Enquanto furacões, secas prolongadas e ondas de calor costumam concentrar as atenções quando se fala em mudanças climáticas, um impacto menos visível do aquecimento global avança silenciosamente sobre a segurança alimentar mundial. O aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera tem reduzido o valor nutricional de alimentos básicos consumidos diariamente por bilhões de pessoas, agravando sobretudo a situação das populações mais vulneráveis.
O fenômeno contribui para a chamada “fome oculta”, quadro em que a ingestão calórica pode até ser suficiente, mas o organismo não recebe vitaminas e minerais essenciais para se manter saudável. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo — o equivalente a uma em cada três — já sofrem com esse tipo de deficiência nutricional.

Um estudo publicado no ano passado pelo Instituto de Ciências Ambientais da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, reuniu pesquisas conduzidas ao longo de duas décadas e constatou uma redução média de 3,2% nos níveis de nutrientes das plantas analisadas. Entre as perdas observadas estão micronutrientes fundamentais, como ferro, zinco e proteínas.
Entre as culturas mais afetadas estão o arroz e o trigo, pilares da alimentação global. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, o arroz é consumido por mais da metade da população mundial, especialmente na Ásia, na África e na América Latina. Já o trigo constitui alimento básico para mais de 2,5 bilhões de pessoas.
Pesquisas também apontam redução no teor nutricional de outros alimentos amplamente consumidos, como soja, ervilha, grão-de-bico, feijão e batata.
Parte desse processo é explicada pelo chamado “efeito de diluição” do carbono. Com maiores concentrações de CO2 na atmosfera, as plantas intensificam a produção de carboidratos, como açúcares e amido, que servem como combustível para o crescimento vegetal. No entanto, esse crescimento não é acompanhado por um aumento proporcional na absorção de minerais presentes no solo.
O resultado é um alimento que pode apresentar maior valor energético, mas menor concentração de nutrientes essenciais.
Embora a queda média de 3,2% possa parecer modesta à primeira vista, os efeitos tornam-se mais graves quando se considera a desigualdade na alimentação entre os países.
Em nações mais ricas, a diversidade alimentar tende a amenizar o impacto da perda nutricional em um alimento específico, já que a dieta costuma incluir múltiplas fontes de proteína animal, frutas e vegetais. Nos países de baixa renda, por outro lado, a forte dependência de grãos básicos torna a população mais suscetível a qualquer redução no teor de nutrientes desses alimentos.
Sete países apresentam situação classificada como alarmante no índice de má nutrição do Global Hunger Index: Somália, Madagascar, Síria, Congo, Zâmbia, Quênia e Libéria. Outros 35 países estão em situação considerada séria, a maioria na África e na Ásia.