Integrante da formação clássica da Legião Urbana, o guitarrista e compositor Dado Villa-Lobos afirmou que o rock deixou de ocupar o centro da cultura contemporânea. Em entrevista concedida durante o lançamento do álbum solo “O Que Você Quiser”, o músico também falou sobre o novo momento da carreira, a influência do streaming na indústria musical e a relação com o legado da banda criada ao lado de Renato Russo e Marcelo Bonfá.
Sobrinho-neto do maestro Heitor Villa-Lobos, Dado participou da Legião Urbana ao longo dos anos 1980 e 1990, período em que o grupo se consolidou como um dos mais influentes do rock brasileiro. Após a morte de Renato Russo, em 1996, a trajetória da banda passou a render livros, filmes e projetos especiais, enquanto o guitarrista iniciou uma caminhada solo. Nos últimos anos, porém, o músico também esteve envolvido em disputas judiciais relacionadas ao uso da marca Legião Urbana.

Segundo Dado, o novo disco representa um movimento de afastamento do passado e uma tentativa de se reconectar com novas sonoridades. O álbum “O Que Você Quiser” chegou às plataformas digitais acompanhado de faixas que o músico define como mais “solares”, em contraste com um período pessoal turbulento. “Meu coração partiu para o êxtase”, afirmou, em entrevista ao Estadão. “E você se livrar dos problemas cotidianos deste mundo conturbado, essa coisa caótica das nossas metrópoles e do Brasil. E se livrar disso tudo.”
O artista explicou que a proposta do trabalho surgiu após um período de introspecção vivido depois da pandemia. “O disco pontua muita coisa da pandemia, mas também aparecem músicas solares”, disse. Segundo ele, o álbum reúne composições feitas recentemente e também ideias antigas que ganharam nova forma.
Dado afirmou que o cenário atual da música mudou profundamente em relação às décadas de 1980 e 1990. Para ele, as plataformas digitais alteraram a forma de consumo e diminuíram o espaço ocupado pelo rock na cultura popular.
“O rock perdeu o seu espaço na cultura moderna ou de repente ele perdeu espaço para seguir relevante? Por exemplo, o Céu convidou vocês para um projeto de celebração do rock brasileiro. Perdeu espaço, sim. Você não vai encontrar no topo, 100 do Spotify o que se chama de rock, com a atitude de rock. Foo Fighters já tem mais de 30 anos. A última grande banda foi o Radiohead. Sobre o projeto do Céu, não tive como negar o convite da Monique Gardenberg (produtora) e essa ideia de executar discos icônicos.”
Ao comentar a indústria musical contemporânea, o músico afirmou que o streaming alterou completamente a lógica do mercado. Segundo ele, a velocidade da circulação de músicas e conteúdos tornou o ambiente mais competitivo e fragmentado.
“Com os Engenheiros não havia essa dinâmica de competição; a gente até se cutucava, mas a realidade é que quando eles lançaram o primeiro disco, Longe Demais das Capitais, eu passei a admirar o Humberto. Com os Paralamas havia uma rivalidade no sentido de que uma banda motivava a outra. Quando saímos de Brasília e chegamos ao Rio, toda a galera, inclusive Herbert, nos chamava de ‘jacus de Brasília’”, contou, em tom de lembrança.
Durante a entrevista, Dado também relembrou a convivência com Renato Russo e comentou a forma como o ex-vocalista da Legião Urbana é retratado atualmente. Para o guitarrista, existe uma leitura exagerada sobre a personalidade do cantor.
“O equívoco é achar que ele (Renato Russo) fosse um cara supercabeça e supergenial. Ele era um cara que comia cachorro-quente e jogava Master com a gente”, disse. Em outro momento, afirmou que Renato também tinha um lado simples e cotidiano, distante da imagem construída ao longo dos anos. “O equívoco é de talvez achar que ele fosse um cara supercabeça, supergenial e superprolixo, no sentido de que ele lia, escrevia e tocava muito… Era um pouco disso tudo, mas não era esse cara todo aí. Ele era um cara que, nos fins de semana, comia cachorro-quente e jogava Master System.”
Ao abordar o legado da Legião Urbana, Dado afirmou que o grupo se tornou uma referência porque conseguiu traduzir questões geracionais de maneira direta. Segundo ele, as letras de Renato Russo dialogavam com o cotidiano e com os conflitos dos jovens brasileiros da época.
Questionado sobre o cenário político e social do Brasil nos anos 1980 e 1990, o músico lembrou que muitas das canções produzidas naquele período permanecem atuais. Ele afirmou ainda que o País vive ciclos semelhantes de tensão social e polarização. Sobre o futuro, Dado disse que pretende manter o foco em projetos ligados à própria carreira e revelou não ter interesse em transformar o passado em atividade permanente. Apesar disso, reconheceu que o legado da Legião Urbana continuará acompanhando sua trajetória artística.
“Mas esse show é uma exceção, pois a parceria com o Bonfá acabou, correto? Estamos dando um tempo. Ficamos um ciclo de comemorações por dez anos. A estrada é realmente cruel. Não é uma coisa fácil para mim estar sistematicamente em um projeto grande. É bacana, mas é puxado.”