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Vira-lata

Caramelo vira símbolo em disputa Brasil-México nas redes

Debate sobre a "nacionalidade" do animal reacendeu discussões sobre identidade cultural, genética e o papel do caramelo no imaginário popular brasileiro
Por O Correio de Hoje
15/06/2026 | 13:25

Presença constante em memes, campanhas publicitárias, músicas, fantasias de carnaval e até produções audiovisuais, o vira-lata caramelo consolidou-se nos últimos anos como um dos maiores símbolos populares da cultura brasileira. A imagem do cão sem raça definida ultrapassou as ruas e tornou-se um fenômeno da internet, sendo frequentemente associada ao cotidiano nacional. Agora, porém, o animal está no centro de uma discussão que envolve identidade cultural, genética e pertencimento nacional.

A polêmica começou após autoridades mexicanas reconhecerem oficialmente o chamado “perro caramelo” como uma raça nativa do México. A decisão rapidamente repercutiu entre brasileiros, que reagiram nas redes sociais diante da percepção de que um símbolo amplamente associado ao Brasil estaria sendo apropriado por outro país.

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Símbolo da cultura popular brasileira, vira-lata caramelo ganhou projeção nacional por meio de memes, campanhas publicitárias e redes sociais - Foto: José Aldenir

No México, a iniciativa foi recebida como uma forma de valorizar os cães sem raça definida que há décadas circulam pelas cidades do país. No Brasil, entretanto, a medida provocou críticas e comentários bem-humorados, reacendendo o sentimento de que o vira-lata caramelo é um patrimônio cultural nacional.

A reação ganhou força principalmente nas plataformas digitais. Usuários passaram a compartilhar publicações defendendo a “brasilidade” do animal, enquanto outros responderam com ironia à decisão mexicana.

Uma internauta escreveu que chegou o momento de o Brasil reagir e declarou: “é motivo para a 3ª guerra mundial”. Em outra publicação, acrescentou: “A gente batizou ele primeiro. Mexicanos, fechem suas caras”.

Do lado mexicano, a resposta também veio pelas redes. Um usuário afirmou: “Podemos compartilhar (os cães caramelos)”.

Por trás das brincadeiras e disputas virtuais, especialistas destacam que a história desses cães é muito mais complexa do que a associação a uma única nacionalidade.

Estudos genéticos indicam que os cães sem raça definida encontrados em diversos países da América Latina compartilham uma ancestralidade comum. Pesquisa realizada no ano passado analisou a composição genética desses animais e apontou que suas origens remontam a uma ampla mistura de raças provenientes da Europa, da Ásia e das Américas.

Segundo os pesquisadores, a base genética dos atuais vira-latas pode ser rastreada até cães trazidos pelos colonizadores portugueses e, posteriormente, por imigrantes de diversas nacionalidades, incluindo italianos, alemães, espanhóis e japoneses.

O processo de formação desses animais se intensificou ao longo da urbanização brasileira. Quando trabalhadores migraram do campo para as cidades, muitos levaram consigo cães utilizados no pastoreio de rebanhos, na proteção de propriedades rurais e em atividades agrícolas. Com o passar do tempo, esses animais cruzaram entre si e também com cães mantidos como animais de companhia nos centros urbanos.

O resultado foi o surgimento de uma enorme diversidade genética que deu origem aos cães sem raça definida encontrados atualmente em praticamente todas as regiões do país.

A geneticista Jaqueline Oliveira Rosa, da DNA Pets, laboratório brasileiro especializado em testes genéticos para animais e responsável pelo estudo, afirma que esse processo explica a formação dos atuais vira-latas caramelos.

Para ela, a história do animal está diretamente ligada à própria construção social do Brasil.

“A história do caramelo é a história do Brasil”, afirmou a geneticista.

O debate também despertou reflexões sobre a forma como esses cães passaram a ser vistos pela sociedade. Durante décadas, animais sem raça definida foram frequentemente associados ao abandono e à falta de valor comercial. Nos últimos anos, porém, o cenário mudou significativamente.

O vira-lata caramelo passou a ocupar um espaço de destaque no imaginário popular brasileiro, sendo retratado como símbolo de resistência, adaptação e diversidade. Essa transformação também ocorreu em outros países latino-americanos, incluindo o México.

Segundo Claudia Edwards, diretora de programas mexicanos da organização Humane World for Animals, o reconhecimento oficial do “perro caramelo” provavelmente foi influenciado pelo movimento brasileiro de valorização desses animais.

A especialista destaca que os cães representam características compartilhadas por diferentes sociedades latino-americanas.

“O povo brasileiro deveria ter muito orgulho disso. O vira-lata caramelo não precisa pertencer a apenas uma nação, ele é latino-americano.”

A discussão ganhou ainda mais força porque já existem iniciativas legislativas no Brasil voltadas ao reconhecimento oficial do animal. Em 2023, parlamentares apresentaram propostas para conceder ao vira-lata caramelo o status de patrimônio nacional.

Desde então, alguns estados brasileiros avançaram na discussão e aprovaram legislações reconhecendo oficialmente o cão como patrimônio cultural local.

Enquanto o debate continua, cenas do cotidiano ajudam a explicar por que esses animais conquistaram tanto espaço no imaginário coletivo. Nas praias, praças e ruas das cidades brasileiras, a presença dos caramelos é frequente.

Em uma manhã no Rio de Janeiro, por exemplo, o catador de latinhas Marco Yoshizawa caminhava acompanhado de Zico, um vira-lata de oito anos que considera mais do que um animal de estimação. Segundo ele, o cachorro é seu verdadeiro companheiro e está presente em praticamente todos os momentos do dia.

Histórias como essa ajudam a explicar por que a discussão ultrapassou a questão da origem genética dos animais. Para muitos brasileiros, o vira-lata caramelo representa uma parte da identidade nacional construída não por registros oficiais, mas pela convivência diária, pelo afeto e pela presença constante nas ruas do país.

No fim das contas, embora Brasil e México discutam quem pode reivindicar o símbolo, especialistas apontam que a trajetória desses cães revela uma origem compartilhada por diferentes povos da América Latina, marcada pela miscigenação, pela adaptação e pela convivência entre culturas ao longo dos séculos.