Embora nove em cada dez brasileiros afirmem que o diálogo deve ser a principal forma de educar crianças, a violência física e verbal ainda faz parte da rotina de muitas famílias. Pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes”, realizada pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) em parceria com a Quaest, mostra que 49% dos entrevistados admitem já ter dado tapas em crianças, 27% afirmam ter utilizado objetos para agredi-las e 62% reconhecem que já gritaram com filhos ou menores sob sua responsabilidade.
O levantamento também aponta que 65% dos brasileiros sofreram agressões físicas durante a própria infância, indicando a repetição de padrões de educação entre gerações. Segundo os pesquisadores, embora exista um consenso sobre a inadequação da violência, muitos adultos ainda recorrem às práticas que vivenciaram quando eram crianças.

“Esses adultos brasileiros com mais de 18 anos têm, ao mesmo tempo, o medo de exagerar para mais, mas também o medo de exagerar para menos. Percebo que as pessoas estão reproduzindo o que fizeram com elas porque é isso o que sabem. Não estão preparadas nem pensaram a respeito. Têm o medo de liberar demais e criar um menino mimado, aí resolvem bater. E tem a outra experiência de simplesmente gritar, xingar, ameaçar e bater, porque é assim que funciona. Os dois extremos estão documentados”, afirmou Felipe Nunes, CEO da Quaest, durante coletiva de divulgação da pesquisa.
Os dados mostram ainda uma diferença entre aquilo que a população considera correto e o comportamento adotado na prática. Segundo o levantamento, 91% dos brasileiros defendem o diálogo como principal forma de educar crianças. O mesmo percentual considera inaceitável xingar ou ofender menores. Além disso, 79% condenam agressões com objetos, 64% rejeitam ameaças de bater e 51% afirmam que dar tapas também é inaceitável.
Mesmo assim, quando questionados sobre atitudes já adotadas, os entrevistados relataram comportamentos incompatíveis com essas percepções. Além dos 49% que disseram já ter dado tapas, 27% afirmaram ter recorrido a objetos para agredir crianças e 62% admitiram ter gritado com elas.
Outro dado apontado pela pesquisa diz respeito à reação da população diante de episódios de violência em locais públicos. Segundo o levantamento, 62% dos brasileiros afirmam que não interfeririam ao presenciarem uma agressão contra uma criança, seja por receio de se envolverem ou por entenderem que a educação dos filhos é responsabilidade exclusiva da família. Apenas 21% disseram que conversariam com o responsável para informar que a atitude não é adequada, enquanto 15% afirmaram que chamariam a atenção de outras pessoas ou acionariam a polícia.
O tema ganhou repercussão nacional na semana passada, após um homem ser preso em Francisco Beltrão, no Paraná, depois de ser filmado chutando o rosto da própria filha, de 3 anos. As imagens mostram uma testemunha se aproximando do local, mas desistindo de intervir. Posteriormente, o homem relatou que temeu pela própria segurança e optou por comunicar o caso às autoridades.
Para a psicóloga Manuela Santos, doutora pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a pesquisa demonstra que, em situações de estresse, muitos adultos abandonam aquilo que consideram correto e reproduzem modelos de educação baseados na violência. “Mesmo as pessoas acreditando que, racionalmente, o diálogo é o ideal, nos momentos em que elas ficam mais irracionais, nos momentos de estresse, acabam recorrendo a modelos que elas aprenderam, naturalizando a violência”, afirmou.
Segundo a especialista, os efeitos da violência ultrapassam o momento da agressão e podem comprometer o desenvolvimento emocional da criança. “São crianças que vão ter sintomas de ansiedade, depressão, dificuldade de regular emoções, sensação de insegurança constante. Elas podem começar a acreditar que o amor requer um pouco de agressividade. Isso acaba desorganizando e deformando a forma como compreendem os relacionamentos de uma maneira geral.”
A pesquisa também reforça a existência de um distanciamento entre o avanço das leis de proteção à infância e a realidade enfrentada por muitas crianças brasileiras. Em vigor desde 2014, a Lei Menino Bernardo, conhecida como Lei da Palmada, proíbe castigos físicos e tratamentos cruéis ou degradantes na educação de crianças e adolescentes. Em caso de descumprimento, o responsável pode receber advertência e ser encaminhado a programas de proteção à família ou a acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.
Para a diretora-executiva do Infinis, Márcia Kalvon, os resultados demonstram que a legislação, por si só, não foi suficiente para modificar práticas enraizadas na sociedade. “Ainda que tenhamos avançado em legislação e na conscientização sobre os direitos das crianças, a pesquisa mostra que ainda existe uma lacuna significativa entre aquilo que os brasileiros consideram correto e aquilo que acontece na prática. Compreender essas percepções é fundamental para romper o ciclo intergeracional de violência e orientar políticas públicas de prevenção. Cada criança protegida hoje representa menos violência amanhã”, afirmou.
A diretora também ressaltou a importância do diálogo na educação infantil. “É uma maneira de educar que reforça aspectos positivos para o desenvolvimento saudável da criança. Se acompanhado de afeto, com valores e limites, tem capacidade protetiva. E em momentos nos quais você precisa estabelecer mais limites, que eles sejam colocados nessa forma de diálogo, e não com comportamentos violentos.”
Especialistas ouvidos pela pesquisa alertam que os prejuízos da violência infantil podem acompanhar a vítima por toda a vida. O pediatra Daniel Becker afirma que agressões físicas, verbais e psicológicas estão entre os fatores mais prejudiciais ao desenvolvimento infantil, principalmente quando ocorrem nos primeiros anos de vida. “O indivíduo tem maior risco de doença crônica, doença mental, conflitos com a lei e relações violentas na família. Ou seja, o abuso na infância está associado ao uso da violência nas relações futuras”, afirmou Becker.