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Cantora potiguar Maria Liz apresenta “Flerte Tropical”, primeiro álbum da carreira

Disco reúne composições sobre romance, vulnerabilidade e a construção da identidade da artista
Belita Lira
30/06/2026 | 08:50

“Esse disco diz que sou eu, Maria, que agora existo para o mundo.” É assim que Maria Liz resume Flerte Tropical, seu primeiro álbum, lançado em 18 de junho. Aos 22 anos, a cantora potiguar transforma sete músicas em um retrato de uma fase da vida marcada pelo amor, pelas dúvidas e pelo amadurecimento. As canções foram escritas ao longo de dois anos e, embora contem uma história de romance, acabam revelando também a construção da artista que ela se tornou.

Se existe um fio que costura Flerte Tropical, ele começa justamente na faixa que dá nome ao álbum. Maria conta que a música nasceu primeiro e serviu de ponto de partida para as demais composições. Apesar de cada faixa seguir um caminho próprio, todas conversam entre si e acompanham diferentes momentos de uma mesma história.

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"Flerte Tropical" reúne sete faixas escritas ao longo de dois anos e marca a consolidação da identidade artística da cantora potiguar. - Fotos: Eduardo Passaia

“As sonoridades expressam um amadurecimento pessoal e se afunilam para o lugar mais próximo que estou hoje artisticamente. As letras conversam para esse lugar do início de um romance e do processo interno do ser”, conta.

Ela resume o trabalho em três palavras: catártico, transpositivo e sincero. A catarse aparece como alívio, a transposição acontece na passagem entre diferentes versões de si mesma e a sinceridade talvez seja o elemento que mais salta aos ouvidos. Maria escreve como fala. Sem excessos. Sem a necessidade de criar grandes personagens. O centro das músicas continua sendo aquilo que ela viveu.

Maria lembra que já reunia um público fiel nos shows em Natal, mas sentia falta de um trabalho que permanecesse para além do palco. “ Encher casa de show em Natal não é sinônimo de existência mais para esse mundo. Hoje somos abarcados pelo digital, precisamos existir nele para que talvez estejamos no mundo e em certos lugares, para que as pessoas nos ouçam”, afirma.

A música de abertura do disco “Flerte Tropical” chega com uma melodia leve, ritmo que lembra o calor do verão e um clima de descoberta. É uma canção sobre um amor que nasce sabendo que pode ser breve. Passageiro, talvez. Mas intenso o suficiente para deixar marcas. A própria Maria diz que queria que a faixa ocupasse “um lugar de primeira vez”, um momento que não volta. Depois dela, o álbum muda de direção, como acontece com qualquer história afetiva.

Ao longo das sete faixas, o romance vai sendo contado sem seguir uma narrativa linear. Em vez de começo, meio e fim, o disco apresenta diferentes recortes de relacionamentos. São músicas escritas em épocas distintas, mas que acabaram encontrando um ponto em comum quando reunidas no álbum.

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Primeiro álbum da cantora potiguar reúne composições que atravessam diferentes fases de um relacionamento e do amadurecimento pessoal. – Foto: Eduardo Passaia

Entre elas, uma das que mais chamam atenção é “Euforia”, terceira faixa do trabalho. A música fala sobre deixar de resistir aos próprios sentimentos e aceitar a vulnerabilidade que acompanha qualquer paixão. “Com você pra todo canto eu vou, com você pra todo canto é amor”, canta Maria.

Mesmo quando a personagem ainda parece tentar decidir se aquele amor vale a pena, a entrega já aconteceu. A razão hesita, mas o coração segue em frente. É uma das canções mais espontâneas do disco e traduz bem o entusiasmo dos primeiros capítulos de uma paixão.

Maria diz que nunca quis conduzir o ouvinte para uma única interpretação. Seu objetivo era permitir que cada pessoa encontrasse o próprio significado nas músicas. “Eu quis que a visualização do romance fosse latente, mas não de uma maneira escancarada. Quis que, ao escutar, as sensações fossem todas possíveis, inclusive a de surpresa ou estranhamento. Começo com coisas ritmadas e animadas e depois vou para um lugar de introspecção.”

