Desde sua estreia, em 2019, Euphoria construiu uma identidade marcada pelo impacto visual e pela disposição de abordar temas delicados sem suavizações. A série criada por Sam Levinson rapidamente se transformou em um dos maiores fenômenos da HBO ao retratar uma juventude atravessada por dependência química, relacionamentos abusivos, sexualidade, violência e crises emocionais.
Com fotografia carregada por tons vibrantes de néon, narrativa fragmentada e personagens complexos, a produção conquistou público e crítica ao apresentar um retrato sombrio da adolescência contemporânea. Na terceira e última temporada, entretanto, Levinson parece ter levado ao limite justamente os elementos que tornaram a série conhecida. O resultado é um encerramento que privilegia o impacto imediato e o espetáculo visual, muitas vezes em detrimento da construção dramática que sustentou os anos anteriores.

O episódio final, exibido pela HBO no último domingo, sintetiza boa parte dos problemas que marcaram a temporada. A narrativa assume contornos cada vez mais próximos de um thriller de ação com elementos de faroeste, apostando em confrontos, perseguições e situações extremas para concluir a trajetória de Rue Bennett, personagem interpretada por Zendaya.
Ao longo dos episódios, Rue se vê encurralada entre diferentes ameaças. De um lado está Laurie, traficante com quem acumulou uma dívida milionária. De outro, Alamo Brown, proprietário de um clube de strip-tease envolvido em atividades criminosas. Paralelamente, agentes da DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos, ampliam a pressão sobre os acontecimentos que cercam a protagonista.
A história termina de forma trágica. Rue, que desde o início da série trava uma batalha constante contra a dependência química, morre após sofrer uma overdose provocada por um analgésico adulterado com fentanil. A substância teria sido entregue deliberadamente por Alamo. A morte da personagem não chega a ser uma surpresa. Ao contrário, surge como consequência de um caminho construído ao longo de toda a série. Ainda assim, o momento representa um dos poucos trechos do episódio final que conseguem transmitir emoção genuína.
Outro destaque emocional aparece nas cenas envolvendo Ali, interpretado por Colman Domingo. Amigo, conselheiro e mentor de Rue, ele protagoniza um dos raros momentos de vulnerabilidade do capítulo. No entanto, mesmo essa construção acaba sendo absorvida pela lógica de espetáculo adotada pelo roteiro, que transforma o personagem em uma espécie de justiceiro movido pela vingança.
A principal fragilidade da temporada está justamente na escolha de privilegiar acontecimentos extremos em detrimento da construção narrativa. Ao longo dos episódios, Levinson parece tentar desenvolver uma reflexão sobre consequências, responsabilidade e os efeitos das escolhas individuais. O problema é que a série raramente consegue aprofundar essas questões.
As situações são apresentadas de maneira direta e frequentemente óbvia, sem alcançar a complexidade emocional que caracterizou os primeiros anos da produção.
O roteiro também ensaia uma discussão sobre diferentes formas de trabalho sexual. O universo do clube comandado por Alamo Brown, a atuação de Cassie, interpretada por Sydney Sweeney, no OnlyFans, e a condição de Jules, vivida por Hunter Schafer, como “sugar baby” de um homem rico e casado, apontam para um debate que poderia render reflexões mais amplas.
No entanto, a abordagem permanece superficial. Em vez de explorar as múltiplas dimensões sociais, econômicas e emocionais desses contextos, a série se limita a mostrar como determinadas plataformas podem proporcionar ganhos financeiros rápidos. A sensação deixada é a de que o tema funciona mais como justificativa narrativa para cenas altamente sexualizadas do que como objeto de análise efetiva.
Outro aspecto que contribui para a irregularidade da temporada é o tratamento dado a alguns de seus personagens mais relevantes.
Nate Jacobs, interpretado por Jacob Elordi, figura central nos conflitos das temporadas anteriores, aparece muito menos do que o esperado. Sua trajetória culmina em uma morte apresentada no sétimo episódio, após cenas marcadas por forte tensão dramática.
Jules, uma das personagens mais importantes para o desenvolvimento emocional de Rue, também recebe espaço reduzido ao longo da temporada.
A ausência de desenvolvimento para ambos contribui para a sensação de uma narrativa fragmentada e desconectada. Não fica claro se essa escolha decorreu exclusivamente de decisões criativas ou de eventuais questões envolvendo os bastidores da produção.
O resultado é uma temporada que frequentemente parece perder o foco, acumulando acontecimentos grandiosos sem conseguir transformá-los em uma narrativa verdadeiramente consistente.
A sensação de ruptura também aparece em aspectos técnicos.
Um dos elementos mais marcantes de Euphoria sempre foi sua trilha sonora. O trabalho de Labrinth ajudou a definir a identidade emocional da série, criando uma atmosfera singular que se tornou parte inseparável da experiência dos espectadores.
Na temporada final, porém, o compositor foi substituído por Hans Zimmer.
Embora Zimmer seja um dos nomes mais prestigiados da música para cinema e televisão, sua abordagem não reproduz a mesma conexão construída por Labrinth ao longo dos anos anteriores. A mudança contribui para que a despedida da série pareça, em alguns momentos, distante de suas próprias origens.
Se a temporada encontra dificuldades em sua estrutura narrativa, o mesmo não pode ser dito de seu elenco.