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Moda

Estilista indígena brilha em Paris

Descendente aimará e fulni-ô, empresária criou marca voltada à inclusão de mulheres indígenas, negras e imigrantes e já desfilou na Semana de Moda de Paris
Por O Correio de Hoje
27/05/2026 | 13:04

Para a estilista Dayana Molina, seguir carreira na moda parecia um caminho inevitável desde a infância. Bisneta e neta de costureiras, ela cresceu cercada por máquinas de costura no Recife e aprendeu o ofício ainda muito jovem. O fato de a trajetória parecer natural, no entanto, não significou ausência de obstáculos.

“Eram mulheres que costuravam no sertão de Pernambuco por sobrevivência e não entenderam quando eu decidi que essa seria a minha escolha”, afirma Day, como é conhecida. “Foi um chamado ancestral e quis dar continuidade a esse legado, mas sem permanecer sangrando no processo.”

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Estilista pernambucana Day Molina transformou ancestralidade indígena em marca de moda - Foto: Reprodução

De ascendência aimará e fulni-ô, Day construiu uma trajetória marcada pela tentativa de aproximar moda, ancestralidade, sustentabilidade e inclusão social. A estilista estudou design de moda na Universidade de Buenos Aires e iniciou a carreira como figurinista aos 17 anos. Mas o ingresso no mercado revelou barreiras que iam além da criação artística.

Segundo ela, havia resistência às pautas indígenas defendidas em seus trabalhos e, ao mesmo tempo, dificuldade de pertencimento dentro do próprio ambiente da moda. “A colonização colocou nós, indígenas, como uma sociedade não organizada, mas é o contrário. A selvageria começou na colonização”, afirma.

Foi a partir dessa visão que Day criou o termo #DecolonizeAModa, expressão que passou a representar sua proposta de questionar padrões estéticos, produtivos e sociais reproduzidos historicamente pela indústria fashion. Mesmo sem ter clareza absoluta sobre os rumos profissionais, ela afirma que sentia necessidade de começar.

Em 2015, comprou alguns metros de tecido e criou a Nalimo, marca que hoje se tornou referência em produção alinhada a práticas sustentáveis e inclusão de grupos historicamente marginalizados.

A empresa trabalha majoritariamente com mulheres, indígenas, imigrantes e negras. Das cinco pessoas que atuam diretamente no ateliê, apenas o marido de Day é homem. Além disso, as 15 associações parceiras da marca são lideradas por mulheres.

A proposta da Nalimo também envolve compromisso ambiental. A marca utiliza matérias-primas naturais de forma sustentável, incluindo o linho, e reaproveita resíduos gerados no próprio ateliê para criação de novas peças, acessórios e embalagens.

A trajetória da estilista aparece como exemplo na pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, desenvolvida pelo Estúdio Clarice, organização voltada à inteligência criativa e produção de pesquisas sobre protagonismo feminino.

O levantamento ouviu 1.059 mulheres e identificou uma percepção de poder associada menos ao acúmulo individual e mais ao impacto coletivo e ao propósito. Uma das conclusões apontadas pela pesquisa afirma que “poder que não transborda não é poder, é acúmulo”.

Segundo o estudo, 27% das entrevistadas relacionam poder à realização de algo com propósito, enquanto 21% associam a ideia à capacidade de ajudar outras pessoas. A trajetória de Day e da Nalimo dialoga diretamente com esses resultados.

Além da atuação empresarial, a estilista também investiu em formação profissional voltada a povos originários. Há cinco anos, criou a Aldeia Criativa Design do Futuro, considerada a primeira escola de design idealizada especificamente para indígenas. O projeto oferece cursos, capacitações e formação voltada ao mercado da moda.

A expansão da carreira levou Day a alcançar espaços tradicionais da indústria internacional. Em 2021, ela desenhou um vestido apresentado no Met Gala, evento beneficente ligado ao Metropolitan Museum of Art, em Nova York, conhecido por reunir celebridades e grandes marcas da moda mundial.

Mais recentemente, a Nalimo chegou às passarelas francesas. Em setembro, a marca participou do Runway Vision durante a semana de moda de Paris.

A presença da estilista em um dos principais circuitos internacionais da moda simboliza não apenas crescimento profissional, mas também o avanço de discursos ligados à diversidade, sustentabilidade e valorização de identidades indígenas dentro de um setor historicamente marcado pela exclusão.

Ao longo da trajetória, Day Molina passou a utilizar a moda como ferramenta de reposicionamento cultural e social, buscando construir um modelo que valorize ancestralidade sem reproduzir ciclos de exploração vividos por gerações anteriores de mulheres costureiras.