Há poucos dias, o presidente argentino Javier Milei transformou o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência em palco para ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Usou palavrões, vitupérios e um tom incompatível com a responsabilidade de um chefe de Estado em visita ao Brasil. O episódio levou a relação entre os dois países ao ponto mais baixo de uma deterioração que já vinha sendo alimentada pelos dois presidentes.
Nem Lula nem Milei estão à altura da parceria construída por Brasil e Argentina desde os anos 80 do século passado. José Sarney e Raúl Alfonsín compreenderam que os dois países precisavam deixar para trás desconfianças antigas e construir uma visão comum de futuro. Rivalidades jamais desapareceram, sobretudo no futebol, mas nunca haviam servido de pretexto para tamanho rebaixamento diplomático. Presidentes não precisam gostar um do outro. Precisam, porém, conter o ego, os interesses eleitorais e os preconceitos ideológicos em respeito aos interesses nacionais.

A conduta de Milei foi especialmente grave porque jamais um presidente estrangeiro havia vindo ao Brasil para insultar, dessa maneira, o chefe do Executivo e um ministro do Supremo. O argentino faz parte de uma geração política que transforma a quebra de padrões elementares de decência e decoro em ativo eleitoral. Assim como Donald Trump, seu ídolo, trata limites éticos e morais como obstáculos a serem derrubados, não como deveres inerentes ao cargo.
Esse é um problema que cabe aos argentinos enfrentar. O problema brasileiro é Lula. Há muito tempo, sob o argumento de apoiar companheiros de esquerda na América do Sul, o presidente interfere em eleições e disputas políticas de países vizinhos, especialmente na Argentina. Quando age assim, também desrespeita os argentinos e compromete uma parceria histórica que deveria estar acima das afinidades partidárias. A degradação atual, portanto, não tem um único autor. É resultado de uma sucessão de provocações e intromissões de ambos os lados.
A relação bicentenária entre Brasil e Argentina já atravessou períodos de maior e menor proximidade pessoal entre seus presidentes. Nem por isso foram interrompidos o comércio, o trânsito de cidadãos, os intercâmbios culturais ou a cooperação estratégica que levou os dois países à fundação do Mercosul. Mesmo nos momentos mais difíceis, prevaleceu a noção de que os interesses comuns são maiores e mais duradouros do que as vaidades de quem ocupa temporariamente o poder.
É essa maturidade que precisa prevalecer agora, apesar da deselegância de Milei e da reação infantil de integrantes do governo brasileiro. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou o argentino de “palhaço”. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, descreveu-o como uma “caricatura patética”, um “puxa-saco” de Trump. As expressões são incompatíveis com a função de ministros de Estado e foram corretamente reprovadas pelo próprio Itamaraty.
A representação institucional do Brasil não pode ser confundida com uma arquibancada, espaço em que velhos rancores entre brasileiros e argentinos costumam ser extravasados. Fez bem Lula ao orientar os diplomatas a não ampliar a crise e a tratá-la estritamente pelos canais das relações internacionais. O chanceler Mauro Vieira convocou o embaixador argentino em Brasília para explicações e chamou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires. As duas providências foram suficientes para registrar a gravidade do episódio sem empurrar os países para uma escalada inútil.
Há, ao menos, um dado positivo. Apesar do desgaste na cúpula, nenhum contrato foi rompido e nenhum acordo comercial foi abandonado. A máquina bilateral continua funcionando normalmente abaixo das presidências. Isso demonstra que a tensão não é estrutural, mas circunstancial, contaminada pelos calendários eleitorais e pelos interesses imediatos de Lula e Milei.
As declarações de Milei, Durigan e Boulos são deploráveis e merecem repúdio. O que importa agora é impedir que produzam consequências maiores. Lula fará bem ao Brasil se essa crise sair de seu gabinete menor do que entrou, preservando os laços históricos, a cooperação e a sinergia entre as duas maiores economias da América do Sul.