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Encontro

Natal recebe congresso internacional sobre produção energia eólica offshore

Evento reunirá especialistas de diversos países para discutir energia em alto-mar e oportunidades de neoindustrialização sustentável para o Nordeste
Redação
30/05/2026 | 05:30

Natal será palco, entre os dias 1º e 3 de junho, da quarta edição do Brazil Offshore Wind & Power-to-X (BOWPX), considerado um dos principais eventos da América Latina voltados à energia eólica offshore e às novas cadeias produtivas associadas à transição energética. O encontro ocorrerá no Serhs Natal Grand Hotel & Resort, na Via Costeira, reunindo representantes de governos, universidades, centros de pesquisa, investidores, empresas e instituições financeiras para debater o futuro da indústria verde no Brasil.

O evento acontece em um momento em que a energia eólica produzida em alto-mar desponta como uma das apostas para a expansão da matriz energética mundial. Diferentemente dos parques eólicos instalados em terra, os empreendimentos offshore aproveitam ventos mais constantes e intensos, o que aumenta a capacidade de geração de eletricidade e abre espaço para novos projetos industriais associados ao uso dessa energia renovável.

Entrevista TV Agora RN Copia
Professor Mario Gonzalez (direita) e superintendente Jeová Lins na TV Agora RN - Foto: Michelle Trindade

O Rio Grande do Norte aparece como um dos estados mais promissores nesse cenário. Líder nacional em geração eólica em terra, o Estado reúne características naturais consideradas excepcionais para a exploração dos ventos marítimos. O potencial já despertou o interesse de empresas, pesquisadores e órgãos públicos, que enxergam na nova indústria uma oportunidade de desenvolvimento econômico capaz de gerar investimentos, empregos qualificados e diversificação da atividade produtiva regional.

O congresso é organizado pelo Grupo de Pesquisa Creation, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e chega à sua quarta edição após consolidar-se como espaço de discussão sobre o futuro da energia offshore e suas aplicações industriais.

Doutor em Engenharia de Produção e fundador do Creation na UFRN, o professor Mário Gonzalez explica que o foco do encontro é discutir não apenas a geração de energia, mas principalmente como essa eletricidade renovável pode ser utilizada como matéria-prima para novos processos produtivos.

“O evento tem como principal foco discutir o novo setor econômico de eólica offshore e as aplicações dessa eletricidade renovável, não somente como energia elétrica, mas sim como insumo na indústria”, afirmou, em entrevista ao podcast Central Agora RN, na TV Agora RN (YouTube), nesta sexta-feira 29.

Entre os temas previstos, estão o uso da eletricidade renovável na indústria do cimento, siderurgia, fertilizantes e outras atividades consideradas estratégicas para a descarbonização da economia.

A expectativa dos organizadores é que o debate contribua para consolidar uma visão de longo prazo para o Nordeste, baseada na atração de empreendimentos industriais capazes de aproveitar a vantagem competitiva da região na produção de energia renovável.

O evento também ocorre em um contexto de avanços regulatórios no Brasil. O marco legal da energia offshore foi aprovado em 2025, e o governo federal trabalha na regulamentação necessária para permitir a implantação dos primeiros projetos comerciais em águas brasileiras. Embora existam dezenas de propostas protocoladas junto aos órgãos ambientais, nenhuma usina offshore entrou em operação no país até o momento.

Para os defensores do setor, a combinação de ventos favoráveis, disponibilidade de áreas marítimas, infraestrutura em expansão e capacidade de geração renovável coloca o Nordeste em posição privilegiada na corrida por investimentos ligados à economia de baixo carbono.

No último dia da agenda oficial, o encontro contará ainda com uma rodada de negócios voltada à aproximação entre investidores, financiadores, desenvolvedores de projetos e fornecedores, numa tentativa de estruturar uma cadeia produtiva nacional para o setor.

