BUSCAR
BUSCAR
Viralização

Anônimos criam “documentários” nas redes sociais

Vídeos no TikTok e Instagram transformam histórias pessoais em cenas com clima de documentário
Por O Correio de Hoje
30/07/2026 | 17:27

Uma nova tendência nas redes sociais tem levado milhões de usuários a imaginar que suas próprias histórias serão tema de um documentário da Netflix. A brincadeira, que se espalhou pelo TikTok e pelo Instagram desde o fim de junho, reproduz a linguagem visual dos documentários da plataforma de streaming, com trilha sonora dramática, enquadramento intimista e o tradicional momento em que o entrevistado se prepara para revelar um episódio marcante da própria vida.

Nos vídeos, anônimos, influenciadores e celebridades simulam entrevistas sobre situações cotidianas, como experiências em antigos empregos, conversas de grupo vazadas, relacionamentos, momentos constrangedores e outras histórias pessoais. A estética utilizada faz referência ao trailer do documentário sobre Aaron Hernandez, ex-jogador de futebol americano condenado por assassinato.

tiktok Copia
Influenciadora Sophia Barchenkova na trend de gravar o próprio documentário nas redes - Foto: Reprodução

A estrutura é conhecida do público: a pessoa entra em uma sala de estar, ajusta o microfone preso à roupa, senta-se diante da câmera enquanto uma trilha orquestral cria expectativa e, pouco antes da entrevista começar, ouve a pergunta: “Você está pronta?”.

Entre os vídeos mais populares está o da britânica Sophia Barchenkova, de 30 anos, que imaginou participar de um documentário sobre o ambiente onde trabalhou no mercado financeiro. A publicação ultrapassou 13 milhões de visualizações.

“Adoro assistir aos documentários da Netflix. Sou viciada em histórias de crimes reais”, disse Barchenkova, que mora em Londres. “O formato é muito reconhecível. A pessoa sentando para a entrevista, os violinos… É algo que todos já vimos mil vezes. Esse elemento familiar pode ser muito poderoso.”

Segundo Adam Del Deo, vice-presidente de documentários da Netflix, o sucesso da tendência está justamente na identificação imediata do público com esse tipo de narrativa. “O público realmente se sente atraído por esse momento, usado em muitos documentários, em que o personagem se prepara para o início da entrevista.”

A própria Netflix aderiu à brincadeira. Em seu perfil oficial no Instagram, publicou a imagem de uma cadeira vazia acompanhada da legenda: “Prestes a sentar e assistir a todos esses documentários.” Del Deo também atribui parte da popularização desse estilo ao documentarista Errol Morris, que utilizou uma abordagem semelhante no filme Sob a Névoa da Guerra (2003), considerado uma referência para produções do gênero.

A tendência rapidamente ultrapassou o universo dos usuários comuns e passou a reunir nomes conhecidos do entretenimento. A apresentadora Jenna Bush Hager gravou um vídeo simulando um documentário sobre a ocasião em que foi flagrada consumindo bebida alcoólica antes da idade permitida nos Estados Unidos. O ator Morris Chestnut relembrou a morte de seu personagem no filme Os Donos da Rua (1991). Já o cantor Rufus Wainwright ironizou a influência de suas músicas nas trilhas sonoras de Shrek (2001) e A Família do Futuro (2007), enquanto Vanessa Hudgens brincou com seu período na escola fictícia de High School Musical.

Outro vídeo que ganhou repercussão foi o de Stephon Crawford, de 27 anos. Na gravação, ele aparece como se estivesse sendo entrevistado em um documentário ambientado em 2045. “Eu quando a Netflix estiver entrevistando as poucas pessoas que nunca encostaram em um vape e sobreviveram até 2045”, escreveu na legenda.

Para Crawford, os documentários produzidos na era do streaming passaram a unir informação e entretenimento, aproximando-se do chamado infotainment, formato que mistura conteúdo informativo com elementos de entretenimento. Além do humor, especialistas apontam que a popularidade da tendência revela mudanças na forma como as pessoas enxergam a própria presença nas redes sociais.

Crawford, que trabalha com atendimento ao cliente em Atlanta e pretende se tornar criador de conteúdo, afirmou que costuma pensar em maneiras de transformar experiências pessoais em material para a internet. Para Brooke Erin Duffy, professora de Comunicação da Universidade Cornell, o fenômeno é consequência de anos de incentivo das plataformas digitais para que os usuários compartilhem aspectos da vida cotidiana.

“A ascensão da cultura dos influenciadores foi impulsionada de baixo para cima, por pessoas que queriam viver da criação de conteúdo e compartilhar suas vidas. Mas as plataformas também vêm nos incentivando, de cima para baixo, a nos expor cada vez mais. Estamos fingindo que nossas vidas são um doc, porque as plataformas vêm nos dizendo há anos que elas são.”