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Copa do Mundo

Ancelotti amplia suspense na Seleção

A definição da equipe titular foi comunicada pelo técnico Carlo Ancelotti apenas momentos antes de a delegação deixar o hotel The Ridge
Por O Correio de Hoje
17/06/2026 | 14:17

A primeira partida do Brasil na Copa do Mundo de 2026 deixou uma imagem pouco comum para os padrões da Seleção Brasileira. Horas antes do empate por 1 a 1 com o Marrocos, nem mesmo os jogadores sabiam exatamente quem começaria a partida. A definição da equipe titular foi comunicada pelo técnico Carlo Ancelotti apenas momentos antes de a delegação deixar o hotel The Ridge, nos arredores de Nova York, rumo ao MetLife Stadium, palco da estreia brasileira no torneio.

Durante toda a semana que antecedeu o confronto, o treinador italiano promoveu treinamentos com diferentes formações. Havia consenso entre jornalistas e observadores sobre boa parte da equipe, mas as duas laterais e uma vaga no ataque permaneciam indefinidas. O mistério foi mantido até os instantes finais, surpreendendo parte da imprensa e alimentando debates sobre os métodos de trabalho do comandante.

Ancelotti repetido
Técnico revelou escalação apenas horas antes da estreia contra o Marrocos - Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Embora a estratégia tenha chamado atenção no ambiente da Seleção, ela está longe de ser inédita no futebol europeu. Em grandes clubes e seleções do continente, treinadores frequentemente evitam antecipar a escalação para preservar informações táticas, reduzir vazamentos ou manter o grupo em permanente estado de competição. Ancelotti, que construiu sua carreira em alguns dos maiores clubes do mundo, parece ter transportado essa cultura para o cotidiano da equipe brasileira.

O lateral-esquerdo Douglas Santos, um dos jogadores com maior experiência no futebol europeu dentro do atual elenco, minimizou qualquer estranheza em relação ao procedimento. Com passagens por clubes da Alemanha e da Itália e atualmente atuando no futebol russo, ele afirmou que a prática é comum em diversos países.

“Já tive muitos outros treinadores na Europa que não passavam a escalação durante a semana, ou até no dia antes do jogo, para que todos pudessem estar preparados. E esse jogo (com Marrocos) o mister (Ancelotti) fez isso com a gente. Todos estavam preparados, estavam focados. Acho que isso também dá oportunidade de todos se prepararem antes dos jogos”, afirmou o jogador em entrevista concedida nesta terça-feira, 16.

Um dos exemplos mais conhecidos da adoção dessa política é o de Didier Deschamps. No comando da seleção francesa desde 2012, o treinador utilizou o mesmo expediente durante a Eurocopa de 2024. O principal objetivo era impedir que informações estratégicas chegassem à imprensa antes das partidas, problema frequente em grandes competições internacionais.

Na época, o meia Adrien Rabiot explicou que a preocupação do treinador francês estava diretamente ligada aos vazamentos ocorridos durante os treinamentos.

“Talvez tenha mais a ver com esconder coisas de vocês (jornalistas) do que conosco. Inevitavelmente, há danos colaterais. É difícil para o treinador quando ele está tentando implementar sua estratégia, porque a informação vaza antes mesmo do treino terminar. Não é nada agradável ver que, depois de tanto trabalho, a mídia já está sabendo de algo no final da sessão”, declarou o jogador antes da semifinal entre França e Espanha.

Outro técnico frequentemente associado ao sigilo é Pep Guardiola. Durante sua passagem pelo Manchester City, encerrada recentemente após uma década de conquistas, o espanhol também deixou os jogadores sem saber quem iniciaria determinadas partidas. No caso de Guardiola, porém, a justificativa era diferente. Em entrevista concedida ao podcast MIDMID, em 2021, o meia Kevin De Bruyne relatou que o treinador dedicava tanto tempo às explicações táticas que, em algumas ocasiões, simplesmente deixava para comunicar a escalação apenas nos momentos finais.

No Barcelona, Hansi Flick também utiliza método semelhante. Segundo o jornal catalão Sport, o treinador prefere comunicar individualmente aos atletas suas funções e participação nas partidas. A intenção é oferecer orientações específicas, reforçar aspectos táticos e trabalhar a motivação de cada jogador de forma personalizada.

No caso de Ancelotti, a manutenção do suspense parece estar alinhada à filosofia que vem marcando seu primeiro ano à frente da Seleção. Desde que assumiu o cargo, o treinador italiano ainda não repetiu uma formação inicial, acumulando 13 escalações diferentes em 13 partidas. A rotatividade tem sido utilizada como instrumento para adaptar a equipe aos adversários, ao momento físico dos atletas e às necessidades de cada jogo.

Após a estreia diante do Marrocos, o debate sobre mudanças para a partida contra o Haiti ganhou força. O desempenho irregular do Brasil, sobretudo no primeiro tempo, aumentou a expectativa em torno de novas alterações. Ao mesmo tempo, a postura de Ancelotti reforça a percepção de que todos os jogadores permanecem efetivamente na disputa por uma vaga entre os titulares.

Para Douglas Santos, o modelo contribui para manter o grupo mobilizado em uma competição de curta duração e margens reduzidas para erros. “Copa do Mundo é tiro curto e pode cobrar caro. Ele mostrou a equipe antes de a gente sair para o estádio. Todos estavam focados, todos estavam muito bem preparados para esse momento”, afirmou. Em uma Seleção ainda em busca de maior consistência dentro de campo, Ancelotti parece disposto a manter fora dele uma das marcas que o acompanharam ao longo da carreira: a capacidade de surpreender até mesmo os próprios jogadores.