A disputa global pelos minerais críticos, insumos considerados fundamentais para a transição energética e o desenvolvimento de tecnologias avançadas, ganhou um novo capítulo com a ofensiva da União Europeia (UE) sobre projetos estratégicos no Brasil. Em busca de reduzir sua dependência da China e fortalecer cadeias produtivas ligadas a veículos elétricos, energias renováveis e sistemas de defesa, o bloco europeu prepara uma aproximação mais intensa com o governo brasileiro e com empresas que atuam no setor mineral.
A movimentação ocorre em um momento de crescente competição internacional por matérias-primas como terras-raras, lítio, níquel e cobalto. A China domina atualmente entre 70% e 90% do processamento global desses minerais, posição que tem levado governos ocidentais a buscar fornecedores alternativos e a diversificar suas cadeias de suprimentos.

Nesse contexto, o Brasil emerge como um dos principais alvos da estratégia europeia. O País possui a segunda maior reserva mundial de terras-raras e reúne projetos considerados prioritários para os planos industriais da UE.
O movimento ganhará um marco político nesta semana com a visita ao Brasil de Jozef Síkela, comissário europeu para Parcerias Internacionais. Acompanhado por representantes do Banco Europeu de Investimentos, o executivo deverá visitar pelo menos um dos empreendimentos considerados estratégicos pelo bloco: o Projeto Colossus, da australiana Viridis Mining, localizado em Poços de Caldas (MG).
A iniciativa é considerada uma das mais promissoras do setor de terras-raras no País. Segundo estudos de pré-viabilidade, o empreendimento demandará investimentos de aproximadamente US$ 356 milhões e tem previsão de iniciar operações no primeiro semestre de 2028.
As reservas identificadas no projeto concentram elementos essenciais para a fabricação de ímãs permanentes utilizados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares e dispositivos de alta tecnologia.
Mais do que garantir acesso à matéria-prima, a União Europeia busca construir relações de longo prazo com países considerados confiáveis. A estratégia está alinhada ao Ato Europeu de Minerais Críticos, aprovado em 2023, que estabelece metas para reduzir a dependência externa do bloco.
Pelas novas regras, até 2030 pelo menos 40% do consumo anual de minerais críticos da UE deverá ser processado dentro do território europeu. Além disso, nenhum fornecedor externo poderá responder por mais de 65% da demanda do bloco para cada matéria-prima estratégica.
Para alcançar esses objetivos, Bruxelas reconhece que precisará ampliar parcerias internacionais.
“É absolutamente essencial trabalharmos com parcerias, adicionando valor aos parceiros. Podemos oferecer infraestrutura e tecnologia. Temos muito interesse no Brasil”, afirmou Joan Canton, chefe da Unidade de Descarbonização, Mobilidade e Materiais Críticos da Comissão Europeia.
Do lado brasileiro, a aproximação é recebida com interesse, mas acompanhada de uma condição considerada central pelo governo e pelo setor produtivo: o desenvolvimento de etapas industriais dentro do País.
A avaliação é que o Brasil não deve limitar sua participação à extração mineral, repetindo um modelo historicamente associado à exportação de commodities. A prioridade é atrair investimentos capazes de ampliar o processamento local e agregar valor à produção.
Essa convergência de interesses ajuda a explicar a inclusão da Refinaria São Miguel Paulista, em São Paulo, entre os projetos estratégicos acompanhados pela União Europeia. Controlada pela companhia Jervois, a unidade deverá voltar a operar em 2027 após investimentos de aproximadamente R$ 500 milhões.
A refinaria será a única da América Latina com capacidade para produzir níquel classe 1 e cobalto refinado, insumos amplamente utilizados na fabricação de baterias para veículos elétricos. Segundo a empresa, a unidade terá capacidade anual para produzir 12 mil toneladas de níquel refinado e 2 mil toneladas de cobalto.
Outro projeto acompanhado de perto pelos europeus é o da British Brazilian Nickel, em Capitão Gervásio Oliveira, no Piauí. Avaliado em cerca de US$ 1,4 bilhão, o empreendimento prevê a produção anual de 28 mil toneladas de níquel e mil toneladas de cobalto durante sua primeira década de operação.
A produção comercial está prevista para começar em 2029.
Na lista de prioridades da UE também aparece a AMG, companhia com operações em Minas Gerais voltadas para lítio e tântalo. Atualmente, parte do lítio produzido pela empresa segue para a China antes de ser utilizado na fabricação de baterias destinadas ao mercado europeu.
A presença de empresas estrangeiras nos projetos considerados prioritários reforça a preocupação europeia com a velocidade da disputa global por esses ativos. Algumas das companhias já possuem contratos de fornecimento com mercados concorrentes, incluindo Estados Unidos e países asiáticos.
A corrida por minerais críticos se tornou um dos principais elementos da reorganização geoeconômica mundial. A eletrificação da frota automotiva, a expansão das energias renováveis, o avanço da inteligência artificial e o fortalecimento da indústria de defesa ampliaram a demanda por matérias-primas consideradas estratégicas.
Nesse cenário, o Brasil reúne vantagens competitivas relevantes. Além da abundância de recursos naturais, o País é visto como um parceiro politicamente estável e geograficamente distante dos principais focos de tensão internacional.
A aproximação com a União Europeia também poderá abrir novas fontes de financiamento. Bruxelas pretende utilizar instrumentos vinculados ao programa Global Gateway, iniciativa lançada em 2021 para mobilizar até € 300 bilhões em investimentos públicos e privados em infraestrutura, energia, clima e transformação digital.
A estratégia, porém, dependerá da construção de um ambiente regulatório mais claro no Brasil. O setor ainda discute regras específicas para minerais críticos, formas de financiamento e mecanismos de incentivo à industrialização.