Uma pintura atribuída ao mestre holandês Rembrandt ganhou novos contornos após restauradores identificarem que a obra sofreu uma alteração feita por um autor desconhecido. Exames revelaram que um personagem originalmente retratado usando um turbante teve a peça substituída, em algum momento da história, por um tradicional gorro holandês.
A descoberta ocorreu durante os trabalhos de restauração da obra Deixem vir a mim as criancinhas, que será leiloada nesta quarta-feira em Londres pela casa Sotheby’s. A expectativa é que a pintura seja arrematada por um valor entre R$ 55 milhões e R$ 82,5 milhões.

Segundo especialistas, trata-se de uma das mais importantes obras da fase inicial de Rembrandt ainda pertencentes a uma coleção privada. A trajetória recente da pintura começou em 2014, quando ela apareceu em um leilão na Alemanha. Na ocasião, a obra foi catalogada apenas como uma pintura anônima da Holanda do século XVII, sem qualquer atribuição ao artista.
Após anos de estudos técnicos, históricos e de restauração, especialistas concluíram que a tela pertence ao pintor holandês e passaram a atribuí-la oficialmente a Rembrandt. Medindo 106 centímetros de altura por 80,5 centímetros de largura, a pintura apresenta uma cena inspirada no episódio bíblico em que Cristo recebe crianças. A composição reúne personagens de diferentes origens e tradições religiosas, incluindo figuras associadas ao judaísmo e ao cristianismo.
Foi justamente durante a restauração que especialistas perceberam uma modificação significativa na representação de um dos personagens. Segundo os restauradores, a figura originalmente utilizava um turbante, posteriormente removido por um artista desconhecido, que optou por substituí-lo por um gorro típico da Holanda do século XVII.
Embora não exista confirmação sobre quando essa intervenção ocorreu nem sobre sua autoria, a alteração mudou um dos elementos simbólicos da composição. Para o historiador de arte Andrew Graham-Dixon, a presença do turbante dialoga diretamente com as convicções religiosas e políticas de Rembrandt.
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o especialista afirmou que a obra reflete a proximidade do artista com os Remonstrantes, grupo de teólogos do século XVII conhecido pela defesa da tolerância religiosa e da convivência entre diferentes crenças.
Segundo Graham-Dixon, o contexto histórico em que a pintura foi produzida ajuda a compreender sua mensagem.
“Em 1627, quando Rembrandt começou esta pintura, Leiden passava por uma crise humanitária extraordinária. A Guerra dos Trinta Anos estava no auge e centenas de milhares de pessoas chegavam à República Holandesa como refugiados. Só em 1626, 1.500 tecelões chegaram lá, com suas esposas e filhos. Então havia um fluxo enorme de pessoas. Estima-se que Leiden tenha acolhido cerca de dez mil refugiados naquele ano”, disse ao The Guardian.
Na avaliação do historiador, Rembrandt utilizou a cena bíblica para expressar uma posição favorável ao acolhimento dos refugiados em um momento marcado por intensos debates na sociedade holandesa.
“Quando Rembrandt pintou esta cena, ele retratou uma multidão e Cristo acolhendo crianças e famílias. Isso foi muito controverso na época. Havia pessoas em Leiden que não queriam recebê-los. Mas o que podemos perceber nesta pintura é que Rembrandt estava do lado da ajuda humanitária… Portanto, esta é mais do que apenas uma pintura; acredito que seja uma declaração da posição moral de Rembrandt”, afirmou.
A nova atribuição da obra e a identificação das alterações feitas ao longo dos séculos aumentaram o interesse do mercado internacional de arte pela pintura. Agora apresentada oficialmente pela Sotheby’s como uma obra de Rembrandt, Deixem vir a mim as criancinhas será oferecida em leilão em Londres com estimativa entre R$ 55 milhões e R$ 82,5 milhões, valor compatível com a raridade de trabalhos do início da carreira do artista ainda mantidos em coleções particulares.