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Cultue

Artesã transforma conchas de ostras em arte e cria nova fonte de renda no RN

Material que seria descartado ganha novo uso em peças artesanais produzidas no litoral potiguar
Rebecca Alves
01/06/2026 | 07:39

O Rio Grande do Norte tem uma relação cada vez mais próxima com as ostras. Presentes nos estuários e manguezais do litoral potiguar, elas deixaram de ocupar espaço apenas na gastronomia e passaram a integrar uma cadeia produtiva que envolve cultivo sustentável, turismo e geração de renda para comunidades locais.

O Estado se tornou líder nacional na produção de ostras nativas e experiências ligadas à atividade ganharam reconhecimento principalmente em cidades como Tibau do Sul, Canguaretama e Georgino Avelino.

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Miriam Ferreira transforma conchas provenientes do cultivo de ostras em objetos decorativos e peças de arte sacra - Fotos: Rebecca Alves

Para além da gastronomia, a concha das ostras, que muitas vezes seriam descartadas, encontram novos usos e se tornam matéria-prima nas mãos de artesãs como Miriam Ferreira, que transforma o material em belas peças de artesanato.

Tudo começou durante a pandemia, quando ela passou a produzir arte sacra em casa. Sendo uma mulher católica, tinha um desejo antigo de ter uma gruta própria e isso se tornou aos poucos um ofício.

Depois, as peças passaram a ocupar espaço em feiras e eventos de artesanato. Para Miriam, o encontro com as ostras aconteceu despretensiosamente durante uma viagem à Georgino Avelino.

“Eu estava numa feira e vi as meninas trabalhando com ostras. As cascas estavam todas em um cesto para jogar fora. Perguntei se iam descartar aquilo e disseram que sim. Aí perguntei se podia levar porque queria tentar fazer uma gruta de ostra”, conta.

Após o consumo das ostras, as conchas geralmente se acumulam como resíduo. Em locais de comercialização e beneficiamento, o descarte pode acontecer em grandes quantidades, o que abre espaço para iniciativas de reaproveitamento.

A primeira tentativa não deu certo, Miriam precisou descobrir como expressar a sua arte através do reaproveitamento das conchas das ostras. Mas ela insistiu e hoje, as peças feitas com ostras passaram a ser produzidas por encomenda e comercializadas em feiras e redes sociais, principalmente através do perfil da sua loja @santacruta, onde compartilha frequentemente suas produções.

Além de trabalhar nas peças, a artesã destaca que todo o processo exige cuidado. Depois de recolher as conchas descartadas em Georgino Avelino e na comunidade de Barreta, em Nísia Floresta, ela inicia uma longa etapa de limpeza: as cascas passam dias mergulhadas em água sanitária, são lavadas, escovadas e secas ao sol antes de virarem matéria-prima.

A estrutura das peças também surpreende. O que parece uma base rígida de madeira ou cimento, na verdade, é feita com materiais simples e recicláveis. “A base é toda de papelão. Eu vou cortando, montando o formato e colando uma ostra sobre a outra com cola quente”, explica.

Além das ostras, Miriam também utiliza conchas, pedras, garrafas PET, restos de jeans e outros materiais recicláveis. Para ela, o trabalho vai além da produção artesanal, pois tem um papel importante na sustentabilidade. “Quem trabalha com reciclado está salvando um pouco o meio ambiente”, afirma.

Apesar do potencial que enxerga nas peças produzidas com as conchas, ela acredita que o artesanato ainda enfrenta obstáculos. A principal dificuldade, segundo ela, é a falta de incentivo. “Viver 100% do artesanato é muito apertado. Pelo menos aqui no Rio Grande do Norte, a gente não sente que o artesanato recebe muito valor”, disse.

Além da produção própria, Miriam também participa da organização de espaços para outros artesãos. Junto a amigas, ela fundou o grupo Mulheres Raízes, iniciativa que busca ampliar a participação de artesãos em feiras realizadas em condomínios e outros espaços.

Apesar de não ser hoje sua principal fonte de renda, Miriam continua produzindo peças por encomenda e participando de feiras em Natal. O trabalho com conchas e materiais recicláveis representa uma alternativa de reaproveitamento de resíduos e integra possibilidades de geração de renda dentro da cadeia produtiva ligada às ostras no Estado.