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Futuro

“Cidade inteligente deve priorizar pessoas, não carros”

Pesquisador do Insper afirma que mobilidade urbana depende menos de tecnologia e mais de planejamento, transporte público e redução da dependência do automóvel
Por O Correio de Hoje
11/05/2026 | 14:35

Entre congestionamentos diários, mortes no trânsito e promessas de cidades inteligentes apoiadas por tecnologia e inteligência artificial, o principal desafio da mobilidade urbana brasileira ainda continua sendo estrutural. A avaliação é do coordenador do núcleo de mobilidade urbana do laboratório Arq. Futuro de Cidades, do Insper, Sérgio Avelleda. Segundo ele, o País segue preso a um modelo urbano que prioriza os automóveis em vez das pessoas.

Durante entrevista concedida na São Paulo Innovation Week, realizada pelo jornal O Estado de S. Paulo em parceria com a Prefeitura de São Paulo, Avelleda afirmou que o conceito de cidade inteligente vai muito além da adoção de novas tecnologias. Para ele, a transformação depende de planejamento urbano, fortalecimento do transporte público e redução da dependência dos carros. “Cidade inteligente é aquela que prioriza as pessoas, não os carros”, afirmou o especialista.

População Faixa de Pedestre (38)
Cidades eficientes priorizam ônibus, bicicleta e pedestres, diz especialista Foto: José Aldenir

Avelleda argumenta que os problemas enfrentados atualmente pelas grandes cidades não surgiram por acaso. Segundo ele, houve ao longo das últimas décadas uma expansão urbana que empurrou moradores para áreas mais distantes dos centros econômicos, enquanto os empregos permaneceram concentrados em determinadas regiões da cidade.

“O que vemos hoje é um problema de planejamento urbano. São Paulo desenvolveu o seu planejamento urbano levando as pessoas a residir cada vez mais longe do seu trabalho”, disse.

Na avaliação do pesquisador, essa lógica produziu um efeito direto sobre a mobilidade urbana: aumento do tempo gasto nos deslocamentos, dependência crescente do automóvel e pressão sobre o sistema viário. Ele afirma que ampliar avenidas e criar mais espaço para carros não resolve os congestionamentos.

“Não que eu seja contra investir em metrô e em transporte público, ao contrário. Ao mesmo tempo em que a gente investe em metrô, nós temos de investir para trazer as pessoas dos bairros periféricos para virem morar perto do trabalho”, declarou.

O especialista também criticou o que classificou como um modelo “antigo” de desenvolvimento urbano, baseado na centralização econômica e na valorização do carro particular. Segundo ele, cidades consideradas mais eficientes ao redor do mundo caminham em direção oposta, priorizando o transporte coletivo, os deslocamentos a pé e o uso da bicicleta.

Ao citar São Paulo, Avelleda lembrou que o município avançou em iniciativas ligadas ao bilhete único e à integração tarifária entre ônibus e metrô, mas avalia que os investimentos ainda seguem insuficientes diante da dimensão da cidade.

“O segundo foi que a cidade decidiu investir no carro como solução principal. Desde a metade do século 20, um pouco antes, São Paulo escolheu viabilizar o automóvel. Ele é um bem estranho, muito eficiente se for pouco usado. Se tem muita gente usando, ele fica ineficiente”, afirmou.

O pesquisador também comentou a redução de velocidade implantada em vias da capital paulista entre 2013 e 2016. Segundo ele, a medida trouxe resultados positivos na redução de mortes no trânsito. “As medidas adotadas de redução de velocidade entre 2013 e 2016 foram eficientes para diminuir a mortalidade no trânsito”, afirmou.

Para Avelleda, o conceito de inovação urbana costuma ser tratado de maneira equivocada quando limitado apenas à tecnologia. Ele reconhece a importância da inteligência artificial e de sistemas capazes de melhorar a gestão das cidades, mas ressalta que nenhuma ferramenta substitui políticas públicas estruturadas.

“A inteligência artificial é uma ferramenta que pode ser maravilhosa se o teu objetivo for ter um processo mais eficiente”, explicou. “Mas, se a sua pergunta for errada, ela vai te dar um lugar errado. Cidade inteligente não é a que usa robô, é a cidade inovadora socialmente.”

Segundo o especialista, um dos maiores erros das administrações públicas brasileiras foi acreditar que o aumento do espaço destinado aos carros resolveria os congestionamentos. Na prática, afirma ele, ocorreu justamente o contrário. “Aumentar espaço para automóveis dá mais espaço para automóveis”, declarou.

O pesquisador também rebateu a ideia de que apenas a eletrificação da frota resolverá os problemas de mobilidade. Embora considere positiva a substituição de veículos movidos a combustíveis fósseis, ele afirmou que a mudança, sozinha, não reduz congestionamentos nem melhora o uso do espaço urbano.

“Precisamos trazer ônibus elétrico, mas precisamos fazer com que as pessoas deixem o carro e a moto em casa para andar de ônibus”, afirmou. Ele defendeu investimentos contínuos em corredores exclusivos de ônibus, ciclovias e melhoria da infraestrutura para pedestres. Segundo Avelleda, cidades que apostaram em sistemas integrados de transporte coletivo conseguiram reduzir mortes no trânsito.

Ao falar sobre o futuro das cidades, o pesquisador disse que o crescimento global da frota de veículos representa um desafio adicional para os grandes centros urbanos. Ele citou estimativas de aumento do número de automóveis no mundo nas próximas décadas e afirmou que as cidades brasileiras precisarão rever seu modelo de desenvolvimento. “A supervalorização do automóvel é uma má notícia”, afirmou. “Nós não podemos fazer transporte público incentivando a compra de automóvel.” Avelleda reforçou que o debate sobre mobilidade urbana precisa deixar de tratar o carro como prioridade absoluta e passar a enxergar o deslocamento de forma mais ampla.