O empate por 1 a 1 com o Marrocos, na estreia da Copa do Mundo de 2026, deixou o Brasil em situação administrável no Grupo C, mas os números divulgados pela Fifa após os primeiros dias do torneio reforçam uma avaliação que já havia surgido dentro e fora da comissão técnica: a Seleção teve dificuldades para transformar posse de bola em produção ofensiva efetiva. Nos chamados “Power Rankings”, sistema de avaliação individual da entidade baseado nos quesitos ataque, criatividade e defesa, nenhum jogador brasileiro apareceu na liderança das estatísticas.
O melhor desempenho brasileiro foi registrado por Vinícius Júnior no critério ofensivo. Autor do gol que evitou a derrota diante dos marroquinos, o atacante recebeu nota 8,88, a quarta maior entre todos os jogadores avaliados até o dia 15 de junho. Além do gol, o camisa 7 finalizou apenas uma vez, criou duas oportunidades para companheiros e apresentou índice de acerto de passes de 84%. Ainda assim, ficou atrás do equatoriano Quinónez, que alcançou nota 9,16 após marcar um dos gols da vitória dos anfitriões sobre a África do Sul.

Os dados mais preocupantes para o Brasil aparecem no quesito criatividade. Apesar de ter controlado a posse de bola durante boa parte do confronto em Nova Jersey, a equipe produziu apenas uma chance clara de gol ao longo da partida. O brasileiro mais bem colocado foi Luiz Henrique, com nota 7,02, suficiente apenas para a 49ª posição geral no ranking da Fifa. Acionado no segundo tempo por Carlo Ancelotti, o atacante do Zenit contribuiu com um passe decisivo em 28 minutos em campo. A liderança da categoria ficou com o iraniano Ramin Razaeian, protagonista do empate do Irã com a Nova Zelândia ao participar diretamente dos dois gols de sua equipe.
Na defesa, Marquinhos foi o brasileiro mais bem avaliado, com nota 6,96. O zagueiro acumulou cinco ações defensivas e três recuperações de bola, mas apareceu apenas na 37ª colocação entre todos os participantes do Mundial. O líder da estatística foi o sul-coreano Kim Min-jae, que recebeu nota 8,34 após atuação destacada na vitória da Coreia do Sul sobre a Tchéquia. Embora o sistema defensivo brasileiro não tenha sido amplamente dominado, os números mostram vulnerabilidades relevantes: o Marrocos finalizou 14 vezes e criou situações de perigo principalmente nos momentos em que encontrou espaço entre as linhas de marcação.
Os rankings ajudam a explicar a percepção deixada pela estreia. O Brasil teve mais posse, trocou mais passes e permaneceu mais tempo no campo adversário, mas encontrou dificuldades para romper a organização marroquina. Em diversos momentos, a equipe circulou a bola sem conseguir acelerar o jogo ou encontrar jogadores entre as linhas. A dependência das ações individuais de Vinícius Júnior tornou-se evidente, especialmente durante um primeiro tempo em que a equipe produziu pouco ofensivamente.
O cenário aumenta a expectativa em torno das decisões de Carlo Ancelotti para a segunda rodada. Desde que assumiu a Seleção, o treinador italiano construiu a reputação de adaptar a equipe às circunstâncias de cada partida. Em aproximadamente um ano de trabalho, utilizou 13 escalações diferentes em 13 jogos, sem repetir uma formação inicial. A estratégia reflete sua convicção de que o desempenho coletivo e as características dos adversários devem orientar as escolhas.
Diante do Haiti, na sexta-feira 19, na Filadélfia, a tendência é que novas alterações sejam consideradas. O empate contra o Marrocos não comprometeu a classificação brasileira, mas reduziu a margem para experimentações. Mais do que buscar uma vitória, Ancelotti precisará encontrar mecanismos para aumentar a capacidade criativa da equipe e dar maior fluidez ao meio-campo, setor que teve dificuldades para conectar a posse de bola à criação de oportunidades.
Os rankings divulgados pela Fifa não determinam resultados nem resumem integralmente o desempenho coletivo, mas oferecem um retrato complementar do que ocorreu em campo. E, nesse retrato, a Seleção aparece distante dos protagonistas do torneio nos principais indicadores individuais. Para um time que chegou ao Mundial cercado por expectativas, o desafio imediato é transformar domínio territorial em produção ofensiva consistente e evitar que a estreia seja o prenúncio de problemas mais profundos ao longo da competição.