A suspensão temporária das hostilidades entre Estados Unidos e Irã provocou uma forte reprecificação dos mercados globais nesta segunda-feira 15, ao reduzir os temores de interrupção no fornecimento de petróleo e diminuir a percepção de risco geopolítico que vinha dominando os investidores desde o início do conflito no Oriente Médio.
A reação mais imediata ocorreu no mercado de energia. O barril do petróleo Brent, referência internacional, caiu 4,76%, encerrando o dia cotado a US$ 83,17, o menor nível desde os primeiros dias da guerra. O movimento ocorreu após o anúncio de um acordo que prevê uma trégua de 60 dias e a reabertura do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa parcela significativa do petróleo comercializado globalmente.

A queda da commodity alimentou um ambiente de maior apetite por risco nos mercados internacionais. As bolsas da Ásia, Europa e Estados Unidos registraram ganhos expressivos, impulsionadas pela expectativa de menor pressão inflacionária e de um cenário econômico mais previsível.
Em Nova York, o índice Nasdaq avançou 3,07%, impulsionado principalmente pelas empresas de tecnologia. O S&P 500 subiu 1,65%, enquanto o Dow Jones ganhou 0,9% e renovou máxima histórica em pontos.
No Brasil, porém, o movimento positivo foi mais contido. O Ibovespa encerrou o pregão em queda de 0,42%, aos 170.415 pontos, pressionado sobretudo pelo desempenho das ações ligadas ao setor de petróleo. Os papéis preferenciais da Petrobras recuaram 5,15%, refletindo a perspectiva de menor receita com exportações da commodity.
A reação distinta dos ativos brasileiros evidencia uma característica recorrente da economia nacional. Embora a queda do petróleo reduza pressões inflacionárias e beneficie setores consumidores de energia, o País também é um importante exportador de petróleo bruto. Assim, preços mais baixos significam menor entrada de dólares na economia e redução das receitas do setor.
O câmbio refletiu esse equilíbrio delicado. O dólar perdeu força frente às principais moedas globais, mas avançou 0,06% perante o real, encerrando o dia cotado a R$ 5,06.
Para Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e conselheiro da Jubarte Capital, o alívio externo foi parcialmente neutralizado por preocupações domésticas relacionadas à política fiscal.
Na avaliação do economista, o aumento recente dos gastos públicos reduz o espaço para cortes mais agressivos da taxa básica de juros, mesmo diante de um cenário internacional mais favorável.
O debate ganha relevância em uma semana decisiva para a política monetária. O Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia sua decisão sobre a Selic na quarta-feira 17, em meio a sinais contraditórios da economia. Os dados mais recentes do Boletim Focus mostram deterioração das expectativas inflacionárias. A projeção para o IPCA de 2026 subiu de 5,11% para 5,30% em apenas uma semana, ampliando a distância em relação ao teto da meta de inflação. Para 2027, a expectativa passou de 4,03% para 4,10%.
As previsões para a Selic também foram revisadas. O mercado passou a projetar taxa de 13,75% no fim deste ano e de 12% ao final de 2027, indicando um ciclo de flexibilização monetária mais lento do que se imaginava há alguns meses.
Ainda assim, a trégua no Oriente Médio reabriu discussões sobre a possibilidade de cortes adicionais dos juros. Nos contratos futuros, a taxa do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu de 14,36% para 14,24%, refletindo a redução dos riscos associados à energia. Economistas, porém, recomendam cautela. Para Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, os efeitos da guerra sobre os preços ainda não desapareceram completamente.
Segundo ele, a normalização do fluxo de navios no Estreito de Ormuz deve ocorrer gradualmente, e os preços do petróleo dificilmente retornarão aos níveis observados antes do início do conflito.
Visão semelhante tem Tiago Berriel, estrategista-chefe da BTG Asset Management e ex-diretor do Banco Central. Para ele, o encerramento provisório das hostilidades não elimina as incertezas que cercam a economia global.
Além da questão geopolítica, permanecem no radar fatores como reorganização das cadeias produtivas, riscos climáticos, mudanças regulatórias e a situação fiscal brasileira. Nesse contexto, a recomendação predominante entre gestores é evitar conclusões precipitadas sobre a trajetória futura da inflação e dos juros.
Outro fator que ajuda a explicar a reação moderada dos ativos brasileiros é a mudança no fluxo global de capitais. O forte entusiasmo em torno da inteligência artificial e a retomada das ofertas públicas de ações nos Estados Unidos têm atraído recursos que anteriormente buscavam oportunidades em mercados emergentes. Desde meados de abril, investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 32 bilhões da Bolsa brasileira. Parte desse movimento está associada ao interesse renovado por empresas ligadas à tecnologia e inteligência artificial.