Uma descoberta realizada na Biblioteca Nacional da França está sendo considerada por especialistas como um dos achados mais importantes relacionados a Wolfgang Amadeus Mozart nas últimas décadas. Um caderno de 44 páginas utilizado durante aulas ministradas pelo compositor em Paris, no século XVIII, revelou não apenas detalhes inéditos sobre seu método de ensino, mas também sete obras até então desconhecidas atribuídas ao gênio austríaco.
O manuscrito foi apresentado oficialmente pela instituição na última sexta-feira e já mobiliza pesquisadores, musicólogos e estudiosos da obra de Mozart em diferentes países. O material oferece um raro registro do período em que o compositor viveu na capital francesa, em 1778, e trabalhou como professor particular de música.

O caderno pertenceu à jovem Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes, filha de um duque francês e reconhecida harpista de sua época. Durante as aulas, ela recebia orientações diretamente de Mozart em exercícios de teoria musical, composição e criação melódica.
Uma das passagens mais curiosas registradas no material está relacionada a uma aula em que a estudante enfrentava dificuldades para concluir uma melodia. Segundo relato feito por ela em uma carta enviada ao pai, Mozart observou sua tentativa durante cerca de quinze minutos antes de intervir.
“Olha só o idiota que eu sou”, disse ele, conforme o relato da aluna. “Comecei um minueto e nem consigo terminar a primeira parte, você teria a gentileza de terminá-lo?”
Na mesma correspondência, Marie-Louise relata que o compositor avaliava seu desempenho com certa ironia. Segundo ela, Mozart considerava que a estudante realizava adequadamente os exercícios de teoria musical, mas observava que ela “não tinha ideia nenhuma” quando precisava desenvolver composições próprias.
O que poderia representar apenas uma situação cotidiana de sala de aula acabou se transformando em um documento histórico de valor excepcional. As anotações preservadas mostram correções feitas por Mozart, orientações pedagógicas, observações sobre composição e diversos exemplos musicais produzidos ao longo das aulas.
Além disso, o caderno revelou a existência de sete peças para flauta e harpa que não figuravam nos catálogos conhecidos da obra do compositor. Embora parte dessas composições tenha sido desenvolvida pela própria aluna, especialistas afirmam que Mozart escreveu trechos substanciais das obras e teve participação direta em sua construção musical.
Para os estudiosos, isso justifica a inclusão do material entre as descobertas mais relevantes relacionadas ao compositor nos últimos anos.
“Esta é a descoberta mais importante sobre Mozart em décadas”, afirmou Armin Brinzing, diretor da Biblioteca Mozart da Fundação Internacional Mozarteum, em Salzburgo, na Áustria.
As obras recém-identificadas foram executadas publicamente pela primeira vez no último domingo, durante uma apresentação realizada na Biblioteca Nacional da França. A interpretação ficou a cargo da flautista Mathilde Caldérini e do harpista Nicolas Tulliez, ambos integrantes da Orquestra Filarmônica da Rádio França.
A descoberta ocorreu de forma quase acidental. O pesquisador François-Pierre Goy, ligado à Biblioteca Nacional da França, analisava em fevereiro uma série de manuscritos sem identificação definida quando um dos cadernos chamou sua atenção.
Segundo ele, o documento apresentava duas caligrafias distintas: uma pertencente à estudante e outra claramente associada ao professor. Além disso, alguns sinais musicais possuíam características específicas que despertaram suspeitas.
“Não acreditei no que vi”, disse Goy.
A partir daquele momento, iniciou-se um trabalho detalhado de comparação entre o manuscrito recém-encontrado e outros documentos conhecidos da produção de Mozart.
O pesquisador analisou cadernos de aulas ministradas posteriormente pelo compositor em Viena, além de cópias autografadas de partituras preservadas no acervo da própria biblioteca francesa. As semelhanças encontradas levaram a instituição a buscar uma avaliação especializada.
Em abril, Armin Brinzing viajou até Paris para examinar o material e realizar a autenticação da caligrafia. Após a análise, o especialista concluiu que não havia dúvidas sobre a autoria dos registros.
“É muito claro que é a caligrafia de Mozart”, afirmou.
O material oferece uma perspectiva rara sobre uma faceta menos conhecida do compositor: seu trabalho como professor. Embora Mozart seja amplamente lembrado por sua produção musical extraordinária, registros detalhados de suas aulas são extremamente escassos. Por isso, o caderno encontrado em Paris tem potencial para ampliar o conhecimento sobre seus métodos pedagógicos, sua forma de orientar estudantes e seu processo criativo.
Além do valor histórico, os pesquisadores destacam a importância musical das obras inéditas. As composições para flauta e harpa enriquecem um repertório relativamente restrito dentro da produção mozartiana para esses instrumentos e podem abrir novas linhas de pesquisa sobre a influência exercida pelo compositor em seus alunos e colaboradores.
O achado também reforça a possibilidade de que outros documentos ainda desconhecidos permaneçam preservados em bibliotecas, arquivos particulares e coleções históricas espalhadas pelo mundo.
Mais de dois séculos após sua morte, Mozart continua sendo uma das figuras mais estudadas da história da música ocidental. A descoberta feita na França mostra que, mesmo após centenas de anos de pesquisas, ainda existem capítulos inéditos capazes de ampliar a compreensão sobre a vida, a obra e o legado de um dos maiores compositores de todos os tempos.