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Desenrola

Desenrola não traz garantias definitivas de saída das dívidas

Novo Desenrola oferece descontos de até 90%, mas economistas alertam para risco de retorno à inadimplência sem reorganização do orçamento
Por O Correio de Hoje
11/05/2026 | 14:04

O novo programa Desenrola foi relançado com a proposta de aliviar a pressão sobre o orçamento de famílias endividadas, oferecendo descontos de até 90% sobre dívidas bancárias para inadimplentes com renda de até cinco salários mínimos, equivalente atualmente a R$ 8.105. Especialistas em finanças pessoais e educação financeira, no entanto, avaliam que programas de renegociação, quando tratados de forma isolada, têm alcance limitado para resolver o problema estrutural do endividamento das famílias brasileiras.

A avaliação predominante entre economistas e planejadores financeiros é de que o retorno à inadimplência costuma estar associado não apenas ao nível elevado dos juros, mas também à dependência crescente do crédito para despesas básicas e à ausência de reorganização financeira após os acordos.

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Especialistas defendem educação financeira e organização do orçamento Foto: Reprodução/Internet

“Renegociar uma dívida sem mudar a dinâmica financeira que levou ao endividamento é como esvaziar um barco com um balde sem tampar o furo. O alívio imediato até existe, mas a água continua entrando”, afirma Carol Stange, especialista em finanças pessoais. Segundo ela, um dos principais erros é tratar a inadimplência como um episódio isolado. O risco de retorno ao endividamento, afirma, tende a ser maior entre trabalhadores autônomos, pessoas com renda variável e famílias afetadas por desemprego, doença ou separação.

Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educação Financeira, avalia que o Desenrola poderia aproveitar o momento da renegociação para incluir etapas obrigatórias de educação financeira e conscientização sobre consumo. “Se renegocia e continua gastando mais do que ganha, volta ao mesmo problema em poucos meses”, afirma. “O brasileiro precisa reorganizar o orçamento, reduzir excessos e construir reserva financeira. Sem isso, daqui a pouco vamos ter um Desenrola 3.0”, acrescenta.

Para Reginaldo Nogueira, diretor nacional do Ibmec, o avanço da inadimplência também reflete questões estruturais da economia brasileira, como crescimento limitado da renda e juros elevados. “Muita gente passou a usar cartão e parcelamento não para consumir mais, mas para fechar o orçamento do mês”, afirma.

Segundo os especialistas, antes de aderir a qualquer renegociação, o consumidor precisa avaliar se o orçamento familiar comporta as novas parcelas. Domingos afirma que o problema central não está necessariamente na existência da dívida, mas no comprometimento da renda acima da capacidade de pagamento.

A reorganização financeira recomendada inclui revisão de hábitos de consumo, corte de despesas consideradas excessivas e formação gradual de reserva de emergência. Carol Stange defende estratégias como consolidar dívidas em linhas de crédito mais baratas, restringir o uso do cartão de crédito ao valor que pode ser quitado integralmente e automatizar pequenos aportes mensais.

Na definição de prioridades para renegociação, especialistas orientam preservar despesas essenciais, como moradia, alimentação, água e energia elétrica. Reginaldo Nogueira afirma que dívidas ligadas a serviços básicos costumam exigir negociação mais urgente por envolverem risco de interrupção do serviço. Já contratos com garantia real, como financiamentos imobiliários e de veículos, também entram entre as prioridades devido ao risco de perda do bem.

Depois dessas obrigações, o principal critério passa a ser o custo financeiro das dívidas. Segundo Carol Stange, modalidades como rotativo do cartão de crédito e cheque especial, que concentram juros mais altos, deveriam ser priorizadas nos acordos.

Adrian Carvalho, planejador financeiro e CEO da Quartavia, afirma que muitos consumidores acabam adiando negociações à espera de descontos maiores, enquanto os juros continuam aumentando o saldo devedor. “Tem gente que pensa: vou esperar mais um pouco para sair de 70% para 85% de desconto. Mas a economia de juros perdida nesse período costuma ser maior do que o ganho adicional no abatimento”, afirma.

A nova medida provisória do Desenrola também determina que as instituições financeiras participantes destinem ao menos 1% dos valores garantidos pelo Fundo Garantidor de Operações (FGO) para ações de educação financeira. As iniciativas deverão ser pactuadas com o Ministério da Fazenda e executadas em até um ano.

A exigência foi considerada positiva por especialistas, embora ainda existam dúvidas sobre a implementação prática. Em nota, a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) afirmou que as medidas podem auxiliar consumidores na escolha de linhas de crédito mais adequadas à renda familiar, mas informou que as discussões operacionais ainda não começaram porque o foco atual do setor está na implementação do programa.

Outro ponto recorrente entre consumidores é a expectativa de que a dívida “desapareça” após cinco anos. Fernando Gambaro, especialista da Serasa em educação financeira, explica que o prazo extingue apenas a negativação do CPF nos cadastros de inadimplência. A dívida continua existindo e ainda pode ser cobrada administrativamente pelas empresas credoras.

“Ignorar uma dívida não a apaga. Apenas transfere o problema para um momento em que você pode ter menos poder de negociação”, afirma Carol Stange.

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