Essa mudança de atmosfera acontece naturalmente. As primeiras músicas carregam uma energia mais luminosa, enquanto a reta final desacelera e mergulha em sentimentos mais complexos.

É nesse momento que aparece “Garoa”, penúltima faixa do álbum e um dos pontos altos do trabalho. Se no início predominam o encanto e a descoberta, aqui Maria escreve sobre aquilo que permanece quando o entusiasmo inicial divide espaço com as ausências. “Seja dois em um, seja tudo que eu não sou”, canta.

Em outro trecho, admite: “Já ouvi esses mesmos sons em outras bocas, mas quero a tua”. A composição fala sobre escolher permanecer, mesmo conhecendo as fragilidades da relação. É uma música delicada, construída mais pelos silêncios do que pelos excessos.

O encerramento fica por conta de “Despedida”, faixa que funciona quase como um epílogo. Maria canta sobre as marcas deixadas pelas pessoas que passam pela vida, sobre aquilo que ficou pelo caminho e sobre a necessidade de seguir em frente. “Outros goles, outras vidas, outros corpos, outras feridas. Pela luz da cidade eu sigo a trilha”, diz a letra.

Em diferentes momentos, a cantora parece se desculpar por tudo o que não conseguiu fazer ou ser. Ainda assim, o disco termina longe do pessimismo. Mesmo atravessada pelas perdas e pelas lembranças, ela reafirma que continua acreditando no amor. É um fim agridoce, que fecha a história sem eliminar a esperança.

Construir essa identidade sonora foi um dos maiores desafios do processo. Maria reconhece que lançar um primeiro álbum em um momento em que tantos artistas buscam referências semelhantes exigiu um esforço para encontrar um caminho próprio. “Vivemos em uma era da reprodução e representação. O meu objetivo nunca foi reproduzir, embora algumas referências estejam de forma sublime. Sou das palavras. Foi um trabalho complexo colocar esse conceito em música.”

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Primeiro álbum da cantora potiguar reúne sete músicas sobre amor, mudanças e a construção de sua identidade artística – Foto: Eduardo Passaia

Acostumada a compor com voz e violão, ela precisou pensar pela primeira vez em todos os elementos que formam uma faixa, dos arranjos aos timbres. O resultado é um disco que evita repetir fórmulas e faz de cada música um ambiente diferente, embora todas pertençam ao mesmo universo.

Quando fala sobre o que espera de quem ouvir o álbum, Maria evita mencionar números, plataformas ou reconhecimento. “Espero que o público carregue a música independente sendo feita da forma mais verdadeira possível. Que entendam um pouco das coisas que me abarcam, de quem sou. Espero que as pessoas saiam dessa escuta mais engajadas a viver, a ir a shows, conhecer coisas novas e se abrir para o inesperado.”

Flerte Tropical entrega isso. É um disco sobre o amor, mas também sobre tudo aquilo que o amor deixa quando passa. Sobre as pessoas que permanecem depois do encantamento, sobre as dúvidas que continuam mesmo durante a felicidade e sobre a coragem de transformar experiências íntimas em canção.

Olhando para trás, Maria sabe que as canções registram uma versão dela que já mudou. “Eu escrevi essas canções há dois anos. Certamente sou outra, artisticamente e como pessoa. Mas esse disco, em seu fim, deixa claro a musicalidade que estou prestes a seguir.”

Maria Liz diz que o maior aprendizado desse processo foi entender que “as coisas são mutáveis, mas não descartáveis. E que tudo gira para que um dia em algum momento estejamos certo do que queremos”. Essa é a melhor definição para seu primeiro álbum. As histórias mudam. As pessoas mudam. A própria artista já mudou desde que escreveu essas músicas. Mas as canções ficaram. E agora, finalmente, existem para o mundo.