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Saúde

Vacina criada com IA mira famílias inteiras de vírus

Tecnologia criada por pesquisadores da Universidade de Cambridge utiliza IA para identificar características comuns entre diferentes variantes virais e pode acelerar a resposta a futuras pandemias
Por O Correio de Hoje
01/07/2026 | 17:17

Pesquisadores da Universidade de Cambridge desenvolveram uma tecnologia de vacinas baseada em inteligência artificial (IA) que busca oferecer proteção contra famílias inteiras de vírus, em vez de atuar apenas sobre uma variante específica. Segundo a equipe responsável pelo projeto, a proposta pode acelerar a resposta a novos surtos e contribuir para prevenir futuras pandemias.

A pesquisa surgiu da necessidade de superar uma das principais limitações das vacinas tradicionais: a constante evolução dos vírus. Atualmente, uma pessoa pode ser imunizada contra uma determinada cepa viral e, meses depois, entrar em contato com uma variante diferente, reduzindo a eficácia da proteção.

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Aumento da circulação global de vírus reforça a necessidade de vacinas mais amplas - Foto: josé aldenir

De acordo com o professor Jonathan Heeney, coordenador do estudo, a tecnologia procura contornar esse problema ao identificar elementos comuns presentes em diferentes variantes do mesmo vírus.

“Eliminamos essa variabilidade ao fabricar algo que, de forma geral, é reconhecido pelo sistema imunológico e deveria proteger em todos os casos”, afirmou o pesquisador à agência France-Presse.

O desenvolvimento da tecnologia teve início após a epidemia de ebola registrada entre 2014 e 2016 na África Ocidental. Na época, Heeney acompanhava de perto a evolução do surto e observou as dificuldades enfrentadas para identificar rapidamente o vírus e desenvolver uma vacina.

Segundo ele, os primeiros casos registrados na República Democrática do Congo chegaram a ser confundidos com febre de Lassa, gastroenterite e cólera. Enquanto o diagnóstico era esclarecido e pesquisadores buscavam desenvolver uma vacina, o vírus já havia alcançado Guiné, Serra Leoa e Libéria.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a epidemia provocou mais de 11,3 mil mortes em apenas dois anos. Após retornar ao Reino Unido, Heeney decidiu reformular completamente a estratégia de desenvolvimento de vacinas.

Com auxílio das primeiras ferramentas de inteligência artificial disponíveis, sua equipe reuniu grandes volumes de informações sobre diferentes vírus. Os algoritmos passaram a identificar padrões capazes de revelar tanto as diferenças quanto as características comuns entre eles, especialmente nas regiões reconhecidas pelo sistema imunológico humano.

Essa abordagem permite desenvolver imunizantes que não se limitam a uma única variante, mas apresentam potencial para proteger contra diferentes integrantes de uma mesma família viral.

Segundo os pesquisadores, a tecnologia ganha importância diante do aumento da circulação global de vírus provocado pelo crescimento populacional, pela intensificação das viagens internacionais e pela expansão das atividades humanas sobre habitats naturais.

Para Heeney, esse cenário favorece o surgimento de novas doenças. Vírus que antes permaneciam restritos aos animais passam a encontrar populações humanas sem qualquer imunidade prévia, criando condições para surtos de rápida disseminação.

“Nesses casos, o vírus fica fora de controle”, explicou.

Os primeiros resultados clínicos também são considerados promissores. Entre dezembro de 2021 e dezembro de 2023, pesquisadores realizaram um ensaio clínico envolvendo 39 voluntários para avaliar a segurança da vacina Sarbeco, desenvolvida em parceria entre a Universidade de Cambridge e a empresa de biotecnologia DIOSynVax.

Os resultados foram publicados neste mês na revista da British Infection Association e indicaram que o imunizante apresentou perfil de segurança adequado.

A próxima etapa da pesquisa prevê testes em um número maior de participantes para confirmar a eficácia da tecnologia. Heeney lembra que epidemias fazem parte da história da humanidade, citando desde a peste negra até a pandemia de gripe de 1918, responsável por provocar entre 25 milhões e 50 milhões de mortes em todo o mundo.

Segundo ele, uma futura pandemia causada por um novo vírus influenza continua sendo uma preocupação relevante devido à elevada capacidade de mutação desse agente infeccioso. Mesmo assim, o pesquisador acredita que a nova tecnologia poderá transformar a produção de vacinas.

“Espero que seja o início de uma nova era na fabricação de vacinas”, concluiu.