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Economia

RN mira fronteira para novos investimentos

Em entrevista à TV Agora RN, Lahyre Rosado detalha projetos de hidrogênio e aço verdes, supercomputador, data centers, mineração, incentivos fiscais e exportação de gado
Por O Correio de Hoje
05/08/2026 | 13:54

O Rio Grande do Norte tenta converter sua produção de energia renovável em uma plataforma de atração de indústrias, projetos de tecnologia e novos negócios de exportação. A agenda reúne empreendimentos anunciados em hidrogênio e aço verdes, a candidatura para receber um supercomputador de R$ 1,8 bilhão, a regulamentação de data centers e a abertura do Porto de Natal ao embarque de animais vivos. Parte desses projetos ainda depende de licenças, financiamento, decisões federais e contratos privados.

Os planos foram apresentados pelo secretário estadual do Desenvolvimento Econômico, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação, Lahyre Rosado, durante entrevista ao podcast Economia & Negócios, da TV Agora RN, conduzido pelo jornalista Elias Luz. No cargo desde 2 de junho, Rosado afirmou que a prioridade de sua gestão é concluir processos já iniciados e reduzir o tempo necessário à implantação de investimentos.

Secretário Lahyre Rosado apresenta projetos de energia, tecnologia, indústria e exportação planejados para ampliar a economia do Rio Grande do Norte
Secretário Lahyre Rosado com o jornalista Elias Luz no podcast Foto: José Aldenir

Uma das frentes é o novo Código Estadual de Meio Ambiente, protocolado pelo governo na Assembleia Legislativa em 26 de junho. O Projeto de Lei Complementar nº 15/2026 substituirá a Lei Complementar nº 272, em vigor desde 2004, e reunirá normas sobre licenciamento, fiscalização, biodiversidade, mudanças climáticas, gerenciamento costeiro, proteção da fauna e da flora e pagamento por serviços ambientais.

Segundo Rosado, a proposta pretende estabelecer prazos para manifestações de órgãos consultados durante o licenciamento. Na legislação atual, determinadas análises externas não possuem limite de tempo, o que pode prolongar a tramitação dos pedidos. Para o secretário, eventuais divergências devem ser discutidas durante a análise parlamentar. “Vamos debater no fórum apropriado, que é a Assembleia Legislativa. Lá vai ser votado, lá vai ser analisado”, afirmou. “Atualiza-se a lei e você destrava o desenvolvimento do Estado”, acrescentou.

Entidades empresariais reconhecem a necessidade de atualizar as regras, mas defendem mudanças em alguns dispositivos. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do (Fecomércio) RN informou que analisa o projeto para apresentar contribuições. O Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-RN) manifestou apoio à revisão, enquanto grupos ligados à área ambiental levantaram questionamentos sobre pontos do licenciamento.

A modernização regulatória também alcança os data centers. O Rio Grande do Norte ainda não possui enquadramento ambiental específico para esse tipo de instalação, e uma minuta permanece sob análise da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) antes de retornar ao Conselho Estadual do Meio Ambiente (Conema). Sem a regulamentação, empresas não conseguem protocolar formalmente projetos no Estado.

Rosado rejeitou a avaliação de que o RN já tenha perdido empreendimentos para o Ceará, mas reconheceu que o Governo do Estado precisa concluir as normas para entrar na disputa. “Eu não diria que a gente está perdendo para o Ceará porque, na verdade, a gente nunca teve isso antes aqui. O que nós estamos fazendo é correndo para atualizar nossa legislação”, disse.

O Ceará aprovou, em julho, regras próprias para o licenciamento de data centers e sistemas de armazenamento de energia por baterias. Embora os investimentos anunciados no Estado vizinho ainda estejam em diferentes etapas de implantação, a existência de um rito definido oferece maior previsibilidade aos investidores. O consumo de energia, o uso de água e as contrapartidas ambientais permanecem entre os principais pontos de discussão desse mercado.

No RN, a tentativa de ingressar na economia digital está ligada à candidatura do Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba, para receber um supercomputador previsto no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. O equipamento tem investimento estimado em R$ 1,8 bilhão até 2027, com recursos previstos no Novo PAC e no plano federal de inteligência artificial. A instalação no Estado ainda não foi confirmada pelo governo federal.

