Aos 77 anos, o escritor britânico Ian McEwan voltou a refletir sobre o futuro da humanidade, desta vez em um romance que mistura crise climática, tecnologia, memória e sobrevivência. Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo, o autor afirmou que a inteligência artificial não representa ameaça direta à literatura porque não possui experiência humana real nem capacidade de sentir sofrimento. “IA não sente dor, então não ameaça a literatura”, afirmou o escritor.
McEwan lança o livro O Que Podemos Saber, obra que imagina um futuro marcado por catástrofes ambientais e mudanças profundas na organização social. O romance acompanha personagens que vivem após uma série de desastres climáticos e tenta compreender como a humanidade seguirá existindo diante de um planeta transformado.

Conhecido por romances como Reparação, Amsterdam, Solar e Enclausurado, McEwan é considerado um dos principais nomes da literatura britânica contemporânea. Ao longo da carreira, construiu obras marcadas pela análise psicológica dos personagens, discussões éticas e reflexões sobre política, ciência e comportamento humano.
Na entrevista, o autor afirmou que sempre teve interesse em observar os impactos das transformações tecnológicas sobre a vida cotidiana e sobre a própria ideia de humanidade. Segundo ele, a literatura possui uma função importante de registrar emoções, ambiguidades e experiências humanas que não podem ser plenamente reproduzidas por sistemas artificiais.
Embora reconheça os avanços recentes da inteligência artificial generativa, McEwan considera que as máquinas continuam incapazes de compreender aspectos fundamentais da experiência humana. Para o escritor, softwares podem reproduzir estruturas narrativas e padrões linguísticos, mas não conseguem acessar aquilo que nasce da vivência concreta das pessoas. “IA não sente dor”, repetiu ao comentar o debate sobre criatividade artificial.
McEwan argumenta que boa parte da literatura nasce justamente da capacidade humana de lidar com sofrimento, perda, memória, desejo e contradição — elementos que, segundo ele, não existem em sistemas computacionais. Durante a entrevista, o autor também comentou sobre o fascínio contemporâneo em relação à inteligência artificial e à automação. Para ele, existe uma tendência de atribuir às máquinas capacidades emocionais e subjetivas que elas ainda não possuem.
Ao discutir o novo romance, McEwan afirmou que sua preocupação principal não era prever exatamente como será o futuro, mas explorar como os seres humanos reagirão diante de mudanças radicais causadas pela crise climática. O livro apresenta um cenário em que eventos extremos transformaram cidades, populações e formas de organização social. Mesmo assim, o escritor afirma que sua intenção não foi produzir uma narrativa puramente apocalíptica.
Segundo ele, a humanidade possui longa experiência histórica de adaptação e sobrevivência diante de crises. McEwan relembra que sociedades humanas atravessaram guerras, epidemias, fome e colapsos políticos ao longo dos séculos e, apesar disso, continuaram produzindo cultura, relações afetivas e conhecimento.
Na avaliação do escritor, o futuro provavelmente será marcado por sucessivas adaptações em vez de um colapso absoluto e imediato. A entrevista também aborda a relação entre memória e identidade, tema recorrente na obra do autor britânico. McEwan afirma que a memória humana é fragmentada, falha e constantemente reinterpretada, característica que influencia diretamente a maneira como indivíduos compreendem a própria trajetória.
Para ele, o passado nunca é recuperado de forma totalmente objetiva. Em vez disso, ele é continuamente reconstruído pelas emoções e pelas experiências posteriores. Ao comentar a produção literária contemporânea, McEwan afirmou que continua acreditando no poder dos romances como ferramenta de reflexão sobre o presente.
Segundo ele, a literatura ainda oferece espaço para aprofundar questões humanas complexas em um contexto marcado pela velocidade das redes sociais e pelo excesso de informação. Mesmo diante do avanço tecnológico, o escritor acredita que os leitores continuarão buscando narrativas capazes de traduzir emoções humanas autênticas.
McEwan também falou sobre o processo de criação de “O Que Podemos Saber”. De acordo com ele, o romance nasceu do interesse em observar como ciência, política e comportamento humano se cruzam em períodos de instabilidade. O autor afirma que procurou evitar previsões definitivas sobre o futuro e preferiu trabalhar com possibilidades abertas e ambíguas.
Na avaliação do escritor britânico, o maior desafio atual talvez não seja apenas tecnológico, mas humano: compreender como sociedades irão reagir às mudanças ambientais e sociais já em curso.