O escritor americano Robert Jackson Bennett encontrou na obra de Jorge Luis Borges uma das principais inspirações para O Cálice Contaminado, romance que combina fantasia e investigação policial. O autor esteve no Brasil neste mês para participar do Festival Literário de Fantasia, em sua primeira visita à América Latina.
Bennett conta que conheceu ainda na infância o realismo mágico latino-americano e destaca o conto Funes, o Memorioso, de Borges, como ponto de partida para a criação de Dinios Kol, narrador do livro. Assim como o personagem argentino, Dinios é incapaz de esquecer qualquer detalhe. No universo da história, ele é um “gravador”, indivíduo biologicamente modificado para reter todas as lembranças.

Para equilibrar esse protagonista, Bennett criou a detetive Ana Dolabra, de quem Dinios é assistente. Enquanto ele registra minuciosamente fatos e pistas, cabe a ela interpretar os elementos e montar a solução do assassinato que move a trama.
A relação entre os dois remete à dupla formada por Sherlock Holmes e Dr. Watson, comparação que o autor aceita com naturalidade. Bennett também cita Agatha Christie como referência e afirma que pretende transformar Ana Dolabra em sua própria versão de Hercule Poirot.
“Eu poderia escrever um monte de livros sobre eles”, afirma. Nos Estados Unidos, a dupla já protagonizou três romances desde 2024, e um quarto volume será lançado em agosto. No Brasil, por enquanto, apenas O Cálice Contaminado, publicado pela Editora Aleph, está disponível.
Segundo Bennett, o livro nasceu do desejo de escrever a obra que ele próprio gostaria de ler. Sua proposta é imaginar como pessoas comuns reagiriam se fossem transportadas para um mundo fantástico.
“Uma boa razão para escrever é tentar descobrir como sinto e vejo as coisas. Eu escrevo muito e, para chegar a um livro de 50 mil palavras, descarto outras 300 mil”, diz.
O autor esteve no País ainda sob o impacto da conquista do Prêmio Hugo de 2025, principal reconhecimento da ficção científica e da fantasia. Ao comentar a vitória, Bennett adotou tom modesto.
“Sendo honesto, Adrian Tchaikovsky estava concorrendo com dois títulos e acredito que isso dividiu os votos dele. Meu livro, que seria o terceiro, acabou levando a melhor.”
Bennett já havia sido finalista do prêmio em outras ocasiões e, em 2023, perdeu justamente para Adrian Tchaikovsky. Ainda assim, reconhece os méritos da obra vencedora.
“Acredito que ganhei pelo mundo que construí, ele me deu muito trabalho.”
O universo de O Cálice Contaminado inclui casas feitas de plantas, muralhas que se abrem diante de venenos e estruturas militares que lembram sistemas de castas.
Conhecido por críticas frequentes ao governo de Donald Trump nas redes sociais, Bennett também incorpora reflexões sobre poder em sua ficção. No romance, os protagonistas não hesitam em investigar pessoas influentes.
“Eu queria escrever um mundo onde alguém realmente poderoso faz algo errado e paga as consequências — e isso é, provavelmente, o que faz do livro uma fantasia.”