As bolsas internacionais encerraram a terça-feira 23 em queda, pressionadas principalmente pela forte correção das ações de tecnologia, setor que vinha sustentando parte relevante da valorização dos mercados globais ao longo de 2026. O movimento refletiu uma combinação de fatores que incluem preocupações com a trajetória dos juros nos Estados Unidos, sinais de realização de lucros após meses de alta impulsionada pela inteligência artificial e uma crescente cautela dos investidores em relação às perspectivas de crescimento do segmento.
Em Nova York, o índice Nasdaq Composite, referência para empresas de tecnologia, recuou 2,2%, aprofundando a volatilidade observada nas últimas semanas. O S&P 500 caiu 1,44%, enquanto o Dow Jones teve perda mais moderada, de 0,09%, evidenciando que a pressão esteve concentrada sobretudo nas companhias ligadas à inovação, semicondutores e infraestrutura para inteligência artificial.

O desempenho das fabricantes de chips esteve entre os principais destaques negativos do pregão. A Micron Technology perdeu 13,2% de seu valor de mercado, enquanto a Qualcomm recuou 8%. Já a Nvidia, principal símbolo da corrida global pela inteligência artificial e maior fabricante de chips do mundo, caiu 4,1%, levando seu valor de mercado a ficar abaixo da marca de US$ 5 trilhões. O movimento reforçou a percepção de que investidores vêm reavaliando o ritmo de crescimento esperado para o setor após uma valorização sem precedentes nos últimos anos.
Empresas ligadas ao armazenamento de dados também registraram perdas expressivas. A Sandisk despencou 13,6%, enquanto a Western Digital caiu 8,4%. Ambas haviam sido beneficiadas nos últimos trimestres pela combinação de forte demanda por infraestrutura digital e restrições de oferta, fatores que impulsionaram receitas e margens. A correção observada nesta semana sugere um ajuste de expectativas por parte dos investidores diante de avaliações consideradas elevadas.
O movimento de aversão ao risco também atingiu os mercados europeus. O índice STOXX 600, principal referência das bolsas do continente, recuou 0,81%. Entre os destaques negativos esteve a ASML Holding, maior empresa da Europa em valor de mercado e líder mundial na fabricação de equipamentos para produção de semicondutores. As ações da companhia caíram 7,83%, ampliando as perdas no segmento de tecnologia da região.
Além das dúvidas em torno da inteligência artificial, investidores continuam monitorando a economia norte-americana e seus impactos sobre a política monetária. Indicadores recentes apontam para uma atividade econômica ainda resiliente nos Estados Unidos, cenário que reduz a urgência de cortes de juros pelo Federal Reserve e alimenta expectativas de manutenção das taxas em patamares elevados por mais tempo. Juros mais altos tendem a afetar especialmente empresas de crescimento acelerado, cujas avaliações dependem de expectativas futuras de lucro.
Segundo Arun Sai, estrategista sênior de múltiplos ativos da Pictet Asset Management, o mercado enfrenta atualmente um conjunto de fatores que pesa sobre o setor tecnológico. “É um golpe duplo de crescente ceticismo em relação à IA e forte crescimento econômico nos EUA”, afirmou. Na avaliação do especialista, a combinação de economia aquecida e juros elevados torna setores cíclicos mais atraentes em comparação com as empresas de tecnologia que lideraram a valorização dos mercados nos últimos anos.
A recente queda das ações da SpaceX em negociações privadas também contribuiu para o aumento da cautela entre investidores expostos ao universo tecnológico. Embora a companhia não seja listada em bolsa, seu desempenho é acompanhado de perto como termômetro do apetite por ativos ligados à inovação e ao crescimento de longo prazo. O movimento reforçou a percepção de que o mercado está mais seletivo em relação às empresas associadas à revolução da inteligência artificial.
Após meses de forte valorização impulsionada pelo avanço das aplicações de IA generativa, o mercado começa a exigir evidências mais concretas de retorno financeiro para justificar os níveis de avaliação alcançados por diversas companhias. Para analistas, a correção observada nesta semana não altera a relevância estratégica da inteligência artificial para a economia global, mas sinaliza uma fase de maior escrutínio sobre projeções de crescimento e capacidade de geração de resultados.
O ajuste também evidencia uma mudança temporária de preferência entre investidores, que voltam a direcionar recursos para setores mais sensíveis ao ciclo econômico tradicional. Em um ambiente de juros elevados e crescimento ainda robusto nos Estados Unidos, a busca por empresas com receitas mais previsíveis e avaliações menos esticadas tende a ganhar espaço, ao menos enquanto persistirem as dúvidas sobre a velocidade de monetização dos investimentos em inteligência artificial.