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Creatina

Novo estudo questiona efeito anti-inflamatório da creatina

Estudo da Unesp aponta que benefícios da suplementação sobre marcadores inflamatórios ainda não foram comprovados por ensaios clínicos
15/06/2026 | 13:37

Amplamente consumida por praticantes de atividade física, atletas e frequentadores de academias, a creatina consolidou-se nas últimas décadas como um dos suplementos alimentares mais populares do mundo. Reconhecida por contribuir para o desempenho físico, o ganho de força e a recuperação muscular, a substância também passou a ser associada a uma série de benefícios adicionais, entre eles um suposto efeito anti-inflamatório. No entanto, uma nova revisão científica conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) indica que essa relação ainda não foi comprovada em humanos.

O trabalho analisou os resultados de diversos ensaios clínicos e concluiu que, até o momento, não existem evidências robustas capazes de confirmar que a suplementação de creatina seja capaz de reduzir de forma significativa os principais marcadores inflamatórios do organismo.

creatina
Revisão científica não encontra evidências robustas de efeito anti-inflamatório da creatina em humanos - Foto: Reprodução

A pesquisa foi desenvolvida no Centro de Estudos de Revisão Sistemática na Saúde Cardiovascular e Metabólica da Unesp, em Marília, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Os resultados foram publicados em fevereiro deste ano na revista científica Frontiers in Immunology.

Para chegar às conclusões, os pesquisadores revisaram oito ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, considerados entre os métodos mais rigorosos para avaliação de intervenções em saúde. O objetivo foi investigar se a suplementação de creatina alterava biomarcadores relacionados aos processos inflamatórios.

Segundo os autores, embora existam pesquisas anteriores sugerindo efeitos positivos da creatina sobre a inflamação, a maior parte dessas evidências surgiu a partir de estudos experimentais realizados em animais ou em culturas de células.

“Muita gente fala que a creatina é anti-inflamatória com base em resultados de estudos feitos em animais ou em células isoladas em laboratório. O problema é que esses resultados da pesquisa básica nem sempre se traduzem em efeitos clínicos em humanos”, explica o pesquisador Vitor Engracia Valenti, coordenador do grupo e orientador do estudo.

Desde os anos 1990, a creatina é utilizada como suplemento ergogênico, termo empregado para substâncias capazes de melhorar o desempenho físico. Seu uso está associado ao aumento da capacidade de produzir força, à melhora da performance em exercícios de alta intensidade e à recuperação muscular. Ao longo dos anos, porém, a popularização da substância fez surgir interpretações que extrapolam os benefícios já comprovados pela literatura científica.

Valenti ressalta que existem estudos indicando que a creatina pode exercer algum papel na preservação da integridade muscular e na modulação de determinados processos inflamatórios, especialmente após atividades físicas muito intensas. No entanto, os mecanismos envolvidos ainda não estão completamente esclarecidos.

“De fato, existem algumas evidências de que a creatina possui propriedades anti-inflamatórias que ajudariam a preservar a integridade muscular e a atenuar marcadores inflamatórios após sessões extenuantes de exercício, mas os mecanismos exatos responsáveis ainda não estão completamente definidos.”

A análise dos trabalhos mostrou que os resultados encontrados pelos pesquisadores são bastante heterogêneos e dependem do perfil dos participantes e do contexto em que a suplementação ocorre.

Em alguns estudos envolvendo atletas submetidos a exercícios extremos e prolongados, foram observadas reduções em determinados marcadores inflamatórios após protocolos de suplementação com doses elevadas de creatina, em torno de 20 gramas por dia durante cinco dias. Esses efeitos apareceram principalmente após competições de grande desgaste físico, como maratonas, corridas de longa distância e provas de triatlo. Nesses casos, houve redução de substâncias associadas à resposta inflamatória.

Os resultados sugerem que a creatina poderia exercer um papel protetor contra danos musculares decorrentes do esforço intenso.

Entretanto, os pesquisadores destacam que esse padrão não se repetiu quando a suplementação foi analisada em outras populações. Estudos realizados com idosos e pacientes diagnosticados com osteoartrite, por exemplo, não encontraram reduções significativas em marcadores inflamatórios como proteína C reativa (PCR), interleucinas e citocinas, mesmo após semanas de uso contínuo do suplemento.

Além disso, algumas melhorias observadas nesses grupos foram atribuídas ao próprio treinamento físico realizado pelos participantes e não necessariamente à ação da creatina.

Investigações voltadas à recuperação muscular e aos mecanismos moleculares da inflamação também não identificaram efeitos relevantes da suplementação, reforçando a hipótese de que eventuais benefícios possam estar restritos a situações muito específicas.

Apesar das conclusões da revisão, os pesquisadores alertam que a falta de evidências consistentes não deve ser interpretada como prova definitiva de que a creatina não possua qualquer efeito anti-inflamatório.

Segundo Valenti, o principal objetivo do estudo é evidenciar a necessidade de novas pesquisas, com metodologias mais robustas e amostras maiores.

“Recomendamos a realização de mais ensaios clínicos randomizados, controlados por placebo, para confirmar os dados observados. Nosso estudo funciona como um estímulo, uma provocação.”