O PAX ocupa 50 hectares, possui cerca de 15 mil metros quadrados de edificações e abriga 22 empresas e instituições. Segundo Rosado, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação emitiu uma avaliação técnica favorável à candidatura potiguar para receber a estrutura destinada ao Nordeste. “Esse supercomputador vindo, ele atrai um ecossistema, traz outras empresas da inovação e da tecnologia. Vai ser um servidor para os governos, os estudantes, os pesquisadores e os professores”, afirmou.

A governadora Fátima Bezerra e a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, visitaram o parque na segunda-feira 3, mas a escolha final continua pendente. O projeto também envolve a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Na área de energia, o empreendimento de maior valor citado pelo secretário é o Projeto Morro Pintado, da Brazil Green Energy, em Areia Branca. Com investimento projetado em R$ 12 bilhões, o complexo prevê produzir hidrogênio e amônia verdes a partir de fontes eólica e solar. A licença prévia concedida pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN foi apresentada na Hannover Messe, na Alemanha, em abril.

A etapa inicial prevê uma planta de 500 megawatts e capacidade para produzir 80 mil toneladas anuais de hidrogênio verde. Na fase completa, a geração eólica e solar poderá alcançar 1,4 gigawatt. O plano também inclui um terminal portuário próprio para exportar a produção, principalmente para a Europa.

Apesar da licença, o projeto ainda depende da captação dos recursos necessários à implantação. Mais de 20 bancos teriam demonstrado interesse em avaliar o financiamento.

A amônia verde pode ser empregada na produção de fertilizantes, segmento no qual o Brasil mantém dependência de fornecedores externos. “A partir do momento que a gente tiver capacidade para produzir aqui, já elimina essa dependência”, disse Rosado. O secretário afirmou que o Estado tem participado de encontros com investidores e instituições como a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a ApexBrasil.

Outro empreendimento em implantação é uma siderúrgica para reciclagem e produção de aço com menor emissão de carbono. A unidade ocupa a área da antiga fábrica da Ambev, na divisa entre São Gonçalo do Amarante e Extremoz. Conforme Rosado, o projeto é conduzido por empresas ligadas ao Grupo J. Patrício, em parceria com investidores indianos, e as obras já começaram.

“Isso nem é fofoca, nem é burburinho, isso é uma realidade. Eles vão receber insumos do Nordeste inteiro, importar insumos e produzir aço verde”, declarou.

A produção deverá atender ao mercado brasileiro e às exportações. O projeto ocupa uma área de aproximadamente 40 hectares, mas os valores do investimento e a capacidade industrial não foram informados na entrevista.

O secretário também citou a expansão da mineração de ferro na região da Borborema Potiguar e a produção de ouro em Currais Novos. Segundo ele, a operação de minério de ferro poderá alterar a composição das exportações estaduais quando atingir plena capacidade. As projeções, no entanto, não foram acompanhadas de prazo, volume de produção ou valor contratado.

Para incentivar empresas já instaladas ou interessadas em operar no Estado, a Sedec utiliza o Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial do Rio Grande do Norte (Proedi). De acordo com Rosado, 379 empresas são beneficiadas e concentram mais de 61 mil empregos. O programa concede crédito presumido de ICMS em troca de investimentos, manutenção de atividades e geração de postos de trabalho.

A abertura de uma nova rota pelo Porto de Natal completa a carteira apresentada pelo secretário. O terminal foi habilitado para exportar gado vivo, com os primeiros embarques previstos para este mês. O governo estima movimentar entre 100 mil e 150 mil animais por ano, principalmente para países do Oriente Médio. A projeção financeira pode superar R$ 1 bilhão anuais, mas dependerá da regularidade das operações e da demanda externa.

Rosado afirmou ainda que a política econômica não deve se limitar aos projetos bilionários. O governo mantém apoio a feiras, polos de confecção, pequenos produtores e cursos profissionais. Entre as iniciativas citadas está o Costura Mais RN, que prevê qualificar quase mil pessoas, com investimento próximo de R$ 1 milhão. Três novas turmas, com 150 participantes, devem começar em agosto, em Parelhas e Mossoró.