O plano de governo de Álvaro Dias (PL) é o mais longo e detalhado entre os três programas apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelos candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte. Com 94 páginas, o documento reúne 455 itens temáticos e reserva um bloco específico para 22 ações nos primeiros 100 dias de gestão.
O volume permite localizar propostas para praticamente todas as áreas do Estado e identificar instrumentos de execução, órgãos envolvidos e medidas iniciais. É a principal força do plano. O mesmo tamanho, entretanto, expõe sua maior fragilidade: o candidato defende ajuste fiscal, revisão de despesas e recuperação da capacidade de investimento, mas não calcula o custo da extensa carteira de compromissos.

O ponto forte do plano de governo de Álvaro Dias
Álvaro organiza o programa em cinco grandes eixos e vai além da formulação genérica de objetivos. Na saúde, propõe o RN Saúde 2030, painéis públicos de filas e leitos, uma Tabela RN Saúde para complementar procedimentos, consórcios interfederativos, redefinição da função dos hospitais regionais, fortalecimento do Walfredo Gurgel, regionalização de hemodinâmica e hemodiálise, telemedicina e contratualização por desempenho.
Na segurança, o documento prevê investigação patrimonial e descapitalização de organizações criminosas, uso de inteligência artificial e análise telemática, videomonitoramento, recomposição planejada de efetivos, bloqueio de comunicações em presídios, prevenção territorial e metas abertas por município, como tempo de resposta e esclarecimento de crimes.
Na gestão, aparecem o Portal de Metas, o ObservaRN, a Estratégia RN 2050, a Infovia Potiguar, um hub GovTech, governança de dados e uma carteira estadual de projetos. Para a economia, o plano fala em redução do “Custo RN”, política industrial, Empresa Potiguar, distritos industriais, energias renováveis, corredores logísticos, turismo, mineração, agroindustrialização e modernização do licenciamento.
O bloco dos 100 primeiros dias diferencia o programa. Ele cria uma primeira ordem de execução e oferece ao eleitor um calendário inicial para cobrança. Nenhum dos outros dois documentos analisados pelo AGORA RN apresenta uma lista inaugural tão extensa e explícita.
A contradição entre ajuste e 455 compromissos
Álvaro faz o diagnóstico fiscal mais direto. Promete auditoria das contas, revisão de contratos e custeio, eficiência do gasto, melhor gestão de ativos, concessões, parcerias público-privadas, metas anuais para o déficit previdenciário e aumento da arrecadação sem elevação de impostos.
Ao mesmo tempo, o plano distribui centenas de compromissos por saúde, educação, segurança, infraestrutura, assistência, cultura, esporte, turismo e desenvolvimento econômico. Também prevê novas estruturas, programas e fundos. Na educação, assume a meta de elevar em pelo menos cinco pontos percentuais a aplicação de recursos próprios — o compromisso financeiro mais objetivo entre os três programas, mas sem informar a base de cálculo nem o valor anual correspondente.
O documento não apresenta custo individual, custo total para quatro anos, fonte vinculada a cada programa ou sequência fiscal capaz de mostrar quais promessas cabem juntas. Também não hierarquiza os 455 itens depois dos primeiros 100 dias. Em um cenário de receita abaixo do esperado, o eleitor não sabe quais dez compromissos seriam preservados.
Previdência aparece, mas sem a equação completa
A inclusão de metas anuais para a Previdência é relevante. O TCE-RN informou déficit atuarial de R$ 54,3 bilhões no sistema previdenciário estadual e determinou providências estruturantes. Álvaro reconhece o problema e promete enfrentá-lo, ao contrário de programas que tratam o tema apenas de forma lateral.
Mas faltam números que permitam testar a solução: qual redução anual do déficit é possível, que ativos seriam usados, quais despesas seriam revistas e quanto a administração espera economizar. O Relatório de Gestão Fiscal de 2025 mostra que caixa, dívida e despesas obrigatórias restringem a margem de decisão do próximo governo.
Detalhamento facilita a cobrança
O plano de governo de Álvaro Dias oferece ao eleitor mais pontos objetivos para acompanhar do que os programas de Allyson e Cadu. A vantagem do detalhamento, porém, só se transforma em viabilidade quando prioridades, custos e fontes de financiamento são associados a cada promessa.
O risco é que um programa de 455 compromissos funcione como catálogo de intenções. Quanto maior a lista, maior a necessidade de esclarecer o que será feito primeiro, o que depende da União ou dos municípios e o que poderá ser adiado se o ajuste fiscal exigir escolhas impopulares.
O documento integral está disponível no portal oficial do TSE. O AGORA RN também noticiou a decisão do TRE que mandou investigar possíveis crimes em pesquisa que colocou Álvaro na liderança.
Esta reportagem considera exclusivamente o programa protocolado no TSE. A análise de viabilidade aponta informações ausentes no documento e não significa que uma proposta seja impossível de executar.