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Mudanças climáticas

Europa enfrenta nova crise do calor

Onda de calor provoca mais de 1,3 mil mortes acima do esperado, pressiona sistemas de saúde e expõe desafios de adaptação urbana em um continente que envelhece e aquece acima da média global
Por O Correio de Hoje
30/06/2026 | 14:15

A Europa voltou a enfrentar uma onda de calor extremo que já provocou mais de 1,3 mil mortes acima do esperado apenas na primeira semana do verão, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O episódio reforça uma tendência observada desde a histórica onda de calor de 2003, quando mais de 70 mil pessoas morreram no continente. O que antes era tratado como um evento excepcional passou a integrar a rotina dos verões europeus, à medida que o continente registra temperaturas cada vez mais elevadas e frequentes.

Em publicação nas redes sociais, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que cerca de 150 milhões de pessoas vivem atualmente sob calor extremo. Segundo ele, escolas foram fechadas, redes elétricas enfrentam sobrecarga e o chamado “estresse pelo calor”, frequentemente descrito como um “assassino silencioso”, afeta uma infraestrutura que não foi projetada para suportar temperaturas tão elevadas. Na França, a agência nacional de saúde pública informou aumento de 40% nas mortes ocorridas dentro de residências entre pessoas com mais de 65 anos.

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Em toda Europa, venda de ventiladores está em alta para aliviar temperatura - Foto: reprodução / internet

Os efeitos são potencializados por uma transformação demográfica. Dados do Eurostat mostram que pessoas com 65 anos ou mais representam aproximadamente 21,6% da população da União Europeia. Com o envelhecimento, aumenta a vulnerabilidade às altas temperaturas, já que o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal e cresce a incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas, condições agravadas durante episódios de calor extremo.

O continente também aquece em ritmo superior ao restante do planeta. Segundo o observatório climático Copernicus, a temperatura média da Europa cresce cerca de 0,56°C por década nos últimos 30 anos, mais que o dobro da média global. O verão de 2024 foi o mais quente da série histórica, com temperatura média 1,54°C acima da média registrada entre 1991 e 2020 e cerca de 62,7 mil mortes relacionadas ao calor, tornando-se o segundo mais letal desde o início dos registros modernos.

Os primeiros dias do verão de 2026 reforçam esse cenário. Uma massa de ar extremamente quente proveniente do Norte da África, combinada com um sistema de alta pressão que formou um chamado “domo de calor” sobre a Europa Ocidental, levou os termômetros a superar os 40°C em diversos países. Segundo a agência AFP, ao menos 191 milhões de pessoas enfrentaram temperaturas iguais ou superiores a 35°C, com registros especialmente elevados na Alemanha, República Tcheca, Hungria e Polônia.

Após a tragédia de 2003, diversos países implantaram sistemas de alerta precoce e Planos de Ação em Saúde para o Calor (HHAPs), recomendados pela OMS. Esses programas integram serviços meteorológicos, sistemas de saúde e defesa civil para reduzir impactos durante eventos extremos. O guia atualizado neste ano recomenda alertas antecipados, protocolos hospitalares, campanhas de comunicação, monitoramento de grupos vulneráveis e procedimentos específicos para emergências provocadas pelo calor.

Apesar dos avanços, a cobertura permanece incompleta. Levantamento da Agência Europeia do Ambiente (EEA) e do Observatório Europeu do Clima e da Saúde mostra que 10 dos 38 países analisados ainda não possuem planos nacionais estruturados para enfrentar ondas de calor, entre eles Noruega, Finlândia, Polônia, Estônia e Sérvia. Outros três países seguem em fase de elaboração desses mecanismos, evidenciando que parte do continente ainda carece de preparação institucional.

Paralelamente às medidas de saúde pública, cidades europeias ampliaram iniciativas de adaptação urbana. Paris criou, a partir de 2015, uma rede de “ilhas de frescor”, formada por parques, bibliotecas, museus, igrejas, piscinas e outros espaços públicos destinados a oferecer refúgio durante os períodos mais quentes. Barcelona implantou uma rede de abrigos climáticos, expandida para mais de 350 locais, além de investir na ampliação da cobertura vegetal, na criação de áreas sombreadas e no uso de materiais mais refletivos em edifícios e pavimentos.

Especialistas, contudo, avaliam que essas medidas ainda não acompanham a velocidade das mudanças climáticas. Grande parte das cidades europeias foi planejada para enfrentar invernos rigorosos, e não verões cada vez mais intensos. “Muitos países investiram em sistemas de alerta precoce e em planos de ação após 2003. Essas medidas salvaram muitas vidas, mas não são suficientes. Precisamos de mais investimentos em casas, cidades e infraestrutura resistentes ao calor”, afirmou Carolina Pereira Marghidan, do Centro Climático da Cruz Vermelha, ao jornal The Guardian.

Para o arquiteto e urbanista Luiz Florence, integrante do Grupo de Trabalho Clima e Cidade do Instituto de Arquitetos do Brasil de São Paulo (IAB-SP), o desenho histórico das cidades europeias representa outro desafio. Segundo ele, embora ruas estreitas e edificações próximas criem áreas de sombra, também dificultam a circulação natural do ar. Com técnicas urbanísticas e políticas públicas mais modernas, afirma, torna-se possível reintroduzir áreas verdes e soluções baseadas na natureza para reduzir os impactos do calor extremo, que tende a se tornar cada vez mais frequente nas próximas décadas.