Lançado em 2025 pelo PL Mulher, braço feminino do Partido Liberal, o Projeto Alicerça Brasil tornou-se uma das principais ferramentas da legenda para ampliar sua presença entre o eleitorado feminino e consolidar uma rede de ativismo conservador em todo o País. Sob a liderança da Michelle Bolsonaro, a iniciativa combina formação política, religiosidade e pautas de costumes para incentivar mulheres a atuar em conselhos municipais, acompanhar o conteúdo das escolas e participar mais ativamente do debate público.
A estratégia foi detalhada em reportagem da Folha de S.Paulo, que acompanhou um encontro do projeto em Mauá, na Grande São Paulo. Reunidas em uma residência, cerca de 15 mulheres vestiam camisetas cor-de-rosa e seguiam as orientações de uma cartilha distribuída pelo partido. O material, também em tom rosa, propõe 12 temas de discussão e apresenta sugestões práticas para transformar o engajamento político em ação concreta.

Ao final de cada encontro, as participantes repetem em coro o lema do movimento: “Edificando a nação: Alicerçadas!”.
A proposta é que cada mulher se torne um ponto de difusão de valores conservadores em sua comunidade. O projeto trabalha com um modelo de multiplicação em cadeia: uma participante influencia outras 12, que por sua vez mobilizam novas mulheres, formando uma rede de alcance nacional.
A cartilha utiliza personagens fictícios e situações do cotidiano para introduzir temas como aborto, educação, família, participação política e críticas à chamada agenda “woke”. Cada capítulo segue a metodologia “Ver, Refletir, Iluminar e Agir”, combinando histórias, debates e propostas de ação.
Em um dos capítulos, o material aborda o caso de uma adolescente grávida pressionada a abortar e defende a adoção legal como alternativa. Em outro, recomenda que grupos de mães acompanhem o currículo escolar para identificar o que o texto classifica como doutrinação ideológica. Há ainda orientações para que mulheres participem de conselhos tutelares e municipais e organizem reuniões em casa para discutir política.
Um dos autores da cartilha, André Costa, coordenador de comunicação do PL Mulher, afirmou à Folha de S.Paulo que a proposta foi concebida para dialogar com o público de forma acessível. “As narrativas são usadas para estabelecer pontes e conexões, numa linguagem simples”, disse.
A estrutura remete ao método “ver, julgar e agir”, tradicionalmente utilizado por pastorais da Igreja Católica e movimentos populares. A diferença é que o PL adapta essa lógica para difundir valores conservadores e fortalecer a organização política da direita.
Durante o encontro acompanhado pela reportagem, a coordenadora local do projeto, Priscila Faria, fez questão de distinguir o movimento do feminismo. “Este não é de jeito nenhum um grupo de feministas”, afirmou. Segundo ela, o objetivo é incentivar mulheres a se tornarem protagonistas sem abrir mão de valores cristãos.
A esteticista Aline Biazotto, anfitriã do encontro, afirmou que passou a enxergar a política como parte do cotidiano. “Eu achava que todo político era corrupto até escutar uma frase do meu pastor: ‘Se os bons não se levantam, os maus tomam conta’”, relatou.
Ela resume sua visão sobre o papel da mulher em termos que refletem o discurso do grupo: “Não sou feminista, sou feminina. Meu marido é o provedor do lar e eu sou submissa no sentido dele cuidar de mim. Só que eu tenho conteúdo, sou inteligente”.
A proposta do Alicerça Brasil é justamente conciliar esse modelo tradicional de família com uma participação política mais ativa, especialmente em temas relacionados à educação, infância e costumes.
Presença nacional
O PL Mulher afirma que o Projeto Alicerça Brasil já está estruturado em todos os estados e em cerca de 2 mil municípios. A iniciativa integra um conjunto de ferramentas desenvolvidas para fortalecer o protagonismo feminino dentro do partido e ampliar a interlocução com eleitoras, sobretudo evangélicas.
Além da cartilha, o partido oferece cursos para candidatas, materiais de formação e um sistema de pontuação que recompensa as participantes mais engajadas com broches e níveis de reconhecimento.
Embora esteja afastada das atividades presenciais, por estar prestando assistência ao ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão domiciliar, Michelle Bolsonaro continua mobilizando lideranças por meio de encontros virtuais. Em uma transmissão, a ex-primeira-dama agradeceu o trabalho das coordenadoras regionais. “Nesse momento em que estou reclusa cuidando da nossa maior liderança, o meu marido, vocês estão cuidando do nosso movimento Alicerça Brasil”, afirmou.
A aposta do PL é reduzir a resistência de parte do eleitorado feminino ao bolsonarismo e consolidar uma base de apoio que vá além das campanhas eleitorais, criando núcleos permanentes de mobilização política em bairros e comunidades.
O que propõe a cartilha do Projeto Alicerça Brasil
- Participar para influenciar
Incentiva mulheres a ocupar conselhos tutelares, de educação, saúde e outros espaços de decisão.
- Fiscalizar o conteúdo escolar
Estimula a criação de grupos de mães para acompanhar o currículo e contestar temas considerados ideológicos.
- Valorizar o ensino técnico
Apresenta cursos profissionalizantes como alternativa mais prática e menos exposta a influências ideológicas.
- Defender a vida
Reforça posicionamento contrário ao aborto e sugere a entrega legal para adoção.
- Fortalecer a família
Defende políticas públicas voltadas à maternidade e ao modelo familiar tradicional.
- Promover educação política
Orienta as participantes a reunir amigos e familiares para discutir política e combater a omissão cívica.