O retorno desses compradores ocorre em um ambiente de maior risco para o abastecimento asiático. Cerca de 40% do petróleo consumido na região tinha origem no Golfo Pérsico, de acordo com dados citados por analistas do setor. Interrupções no tráfego marítimo, alta dos seguros e incertezas sobre a oferta levaram refinarias a procurar fornecedores fora do Oriente Médio.
O Brasil passou a ocupar parte desse espaço graças à expansão da produção do pré-sal e à capacidade crescente de exportação. O petróleo nacional, em geral de baixo teor de enxofre e adequado a diferentes configurações de refino, tornou-se uma alternativa para compradores que procuram reduzir a dependência de poucos produtores.
A produção brasileira de petróleo e gás natural alcançou 5,597 milhões de barris de óleo equivalente por dia em maio, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Desse total, 4,301 milhões de barris diários eram de petróleo, alta de 16,9% em relação ao mesmo mês de 2025. O volume de 5,6 milhões citado nos dados gerais inclui também a produção de gás natural. Os números foram divulgados pela ANP.
O pré-sal respondeu por mais de 82% da produção nacional de petróleo e gás em maio. A entrada e o aumento gradual de capacidade de novas plataformas ampliaram a disponibilidade de óleo para exportação, mesmo com o consumo das refinarias brasileiras.
A Petrobras registrou crescimento de 41% em suas exportações no segundo trimestre, para aproximadamente 1,2 milhão de barris por dia. A companhia também reduziu importações de derivados e aumentou a utilização das refinarias nacionais, movimento favorecido pela maior oferta doméstica. Os dados operacionais foram divulgados pela empresa e compilados pela Reuters.
Para Hamad Hussain, analista de commodities da Capital Economics, a parcela destinada à Ásia tende a crescer com o aumento da extração brasileira. “É provável que uma parcela significativa dessa oferta adicional seja destinada a compradores na Ásia, onde a demanda por petróleo deverá crescer em ritmo mais acelerado do que na Europa e nos Estados Unidos”, afirmou.
A Agência Internacional de Energia estima que o consumo asiático avançará de 38,9 milhões de barris por dia em 2025 para 40,7 milhões em 2030. A Índia deverá responder, sozinha, por um aumento de aproximadamente 1 milhão de barris diários até o fim da década, a maior expansão projetada entre os países. A previsão consta do relatório Oil 2025, da IEA.
O crescimento indiano reflete a expansão da atividade industrial, da mobilidade e do consumo de combustíveis. Ao mesmo tempo, economias desenvolvidas deverão reduzir a demanda. A IEA projeta uma queda líquida de 1,7 milhão de barris por dia no consumo dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico entre 2024 e 2030.
Além do conflito no Oriente Médio, as mudanças na política comercial dos Estados Unidos influenciaram a redistribuição dos embarques. As tarifas adotadas pelo governo de Donald Trump aumentaram a percepção de incerteza entre exportadores, ainda que o petróleo brasileiro esteja isento no momento.
“Já havia um cenário em que o mercado asiático era importante destino de exportação do óleo brasileiro, e essa tendência se ampliou com a interrupção do tráfego pelo Golfo Pérsico e pelas tarifas americanas”, disse Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Segundo ele, produtores procuram contratos com regras e prazos mais previsíveis. “As tarifas geram incerteza regulatória. Quando olhamos os produtores brasileiros, eles preferem ter contratos firmados previsíveis, e isso incentiva a venda para o mercado asiático. Por mais que, hoje, haja isenção dos EUA sobre o petróleo brasileiro, essas incertezas regulatórias impõem uma predisposição maior para escoar para a Ásia e a União Europeia.”