Nos últimos anos, a cultura sul-coreana deixou de ocupar apenas as telas dos doramas e as playlists de K-pop para ganhar espaço na rotina de milhares de brasileiros. Em Natal, esse movimento também mudou a forma como os jovens se relacionam com a música, a dança e até com as amizades.
O interesse pela chamada Hallyu — termo usado para definir a expansão global da cultura coreana — impulsionou o surgimento de grupos de dança, encontros de fãs e eventos voltados ao universo asiático, formando uma comunidade que cresce a cada ano na capital potiguar.

Para Rodrigo Machado, produtor cultural e diretor da GGCON, esse movimento já ultrapassou o status de tendência. “A gente entende, até por uma fala recente de um ministro chinês, que isso deixou de ser uma tendência para se tornar um fato”, afirma. Segundo ele, se antes a cultura coreana conquistava principalmente adolescentes por meio do K-pop, hoje ela também alcança um público adulto, impulsionada pelos doramas, pela gastronomia e por outras produções culturais.
Além do consumo, há quem viva essa cultura na prática, como o Shinestar, grupo natalense de K-pop cover criado em 2019. Tudo nasceu de um projeto que, inicialmente, deveria durar apenas uma apresentação. Na época, oito jovens que já participavam de outros grupos de dança decidiram montar uma performance de Boy With Luv, do BTS. O que parecia ser um encontro pontual acabou se transformando em algo que permaneceu.
Ao longo dos anos, integrantes entraram e saíram, até que o grupo chegasse à formação atual, com 13 membros. Em novembro deste ano, o Shinestar completa sete anos de existência.
A origem do grupo ajuda a explicar por que ele permanece ativo mesmo após tantas mudanças na formação. Antes de serem colegas de palco, os integrantes compartilhavam o interesse pelos chamados boy groups do K-pop e já se conheciam de projetos escolares e outros coletivos de dança. A afinidade fez com que a convivência extrapolasse os ensaios.
“A gente se uniu para um projeto só, achando que ia ser isso, só um evento, uma apresentação e pronto. Só que o grupo permaneceu porque a gente tinha muitas coisas em comum”, lembra Maya, uma das integrantes.
Com o tempo, a amizade passou a ser a principal característica do Shinestar. As coreografias continuam sendo o motivo que leva o grupo aos palcos, mas a convivência diária tornou-se o principal elo entre os integrantes.
“O que mais resume e define o Shinestar é isso, que a gente é mais um grupo de amigos do que um grupo de dança em si. O nosso foco é sempre ficar juntos, passar tempo juntos e aproveitar muito a companhia um do outro. Como consequência, a gente gosta de dançar, aí a gente dança bem”, resume Trice, integrante do grupo.
Esse ambiente também influencia a forma como o grupo funciona. Em vez de decisões individuais, as escolhas sobre músicas, figurinos e apresentações são tomadas em conjunto, sempre buscando um consenso.
“A gente resolvia muitas coisas chegando num consenso. Não dava para todo mundo ficar 100% frustrado nem 100% satisfeito em todas as coreografias, então a gente tentava encontrar um meio-termo. Daí nasceu uma amizade que a gente não esperava. Foi uma coisa extremamente espontânea”, conta Maya.
Essa união será colocada à prova novamente durante a GGCON, um dos principais eventos de cultura pop do Rio Grande do Norte. Para a apresentação deste ano, os ensaios começaram ainda em 31 de janeiro e se estenderam por cerca de cinco meses. Entre ajustes de coreografia, mudanças de formação e os chamados “perrengues” comuns à rotina de um grupo independente, os integrantes prepararam um espetáculo inspirado no universo do cinema.
A música escolhida faz referências a Hollywood, e toda a apresentação foi construída em torno dessa proposta. Os figurinos remetem a uma cerimônia do Oscar, com roupas sociais e elementos inspirados em premiações internacionais.
“A música que a gente escolheu fala sobre Hollywood. A gente gosta de criar coisas bem fora da casinha. Trouxemos referências do Oscar, e os figurinos são como se estivéssemos participando da premiação. A principal expectativa é se divertir, independentemente de qualquer coisa que aconteça no palco, e conseguir transmitir essa ideia para quem estiver assistindo”, completa Trice.
Embora o público costume associar o K-pop a um único estilo de dança, a realidade é bem diferente. As coreografias reúnem influências de diversas modalidades, como danças urbanas, jazz, contemporâneo e vogue, exigindo versatilidade dos grupos cover.
Flan conta que o K-pop não é um estilo de dança exatamente, mas que um conjunto de vários estilos compõem as coreografias, como danças urbanas, jazz, contemporâneo, vogue, entre outros.
Apesar do crescimento da comunidade em Natal, os integrantes afirmam que ainda enfrentam dificuldades para desenvolver o trabalho. A falta de espaços adequados para ensaios e apresentações aparece como uma das principais reclamações. Atualmente, parte dos treinos acontecem em locais como o Via Direta e o The Art, onde diferentes grupos dividem espaços reduzidos para preparar as coreografias.
“A dança do K-pop cover ainda é muito subestimada. A oportunidade que a gente tem de mostrar nossa arte são esses eventos, e até neles os espaços costumam ser pequenos. O cenário do K-pop cover no Nordeste é gigante, e em Natal está crescendo cada vez mais. A galera daqui é muito boa. A gente ensaia em espaços pequenos para tentar mostrar o nosso trabalho. A nossa ideia também é chamar atenção para esse cenário que cresce cada vez mais”, conclui Trice.
Mais do que reproduzir coreografias de artistas sul-coreanos, grupos como o Shinestar ajudam a explicar por que a Hallyu se consolidou em Natal. Em vez de um fenômeno passageiro, ela passou a reunir jovens que transformaram uma afinidade musical em amizade, produção cultural e uma comunidade que continua conquistando novos integrantes e público na cidade.