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Música

Olivia Rodrigo revisita os dilemas do amor

Novo disco da cantora norte-americana abandona respostas fáceis e aposta em emoções mais complexas e pessoais
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
16/06/2026 | 13:42

O amor sempre foi um território instável, especialmente quando vivido pela primeira vez com mais consciência, intensidade e expectativa. Olivia Rodrigo retorna a esse espaço em You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love, seu terceiro álbum, lançado na última sexta-feira 12, mas sem a ingenuidade que poderia se esperar de um disco sobre estar apaixonada.

Aqui, o sentimento não aparece como solução, mas como processo, cheio de contradições, excessos e pequenas rupturas que, aos poucos, revelam que amar também pode ser um exercício de perda.

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Olivia Rodrigo lança You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love, seu terceiro álbum - Foto: Reprodução

O título já antecipa o tom. Há uma contradição implícita entre estar apaixonada e, ainda assim, parecer triste. É nesse espaço que o álbum se constrói. Ao longo de 13 faixas, a cantora desenvolve uma trajetória que parte do encantamento e avança, gradualmente, para a dúvida, a ansiedade e a perda de si mesma dentro da relação.

As primeiras músicas capturam a euforia de um amor que ainda está se formando. Há leveza, entusiasmo e uma certa ingenuidade emocional — não no sentido de fragilidade, mas de entrega. Em faixas como “Stupid Song” e “Honeybee”, Olivia Rodrigo parece interessada em registrar esse momento em que tudo ainda faz sentido, em que o sentimento se sustenta na expectativa. É uma fase de descoberta, quase suspensa, antes que a realidade comece a interferir.

Mas essa estabilidade não dura. Aos poucos, o álbum muda de temperatura. As inseguranças ganham espaço, e a narrativa se desloca para um terreno mais instável. Em “Maggots 4 Brains”, por exemplo, a ausência se transforma em desconforto cotidiano, e pequenas imagens, como a comida esquecida na geladeira, traduzem uma sensação maior de vazio. O que antes era presença vira falta.

Essa transição é um dos pontos mais consistentes do disco. A sequência das faixas constrói uma espécie de espiral emocional, em que cada música aprofunda um pouco mais o desgaste do relacionamento. A cantora alterna entre esperança e controle, entrega e possessividade, até chegar ao momento de ruptura. Em “Purple”, esse conflito se torna mais evidente: amar passa a significar, também, perder partes de si.

É nesse ponto que o álbum encontra sua camada mais madura. Diferente dos trabalhos anteriores, marcados por términos e ressentimentos mais diretos, aqui a dor é mais difusa. Não há vilões claros. Há, sobretudo, a percepção de que nem sempre amar é suficiente.

A presença de Dan Nigro na produção reforça essa construção. A sonoridade acompanha o percurso emocional do álbum, transitando entre momentos mais leves e passagens densas, com influências que dialogam com o pop alternativo e referências sutis ao universo do The Cure. Em “What’s Wrong With Me”, feat com Robert Smith, essa conexão se materializa, ampliando o alcance emocional da faixa.

A crítica internacional reconheceu essa evolução. A Pitchfork destacou a capacidade da cantora de transformar emoções em sintomas físicos, sugerindo que o álbum poderia ser lido tanto como tristeza quanto como um estado de adoecimento emocional.

Já a Rolling Stone aponta que Olivia Rodrigo evita cair na armadilha de um romantismo simplificado, mantendo a complexidade que marca sua escrita. A Billboard descreve o disco como uma experiência “viva e pulsante”, enquanto a Variety reforça a consistência da parceria entre a artista e Nigro, destacando a habilidade de construir narrativas completas.

Há também um elemento central que atravessa todo o projeto: o amadurecimento. Rodrigo, que ganhou projeção global ainda na adolescência, agora apresenta um olhar mais consciente sobre suas próprias emoções. Isso aparece com força em versos como o de “Less”, em que admite que amar alguém profundamente não impede a necessidade de ir embora.

O encerramento, em “Cigarette Smoke”, não oferece resolução clara. Há uma tentativa de seguir em frente, mas sem a promessa de superação imediata. As memórias permanecem, ainda que transformadas. O álbum termina sem fechar completamente sua história, e essa escolha parece coerente com a proposta.

Se há uma virtude central em You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love, é a capacidade de transformar a experiência de um relacionamento em algo reconhecível, mesmo quando desconfortável. Olivia não busca respostas fáceis nem finais conciliadores. Em vez disso, constrói um retrato honesto de um processo que é, por definição, instável.

No fim, o disco não é apenas sobre amor; é sobre o que acontece quando ele deixa de ser suficiente. E é justamente nessa transição, entre o encantamento e a perda, que Olivia Rodrigo encontra seu trabalho mais maduro até agora.