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Educação

Reitora diz que privatização da Uern representa retrocesso: “Superficial”

Cicília Maia afirma que universidade gera retorno econômico ao Estado e defende fortalecimento da autonomia financeira
Nathallya Macedo
10/06/2026 | 05:17

A reitora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), Cicília Maia, criticou as propostas de privatização e federalização da instituição que voltaram ao debate público com a aproximação do período eleitoral. Segundo ela, a universidade não deve ser tratada como um custo para o Estado e qualquer iniciativa que reduza as conquistas alcançadas pela instituição representa um “retrocesso”.

Durante entrevista ao programa Formação Potiguar, da TV Agora RN, Cicília afirmou que a comunidade universitária já discutiu amplamente o tema nos últimos anos, especialmente durante o processo que culminou na conquista da autonomia financeira da universidade. Para ela, o momento atual deve ser de fortalecimento da autonomia e ampliação dos investimentos na educação pública.

Cicilia Maia Reitora da UERN (72)
Reitora Cicília Maia criticou propostas de privatização e federalização da Uern - Foto: José Aldenir

“A gente tem aproveitado bastante esse momento quando a educação pública volta a ser tema de mesa de debate. O momento agora é de fortalecer essa autonomia que foi bastante discutida nesses últimos anos”, afirmou. Ao comentar as propostas de federalização e privatização, a reitora argumentou que a ideia parte de uma visão equivocada sobre o papel da universidade.

“Quem coloca na mesa [a proposta] é porque trata a nossa universidade como um fardo, como um custo. E esse não é o caminho correto do debate”, disse. Ela destacou ainda que a absorção dos servidores estaduais pela União não é possível nos moldes sugeridos por alguns defensores da medida.

“Os nossos servidores do Estado, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, eles vão para onde? Não vão para o Ministério da Educação. Depois da Constituição de 1988, essa absorção não pode mais acontecer. Então vamos desmobilizar um equipamento para colocar esses servidores aonde? A custo de quê?”, questionou.

Segundo Cicília Maia, o próprio Ministério da Educação não possui interesse em promover processos de federalização de universidades estaduais. Ela ressaltou que o sistema federal já possui sua própria estrutura de universidades e institutos federais.

A reitora também comparou a realidade do Rio Grande do Norte com a de outros estados brasileiros para defender a manutenção e o fortalecimento da Uern. Ela citou que o Ceará possui três universidades estaduais, a Bahia quatro, o Maranhão duas e o Paraná, na região Sul, sete.

“Será que nós não temos condições de ter um equipamento que oportuniza uma menina, um menino, que oportuniza adultos, que oportunizam pessoas a terem sua emancipação e libertação por meio da educação?”, perguntou.

Cicília reforçou que a Uern tem impacto direto no desenvolvimento econômico e social do Estado. Atualmente, a universidade possui cerca de 15 mil estudantes entre graduação e pós-graduação, oferta 66 cursos de graduação, 25 mestrados e nove doutorados, distribuídos em seis regiões do Rio Grande do Norte. Desde sua criação, há 58 anos, a instituição já diplomou mais de 60 mil profissionais.

Cicilia Maia Reitora da UERN (15)
Cicília Maia ressaltou que a universidade oferece 66 cursos de graduação – Foto: José Aldenir

A reitora afirmou que a universidade está presente, direta ou indiretamente, nos 167 municípios potiguares, seja por meio da formação de professores, profissionais da saúde, do direito ou de outras áreas.

Ela também rebateu argumentos que classificam os investimentos na instituição como excessivos. Segundo a gestora, a Uern recebe atualmente 3,08% da receita líquida de impostos do Estado, percentual garantido pela lei da autonomia financeira aprovada em 2021. “Tem estudos onde a cada real investido, você retorna R$ 1,24”, afirmou.

Ao defender a universidade pública, Cicília alertou para a necessidade de um debate baseado em dados e resultados concretos. “Às vezes, discursos são ditos sem embasamento. Quando você olha para o que nós representamos para o Estado em termos econômicos, porque econômico é diferente do financeiro, você percebe o impacto que a universidade gera.”

Em seguida, fez um apelo para que a população conheça mais de perto a instituição antes de aderir a críticas ou propostas de mudança. “Não entrem em discursos superficiais. Procurem a nossa universidade. A gente está sempre de portas abertas para dialogar, para comunicar, para dizer o que a gente tem feito de relevante para o desenvolvimento do Estado”, declarou.

A reitora também defendeu que o debate eleitoral inclua propostas concretas para a educação em todos os níveis de ensino. “Pergunte a quem procura vocês quais são as propostas que ele tem para a educação. E eu não estou falando da educação superior só. Eu estou falando da educação infantil à educação para pessoas idosas”, afirmou.

Para Cicília Maia, a defesa da Uern deve estar inserida em uma defesa mais ampla da educação pública brasileira. “O que a gente pede é: proteja as nossas instituições públicas, que cumprem um papel de excelência nesse Estado.”

Ela concluiu afirmando que a educação pública continua sendo um instrumento de transformação social e desenvolvimento. “Nós acreditamos e defendemos a educação pública como essa educação emancipatória, essa educação libertadora, essa educação que vai propiciar uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais sustentável.”

A reitora

Cicília Maia também recorreu à própria trajetória acadêmica e profissional para exemplificar o impacto que o ensino superior pode ter na vida das pessoas. Formada em Ciência da Computação pela própria Uern, ela afirmou que sua história é apenas uma entre mais de 60 mil profissionais diplomados pela universidade ao longo de seus quase 58 anos de existência.

Ela relatou que iniciou sua formação em um curso predominantemente masculino e destacou que a educação foi o instrumento que lhe permitiu construir uma trajetória acadêmica que passou por instituições como a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. “Não nasci reitora, não nasci professora. Eu tinha muitos sonhos como uma menina e, a partir da educação, fui conquistando degrau a degrau”, afirmou.

Segundo ela, a experiência em diferentes instituições de ensino reforçou a percepção sobre a qualidade da formação recebida na universidade potiguar. “A minha universidade, a minha Uern, nunca deixou a desejar para nenhuma outra que eu estive”, disse.

Cicília defendeu que os jovens valorizem o processo de formação e aproveitem as oportunidades oferecidas pelas universidades para ampliar conhecimentos e perspectivas. “Quando a gente traz a perspectiva da ciência, da diversidade, da tecnologia, isso vai nos agregando, vai nos abrindo horizontes que até então a gente não tinha condições de enxergar.”

Educação como instrumento de transformação, defende Cicília

Segundo a reitora, a universidade pública desempenha papel estratégico ao permitir que estudantes oriundos de escolas públicas e de famílias de baixa renda tenham acesso ao ensino superior e consigam melhorar suas condições de vida. Atualmente, cerca de 80% dos estudantes da Uern são oriundos da rede pública de ensino. Para ela, o desafio das universidades não é apenas garantir o ingresso dos alunos, mas assegurar condições para que eles permaneçam nos cursos e concluam a formação. “Não é apenas ele entrar na universidade. É ele entrar, permanecer com qualidade e com possibilidades.”

Nesse contexto, a reitora destacou a importância das políticas de assistência estudantil, como bolsas, auxílios, transporte e auxílio-creche. Para ela, a universidade deve ser encarada como um espaço acessível a todos os cidadãos. “Nós acreditamos e defendemos a educação pública como essa educação emancipatória, essa educação libertadora, essa educação que vai propiciar uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais sustentável.”