Às vésperas de completar 30 anos, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo enfrenta uma forte redução no volume de patrocínios privados, principal fonte de financiamento do evento. A comemoração das três décadas da manifestação, marcada para o próximo dia 7 de junho, na Avenida Paulista, deve ocorrer com uma estrutura menor do que a das edições recentes, reflexo de um cenário de retração nos investimentos empresariais em ações de diversidade e inclusão.
Organizada pela Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a festa surgiu de forma modesta na Praça Roosevelt e, ao longo dos anos, tornou-se um dos maiores eventos do calendário oficial da capital paulista. Mesmo com a relevância alcançada, a iniciativa depende quase integralmente de recursos da iniciativa privada para sair do papel.

Segundo o presidente da associação, Nelson Matias Pereira, a perda de grandes patrocinadores provocou uma redução de 60% na arrecadação entre 2025 e 2026. O impacto já aparece no planejamento. Se no ano passado 19 trios elétricos desfilaram pela Avenida Paulista, a expectativa agora é de que o número fique entre 13 e 14.
O custo de cada trio ajuda a dimensionar o desafio financeiro. De acordo com Pereira, um único veículo custa, em média, R$ 100 mil. Desse total, cerca de R$ 85 mil correspondem ao aluguel do trio, enquanto o restante é destinado à contratação de equipes de segurança, incluindo os chamados cordeiros, responsáveis por isolar os veículos e evitar acidentes durante o percurso. Além disso, há diversas outras despesas relacionadas à logística e à estrutura do evento.
A Parada faz parte de um calendário mais amplo de atividades promovidas pela ONG, que também organiza a Feira Cultural da Diversidade e Empreendedorismo e a Corrida do Orgulho. Ainda assim, o financiamento continua fortemente dependente do apoio de empresas privadas, que, segundo a organização, têm reduzido progressivamente sua participação.
Pereira atribui essa mudança a transformações internas nas companhias e ao contexto político internacional. Segundo ele, a antiga verba específica para ações de orgulho LGBT, conhecida como “verba Pride”, passou a ser incorporada às estratégias de ESG, sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança corporativa.
“A verba Pride virou ESG, ela entrou numa outra categoria que abrange especificamente essa questão, mas vira uma verba para o social, para o meio ambiente, e aí o que já era diluído, ou o que era pouco, torna-se quase nada. E aí vem toda essa política do Trump”, afirmou, em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.
Na avaliação do dirigente, o fortalecimento de movimentos conservadores em escala global influenciou o comportamento das empresas, levando muitas delas a reduzir ou rever o apoio a pautas identitárias.
Durante o governo do presidente norte-americano Donald Trump, grandes companhias como Disney, Meta, Amazon e Google reduziram formalmente programas internos de diversidade, equidade e inclusão.
Para o especialista em diversidade corporativa Filipe Roloff, esse movimento é perceptível também no Brasil.
“O congelamento e a diminuição de investimento em iniciativas de diversidade e inclusão nas organizações são reais. Não é só um deslocamento, mas algo que acontece por uma mistura de fatores, entre eles a mudança de políticas externas e internas dos Estados Unidos em relação ao tema, o que afeta diretamente a forma como as multinacionais atuam e investem”, afirmou.
Na tentativa de recompor o orçamento, a organização da Parada procurou cerca de 300 empresas consideradas alinhadas às pautas defendidas pelo evento. Até o momento, porém, apenas duas fecharam contrato de patrocínio.
“As empresas chegam aqui querendo muita visibilidade, mas pagando quase nada. Estamos a 20 dias da Parada, e eu tenho só um grande patrocínio fechado”, relatou Pereira.
O cenário contrasta com o período posterior à pandemia, quando houve um crescimento expressivo do interesse corporativo. O número de patrocinadores saltou de uma média de quatro empresas para um recorde de 18 em 2024, impulsionado pela consolidação das agendas de diversidade no planejamento das grandes marcas. Ainda assim, a edição do ano passado já havia sinalizado uma mudança de tendência, com queda de cerca de 33% no número de investidores.
Na avaliação de Filipe Roloff, o recuo também está relacionado à politização crescente do debate sobre diversidade.
“Essa sensação de insegurança em relação a pautas polêmicas ocorre porque a diversidade é cada vez mais puxada para dentro da política. É bom que a conversa chegue às pessoas, mas é perigoso, porque chega de forma deturpada, com um cunho político desconectado da questão real e da importância dessas iniciativas para a sociedade”, afirmou.