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Clima

Crise climática reduz valor nutricional de alimentos básicos

Fenômeno ligado às mudanças climáticas agrava risco de “fome oculta” em países mais vulneráveis
Por O Correio de Hoje
18/05/2026 | 12:41

Enquanto furacões, secas prolongadas e ondas de calor costumam concentrar as atenções quando se fala em mudanças climáticas, um impacto menos visível do aquecimento global avança silenciosamente sobre a segurança alimentar mundial. O aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera tem reduzido o valor nutricional de alimentos básicos consumidos diariamente por bilhões de pessoas, agravando sobretudo a situação das populações mais vulneráveis.

O fenômeno contribui para a chamada “fome oculta”, quadro em que a ingestão calórica pode até ser suficiente, mas o organismo não recebe vitaminas e minerais essenciais para se manter saudável. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo — o equivalente a uma em cada três — já sofrem com esse tipo de deficiência nutricional.

Arroz foto Aires Mariga Epagri
Entre culturas mais afetadas, está o arroz - Foto: Aires Mariga / Epagri

Um estudo publicado no ano passado pelo Instituto de Ciências Ambientais da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, reuniu pesquisas conduzidas ao longo de duas décadas e constatou uma redução média de 3,2% nos níveis de nutrientes das plantas analisadas. Entre as perdas observadas estão micronutrientes fundamentais, como ferro, zinco e proteínas.

Entre as culturas mais afetadas estão o arroz e o trigo, pilares da alimentação global. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, o arroz é consumido por mais da metade da população mundial, especialmente na Ásia, na África e na América Latina. Já o trigo constitui alimento básico para mais de 2,5 bilhões de pessoas.

Pesquisas também apontam redução no teor nutricional de outros alimentos amplamente consumidos, como soja, ervilha, grão-de-bico, feijão e batata.

Parte desse processo é explicada pelo chamado “efeito de diluição” do carbono. Com maiores concentrações de CO2 na atmosfera, as plantas intensificam a produção de carboidratos, como açúcares e amido, que servem como combustível para o crescimento vegetal. No entanto, esse crescimento não é acompanhado por um aumento proporcional na absorção de minerais presentes no solo.

O resultado é um alimento que pode apresentar maior valor energético, mas menor concentração de nutrientes essenciais.

Embora a queda média de 3,2% possa parecer modesta à primeira vista, os efeitos tornam-se mais graves quando se considera a desigualdade na alimentação entre os países.

Em nações mais ricas, a diversidade alimentar tende a amenizar o impacto da perda nutricional em um alimento específico, já que a dieta costuma incluir múltiplas fontes de proteína animal, frutas e vegetais. Nos países de baixa renda, por outro lado, a forte dependência de grãos básicos torna a população mais suscetível a qualquer redução no teor de nutrientes desses alimentos.

Sete países apresentam situação classificada como alarmante no índice de má nutrição do Global Hunger Index: Somália, Madagascar, Síria, Congo, Zâmbia, Quênia e Libéria. Outros 35 países estão em situação considerada séria, a maioria na África e na Ásia.