RN tem potencial para liderar nova indústria verde

Na entrevista à TV Agora RN, o professor Mario Gonzalez destacou que o Rio Grande do Norte possui uma das melhores condições do mundo para geração eólica, tanto em terra quanto no mar. Segundo ele, a condição ocorre pela soma de três características do vento potiguar: velocidade, constância e direção.

O professor lembrou que especialistas internacionais já classificaram o Estado como uma espécie de “Disneylândia dos ventos” para geração renovável. Ele explicou que o potencial aumenta ainda mais nos projetos offshore. Segundo Gonzalez, os parques instalados no mar apresentam fator de capacidade entre 12% e 15% superior ao observado nos empreendimentos terrestres.

A entrevista também abordou um dos principais desafios enfrentados atualmente pelo setor elétrico regional: o chamado curtailment, situação em que a geração de energia é interrompida porque a produção supera a capacidade de consumo e de transmissão.

Hoje, o Rio Grande do Norte produz muito mais energia do que consome. De acordo com o pesquisador, o Estado gera aproximadamente 13 gigawatts-hora e utiliza menos de 2 gigawatts-hora, o que exige o envio da eletricidade para outras regiões do País.

Na avaliação do professor da UFRN, a solução passa pela atração de indústrias capazes de consumir localmente essa energia excedente.

Entre as oportunidades apontadas, estão a produção de aço verde e fertilizantes nitrogenados a partir do hidrogênio verde. Gonzalez destacou que a siderurgia mundial responde por parcela relevante das emissões globais de carbono e que novas rotas tecnológicas podem reduzir significativamente esse impacto.

No caso dos fertilizantes, ele lembrou que o Brasil depende fortemente da importação do produto e que a energia renovável pode ajudar a nacionalizar parte dessa produção. “O Brasil importa 86% dos fertilizantes de fora”, afirmou.

O professor também citou o projeto Green Energy, resultado de parceria entre Brasil e Alemanha, que prevê investimentos da ordem de R$ 12 bilhões para produção de amônia verde, matéria-prima essencial para fertilizantes nitrogenados.

Ao longo da entrevista, Gonzalez utilizou o conceito de “neoindustrialização sustentável” para definir o processo que poderá surgir a partir da combinação entre energia renovável, hidrogênio verde, fertilizantes, siderurgia e infraestrutura logística.

Nesse contexto, ele destacou a importância de projetos estruturantes, como o futuro Porto-Indústria Verde do Rio Grande do Norte, considerado estratégico para dar suporte à indústria offshore e às novas cadeias produtivas associadas à transição energética.

Outra preocupação destacada foi a formação de mão de obra qualificada. Segundo ele, universidades e centros de pesquisa já vêm adaptando seus currículos para atender às demandas da nova economia energética.

Como exemplo, citou mudanças promovidas pela própria UFRN. “Fizemos a transição energética do curso de Engenharia de Petróleo. Agora, é Engenharia de Energia. Na pós, o programa de pós-graduação era Ciência e Engenharia do Petróleo, agora é Programa de Pós-graduação em Energia e Petróleo”, afirmou.

Financiamento

Em participação no Central Agora RN, o superintendente do Banco do Nordeste no Rio Grande do Norte, Jeová Lins de Sá, enfatizou que a instituição é apoiadora do evento e dispõe atualmente de um orçamento anual de R$ 1,4 bilhão para operações relacionadas ao setor de energias renováveis no Rio Grande do Norte.

Além disso, existem projetos em análise que somam cerca de R$ 4 bilhões.

Jeová ressaltou que o foco do Banco do Nordeste não está apenas na geração de energia, mas também na atração de novos empreendimentos capazes de agregar valor à eletricidade produzida no Estado.

“A gente acredita que, a partir daí, vamos ter o surgimento de data centers, das baterias. Enfim, a indústria verde”, afirmou.

Sobre o Brazil Offshore Wind & Power-to-X

Quando: 1º, 2 e 3 de junho de 2026

Onde: Serhs Natal Grand Hotel & Resort, Via Costeira, Natal (RN)

Inscrições: Gratuitas

Como participar: Pelo site do Grupo Creation da UFRN (creation.ufrn.br)